BRUNO
AZIZ: UM HOMEM E SEUS DILEMAS

Bruno
Aziz tem o rock n' roll no sangue. Deve ser coisa de família
mesmo, por que além de ser irmão de Tiaguinho Aziz,
(atual baixista da Cascadura, com passagens pela Brincando de Deus,
Rebeca Matta, Crack! e Nancyta & Os Grazzers, entre outras bandas),
o cara é também primo de Yuri Aziz (guitarrista da Dever
de Classe, clássica representação punk baiano).
Só que o instrumento que Bruno escolheu pra tocar é
outro. Não tem cordas, nem emite som. É o lápis.
O
interessante é que, mesmo assim, o trabalho desse descendente
de libaneses de 31 anos, nascido e criado em Salvador, continua sendo
rock n' roll pra caralho. Disparando suas tirinhas carregadas de humor
e eletricidade urbana desde o início dos anos 90 pelos fanzines
da vida, Bruno é hoje um dos melhores cartunistas baianos,
sempre com seus característicos traços oblíquos,
econômicos, precisos.
Bruno
traz em seus quadrinhos a vivência do jovem baiano que virou
as costas para o lado mais festivo e turístico de Salvador
- enquanto todo mundo corria atrás do trio elétrico
- em busca do lado mais selvagem, alternativo e marginal da vida.
Bruno sempre foi figura fácil na night rock soteropolitana
- é parte da cena, mesmo.
E
isso permeia seu trabalho, tornando-o um observador privilegiado de
uma realidade que poucos conhecem. Isso mais a carga de cultura pop
de filmes, quadrinhos e televisão são a origem que dá
vida a tiras sempre bem humoradas, mesmo que sejam de um puta humor
negro. Não se assuste se topar com alguém cozinhando
um suculento sarapatel de tripas humanas em uma de suas tiras. Ela
está lá só fazendo sentido.
Das
páginas xerocadas de fanzines caseiros, Bruno ascendeu, "subiu
na vida", e hoje, publica toda semana duas tirinhas coloridas
no jornal de maior circulação do estado, A Tarde.
Uma no Caderno Dez (que circula às terças-feiras) e
outra no A Tardinha (suplemento infantil que circula aos sábados).
Em ambas, demonstra pleno domínio de timing das piadas e sempre
arranca boas risadas de seus leitores - sejam eles de que idade for.
Isto é artigo raro, senhoras e senhores: é talento mesmo.
Por isso ele está aqui hoje. Conheçam agora um pouco
da sua história, influências e modo de pensar.
Chico
Castro Jr: Começar do começo: qual foi a sua primeira
revista em quadrinhos que você se lembra de ter em mãos,
lido, pirado e dito: é isso aqui que eu quero fazer na minha
vida?
Bruno
Aziz: Não teve assim uma revista. Desde pequeno eu gostava
de animais, sabe? Então eu pegava uma enciclopédia e
ficava copiando os desenhos. Comecei a desenhar por aí. Agora,
de quadrinhos, claro, tem os clássicos que a gente lê
lá na infância, Mônica e tal. Mas foi no final
dos anos 80 mesmo, aquela fase do Chiclete com Banana, Geraldão,
Circo, aqueles quadrinhos nacionais underground. Ali eu pirei.
O trio básico, né? Laerte, Angeli
e Glauco. E na Circo também, que
tinha outros autores, inclusive aquela galera da Europa, como Moebius,
foi aquilo que me deu o start.
CCJ:
A Animal, você lia também?
BA:
Pô, a Animal era do caralho. Puta revista, papel couchê...
CCJ:
Tinha aquele fanzine encartado no meio, o Mau.
BA:
É, depois a Chiclete até fez um parecido na linha do
Mau, o JAM... Mas a Animal era demais. Aquela época foi foda,
uma das melhores de todos os tempos para o quadrinho mundial. Rolava
bastante quadrinho de ficção. Depois os super-heróis
tomaram conta.
CCJ:
Aquela época dos anos 90, a era Image, com Spawn?
BA:
Aí eu já tinha parado. Eu me desanimei. Uma revista
mais ou menos daquela época de herói que eu me amarrava
era a Liga da Justiça. Aquele trabalho foi revolucionário.
Era J.M. de Matteis, se não me engano.
CCJ:
Ah, aquela fase da Liga cômica, de De Matteis,
Keith Giffen e Kevin Maguire.
BA:
É, aquilo eu achei massa, depois perdeu um pouquinho a graça,
mas as primeiras revistas são bem legais.
