José Salles
Às vezes a vida parece mais estranha que a ficção e algumas coincidências parecem realmente inacreditáveis. Há alguns meses conhecemos o artista Jorge Zugliani, o Jozz, e descobrimos que ele é um conterrâneo nosso com quem não esbarramos antes por puro acaso. Mais recentemente, fazendo a visita semanal à banca de revistas em Jaú, o Diego viu um monte de novas revistas nacionais, algumas com personagens bem conhecidos, como o Raio Negro, e ao conferir o expediente das publicações descobriu que se tratava de uma editora da cidade, a SM Editora. "Como isso é possível?", ele pensou. Tempos depois vimos algumas notas sobre estas publicações estarem chegando aos grandes centros e finalmente decidimos entrar em contato com a editora, pelo menos para perguntar como ele foi ter a idéia de fazer em uma cidade do interior de São Paulo com pouco mais de cem mil habitantes. Desobrimos assim mais um caso de perseverança nos quadrinhos, uma editora de um homem só que investe tempo e dinheiro para oferecer materiais diversificados ao público leitor. O projeto de José Salles, apesar de modesto é ousado: publicar quadrinhos, clássicos e novos, para um novo público que não seja formado exclusivamente por fanboys. Uma espécie de conservador assumido dos quadrinhos, ele tem uma postura firme quanto à estética e o mercado atuais que defende sem receio. Ele não se deixa influenciar por padrões estabelecidos e busca criar seu próprio formato para seus materiais e não se importa em colocar suas publicações em listas da mídia especializada. Na entrevista abaixo, José Salles fala da criação da editora, do contato com alguns do maiores criadores de quadrinhos no Brasil e defende sua postura de completo independente que busca abrir um estrada inteiramente nova para a publicação de quadrinhos nacionais.
Pop Balões: Quando começou a editora?
José Salles: Isso foi quando eu morei em São Paulo por quinze anos e depois retornei para cá (Jaú). Isso foi em 2005 e por volta de julho saiu o Máscara Noturna, com ajuda do amigo (Eduardo) Manzano, que é de São Paulo.
P: Você estava morando em São Paulo e foi lá que você teve contato com esse pessoal?
J: Sim, morei quinze anos em São Paulo e o tempo todo fazendo fanzines e fiz vários contatos lá.
P: E que tipo de trabalhos você fazia nos fanzines? Eram de quadrinhos?
J: Eu não comecei fazendo totalmente dedicado aos quadrinhos. Eles