CCJ:
É verdade. Mas vem cá, como foi que você começou
a fazer suas tirinhas? Eu tava fuçando umas coisas antigas
minhas e encontrei um fanzine chamado Placebo, com várias tirinhas
suas. Como foi até chegar ali?
BA:
Aí foi o seguinte: em 1988, '89, eu entrei na Escola Técnica
da Bahia. Aí conheci uma galera lá que produzia quadrinhos
e fazia um fanzine chamado Penico. E foi essa a galera daqui que me
influenciou: o Hector Salas e o Afoba, que eram caras um pouquinho
mais velhos que eu - dois, três anos - e curtiam quadrinhos
pra caralho e curtiam fazer também. Fomos trocando idéia
e comecei com eles, ainda bem bruto o traço e tal.
CCJ:
Nessas suas tirinhas mais antigas no Placebo, dá pra se perceber
uma influência bem clara de Glauco.
BA:
É, o traço mais rapidinho... Na verdade, eu nunca tive
técnica mesmo, nunca estudei desenho, sacou? Então eu
busquei meu caminho sozinho mesmo, né? Eu me lembro que anos
atrás a gente ficava conversando pra caralho, eu, você,
Apú (guitarrista da banda baiana Sangria) e vocês ficavam
"tem que lançar esses seus quadrinhos, tem que lançar"
e tal. Mas eu me sentia muito inseguro em relação ao
traço sabe? Hoje em dia eu vejo aquelas tirinhas mais antigas
e... eu gosto pra caramba do texto ainda, sacou? Mas eu sempre tive
muita insegurança em relação ao traço.
Aí talvez por isso eu não tenha corrido atrás
depois que as coisas começaram a engatar, eu fui começando
a mexer mais com ilustração, eu nunca procurei lançar
e as pessoas me cobravam, né? Foi legal até, por que
depois eu tive essa oportunidade de colocar os trabalhos lá
no (Caderno) Dez.
CCJ:
Mas isso já foi bem depois, né? Anos depois. Mas esses
caras, o Hector Salas e Afoba, continuam fazendo quadrinhos hoje em
dia?
BA:
O Hector faz, ele trabalha como designer, mas tá sempre fazendo
coisas pra salão de humor... O Hector sempre correu muito atrás
e eu ficava na cola dele, e acabei conhecendo muita gente através
do Hector, como uma galera da UNEB que fazia uma revista, a Tudo
com Farinha (acho que só saiu uns três número).
CCJ:
E como foi sua trajetória até chegar no Dez? Você
hoje é meio que o cartunista oficial do Dez e também
da Tardinha (encarte infantil que circula aos sábados).
BA:
Eu saí da Escola Técnica e fui aprimorar meu trabalho
com outras pessoas. Pegava uma técnica aqui, via como uma galera
trabalhava ali... E aí, acho que depois de uns dois anos, isso
em 1992, 93, pirei em fazer um fanzine. Desenhei minhas historinhas
e chamei algumas pessoas, Afoba, Hector, e falei: "vamo fazer
por minha conta". O primeiro número saiu clandestinão,
a gente conseguiu fazer com um amigo da galera, o Fortaleza. A mãe
dele tinha uma gráfica, aí ele disse "é
nenhuma, pode fazer lá". De noite a gente invadiu lá
e fez. Esse primeiro número foi todo clandestino mesmo. Rodamos
só uns cem números, foi um pouquinho só. E era
muito ligado à galera do rock n' roll, né? Então
a gente fazia lançamento nos shows da Lisergia, distribuía
nos shows... Nessa mesma época comecei a trabalhar no Liceu
de Artes e Ofícios. Eu era aprendiz, trabalhava com uma galera
que tava fazendo vídeo lá. Mas sempre fazendo quadrinhos
também. Depois de um ano e meio, lancei o segundo número,
que eu mesmo banquei.
No
primeiro número tinha uma história que eu gostava muito
que chamava "Legalize jazz". Foi na época do hype
do primeiro disco do Planet Hemp e a historinha era no ano 2006! (Risos).
A gente achava que 2006 era o futuro e estamos vivendo ele agora,
né? Aí tinha um gurizinho chegando na favela pra comprar
a massa e aí ele encontrava aqueles “traficas”
- tudo mal encarado, marrento, e o guri todo sem jeito pergunta se
tem maconha, pá. Os caras esculacham o guri, dão um
pau na cara dele e ele sai todo quebrado, fudido, chega na saída
da favela, o amigo dele pergunta: "E aí, cara, conseguiu?"
"Tsc! Nada. O jeito vai ser comprar na banquinha de novo"!
"Me dá um maço de Cannabys Light aí, porra"!
(Risos). Aí tinha um aviso: "Evite problemas: maconha,
só da Souza Cruz"! (Risos). Na verdade, só teve
essas duas historinhas, mesmo. Essa daí e "O homem do
502-B", que é a do franco-atirador. Eu gosto muito delas.
Até hoje. Meu traço ali tava mais solto. Hoje eu até
sinto um pouco de falta disso, perdi um pouco isso.
CCJ:
Mas você solta as petecas no seu fotolog, rola umas ilustrações
bem loucas.
BA:
É verdade. Mas ali na época do segundo número
do Placebo eu comecei a trabalhar. Entrei no Liceu (de Artes &
Ofícios) de novo. Fui trabalhar no Marketing com programação
visual, diagramação, essas coisas. E tem uma coisa engraçada.
A gente fez o lançamento desse segundo fanzine e ali ele esgotou.
E eu achava que o fanzine tava massa e tal. Nem me lembro de quem
era o show. Eu sei que ali pelo fim da noite, tinha um monte de fanzine
no chão, jogado fora, sacou? Pô! Aí... deu uma
desanimadinha, sacou? Comecei a trabalhar, dei uma diminuída
na produção de quadrinhos. Fiquei trabalhando com design
e uma coisa e outra de ilustração. Cartilha, tal. Passei
uma época boa fazendo muito material educativo, sabe? Ilustração
pra ONG... Eu gosto de fazer, sabe? E fui deixando de fazer quadrinhos.
De vez em quando o Hector vinha "vamo lá fazer uma coletânea,
desenha um Dileminhas aí, tal".
CCJ:
Nessa época já rolavam os Dilemas (série de tiras)?
BA:
Já rolavam. Aí eu desenhava uma coisa ou outra, mas
fui deixando de lado. E foi aí que começaram meus problemas
de coluna, né. Quando descobri que tinha a hérnia de
disco, fiquei mal, doente. Fiquei afastado do trabalho seis meses,
em casa. Nesse tempo, pra não pirar o cabeção,
já que eu tava meio deprimido, voltei a desenhar. Fiz umas
três séries de Dilemas. Cada uma, com umas trinta tirinhas.
Aí depois que fiquei bom, fui fazendo o acabamento delas no
computador, sem pressa. E aí voltei a trabalhar. Saí
do Liceu, entrei na Cipó (Comunicação Interativa,
ong local que trabalha auxiliando jovens de comunidades carentes).
Fui dar aulas de quadrinhos pros adolescentes, lá. Fui super
relutante, mas uma pessoa que trabalhava lá, Mary Travassos,
que era coordenadora do Liceu na minha época de aprendiz, me
chamou pra fazer isso lá. Foi super legal, fiquei um ano. Um
dia a Mary chegou e disse que conhecia a Nadja Vladi, (editora) do
caderno Dez (caderno semanal dirigido ao público jovem do jornal
A Tarde). "Vamo fazer essa ponte aí, vou te apresentar
pra ela". Eu levei meu trabalho pra Nadja. Na época, ela
tava começando a fechar com o Adão Iturrusgarai (cartunista
que é o "quarto membro" dos Los Tres Amigos, criador
da Aline, entre outras). Não lembro se chegou a sair alguma
coisa dele na época. Acho que aquilo foi até antes da
Aline. Sei que eles iam fechar com o Adão, mas gostaram do
meu trabalho. E aí falaram pra mim: "vamos fazer".
Comecei
por aí. E brincando, brincando, já tô nessa há
quase... quatro anos. Naquela época eu ainda trabalhava na
Cipó e como frila, fazendo direção de arte em
casa. Resumindo: fiquei bom da coluna um ano, depois tive crise de
novo, fiquei bom, as crises iam e vinham. E essas crises eram punks.
Até que fiquei ruim de novo e fiquei um mês em encostado
em casa. Conhecia umas pessoas através do Dez e que conheciam
meu trabalho através do fotolog. Isso tem uns três anos.
Fiquei um mês em casa, só fazendo a tirinha semanal pro
Dez. O dinheiro era pouquíssimo, posso falar na boa, era R$
25,00 por tirinha. Isso durante três anos. No começo
é massa, divulgação da porra, é o maior
jornal impresso do estado, vai pra Bahia toda e até pra outros
estados. Mas chega uma hora que... Pô! Você começa
a precisar (de dinheiro), né? Só em casa, fazendo os
frilas e ao mesmo tempo com esse problema da porra (de coluna), toda
hora crise. Foi nessa época que fiz o fotolog e aquilo acabou
me motivando. Comecei a soltar mais o traço. Eu tava com o
traço ainda muito preso na época aos padrões
de ilustração editorial, cartilha, essas coisas. Foi
legal, comecei a fazer outras viagens, soltei mais o traço.
E fui conhecendo outras pessoas através do fotolog também.
Nesse meio tempo, fui chamado para fazer frilas lá no jornal
também. Há muito tempo atrás eu tirei as férias
de um cara que tinha lá, o Gentil, isso em 1998. A outra vez
foi em 2004, fiquei dois meses cobrindo as férias do Simanca
e do Cau Gómez, na seqüência. Aí abriu as
portas pra mim.
CCJ:
Você ficou fazendo o cartum diário do jornal mesmo.
BA:
Diário. Ao mesmo tempo, fui vendo como os caras trabalhavam
lá. Pô, os caras são foda! Ganham prêmios
por aí e não é a toa, não, eles são
foda. Aí fui ganhando um pouco mais de segurança no
meu traço, tal. Aí pensei, "pô, ainda vou
ter que trabalhar no jornalzão, mesmo". Mas pô,
não dá, o Simanca já faz a charge, ilustra um
pouco, Cau Gómez também ilustra e o Gentil. Já
são três pessoas. Não tinha muito espaço
pra entrar ali, fora esse esquema de tirar férias, não.
Mas o jornal resolveu fazer esse caderno infantil (A Tardinha). Aí
tinha uma demanda muito grande de ilustração. Tive sorte
e me chamaram lá. Já conhecia Iansã Negrão
(diagramadora), que me indicou lá e conheci o Pierre que também
trabalha lá, e que também me indicou. Mas tem uma galera
n'A Tardinha, o Cedraz também publica
o Xaxado lá, Flávio
(Luiz)...
CCJ:
Flávio é do Correio da Bahia.
BA:
Ah, é verdade, Flávio é do Correio. Quem sai
por lá também é o Luiz Augusto (tirinhas Fala,
menino!). Que já saíam no Caderno 2, na verdade. Acho
que eles queriam uma linha de trabalho mais flexível, eles
viram lá minhas ilustrações mais soltas no fotolog...
Nesse ponto, fotolog é importante pra caramba, divulga seu
nome. Eles me pediram uma tirinha (para o suplemento infantil). Aí
eu prontamente já tava com uma idéia.
CCJ:
Como é mesmo o nome da tirinha infantil?
BA:
Os Fabulosos Um Dois Três. São três super heroizinhos
- na imaginação deles, né? Meio ficção
científica, mas pra criança. E eu tô amarradão,
cara. Tô amarradão de fazer esse trabalho pra criança,
sabe? Me empolguei de novo.
CCJ:
Pô, e é legal que sua tirinha sai ali, na mesma página
que a tirinha infantil do Angeli (Ozzy).
BA:
Pois é, rapaz, tô lá todo metido, no meio entre
o Ozzy e o Ziraldo! (Risos). Aí consegui pleitear também
uma grana a mais, né? Pô! Vinte e cinco conto é
o que nego cobra pra fazer um cartão de visita. Acho que nem
isso! Agora eu ganho tipo metade do que os caras ganham, mas já
deu um upgradezinho... Mas é foda, viu velho! Pra nego reconhecer,
é foda! E olha que às vezes ainda atrasa e tal... E
ainda rolou um clima, um problema administrativo por que eu trabalho
lá registrado como ilustrador, deu um problema lá, eu
nem sei como vai resolver ainda. Terceirizado, tal. Aí eu falei:
"ó, essa tirinha não é meu trabalho como
ilustrador, isso é outro trabalho. Se não for pra me
pagar pela tirinha, chamem outra pessoa pra fazer, meu trabalho é
como ilustrador". Aí vão dar entrada na minha tirinha
como um serviço separado. Tá lá, tá correndo
[o processo].
CCJ:
Você tem alguma perspectiva de lançar suas tirinhas em
livro, tá em contato com alguma editora? Material pra isso
não falta, né?
BA:
Material não falta. Depois que eu tive essa oportunidade de
trabalhar em jornal, tipo, pra mim é mais vantagem - no momento
- eu me estabilizar aqui, sabe? No momento eu tô em contato
com uma distribuidora de quadrinhos de São Paulo chamada Paca
Tatu, e também com uma moça chamada Mônica, que
trabalhou muito tempo na Folhinha (suplemento infantil da Folha de
São Paulo), ela conhece o Angeli, Laerte, o Spacca... Eu tô
tentando ver com ela se eu direciono a Dilemas para algum jornal do
país, entende? Pra mim eu acho que é mais jogo, conseguir
publicar em outros jornais pelo Brasil e ir solidificando meu nome
por aí. E depois publicar minhas coletâneas. Agora eu
tô gostando muito de fazer a tirinha infantil lá da Tardinha,
é meu xodó. Daqui a um ano, dois, eu quero fazer uma
coletânea legal dela, com certeza.
CCJ:
Você se sente respeitado como artista? Quando as pessoas te
perguntam o que você faz da vida e você diz, "ah,
eu faço quadrinhos", você sente que as pessoas respeitam
isso?
BA:
Não, não me sinto, não. É foda isso...
Na verdade, tem gente que até respeita isso... Tô com
31 anos, trabalho com quadrinhos há mais de dez anos, uns doze,
e agora eu tô conseguindo meu sustento... Meu sonho é
isso mesmo, viver de ilustração, quadrinhos - e agora
eu tô conseguindo. Mas é super difícil mesmo.
CCJ:
Quem são seus clientes fora o trabalho da Tarde?
BA:
Mais ONG, eu não tenho muito contato em agência de propaganda.
Fiz uns postaizinhos pro Portela (Companhia da Pizza), ficaram bem
legais, ele pirou.
CCJ:
O cara é um incentivador das artes, né? Você,
Flávio, Cau Gómez...
BA:
Pô, Portela é massa. E paga bem.
CCJ:
O que você tem lido ultimamente de quadrinhos, o que tem te
chamado a atenção?
BA:
Rapaz, tenho lido pouco quadrinhos ultimamente. Falta tempo mesmo,
sabe? Tô louco pra ler uma historia do Grant Morrisson, We3:
Instinto de Sobrevivência e o Ladrão da Eternidade, do
Clive Barker.
CCJ:
Você tem uma vivência de rock n' roll que se reflete muito
no seu trabalho, você já teve banda, seu irmão
já tocou baixo pra [Brincando de] Deus e o mundo aqui em Salvador,
seu primo toca na Dever de Classe... E agora você tá
com uma nova série de tiras no Dez, chamada Rock Sujo.
BA:
É, o que aconteceu foi que a editora do Dez, Nadja Vladi, encheu
o saco da Dilemas (antiga série de tirinhas), chegou e falou:
"pô, Bruno, quatro anos de Dilemas, já chega, né?
Encheu o saco". Eu fiquei naquela [faz cara de perdido], "porra"...
Aí ela falou, "vamo lá, pensa aí numa outra
coisa, mais escrotinha", tal. Eu fiz "humpf! Peça
uma coisa mais escrotinha e depois fiquei limando"! Inclusive
quando eu fiz a primeiras, ela reclamou: " esses personagens
do rock tá todo mundo (na tirinha) muito com cara de decadente,
de velho"! Eu fiz [cara de perdido de novo] PÔ?!?!?! E
aí?!?! (Risos). "Mas tem que ser teen", Nadja falou...
Aí eu falei, “é, vou ter que encarar de outra
forma, fazer mais teen...”
CCJ:
Mas tá ótima, cara, eu tenho acompanhado.
BA:
É bom ouvir isso, por que eu ando inseguro pra caralho. Tem
que sair uma dessas por semana e eu tô assim... espremendo,
sabe? Inclusive eu tô fazendo uma coisa que eu nunca fiz, que
é escrever diálogos pra depois fazer a tirinha.
CCJ:
Tem umas situações bem comuns ali pra quem freqüenta
a night rock. O mala na fila da bilheteria, o mala que quer tocar
violão na festinha...
BA:
O mala que vive de filar cigarro... É festinha de rock, né?
CCJ:
Sua pegada tá muito Angeli. Você já pensou que
pode estar fazendo a crônica do underground baiano de hoje em
dia - como Angeli fez a do underground paulista nos anos 80?
BA:
Pô, já pensou, cara? Eu queria muito ter esse pique criativo
desses caras, mas tô te falando, eu espremo pra sair uma tirinha
por semana. Tem vezes que até sai mais, faço duas, três
em casa, mas com esse problema de coluna eu não posso ficar
muito tempo na prancheta ou no computador, saca? Atrapalha muito.
CCJ:
Pergunta besta, só para concluir: Se você pudesse ser
um personagem de quadrinhos, super herói ou não, qual
seria?
BA:
Rapaz! Caralho, que pergunta massa! (Risos). Não sei... Pra
falar a verdade, acho que eu queria ser um daqueles personagens das
histórias do [Milo] Manara, pra comer aquelas mulheres maravilhosas!
(Risos). Não, sei lá. [Pensa mais um pouco]. John
Constantine, vá!
Veja
algumas tiras de Bruno aqui e visitem
o Fotolog dele.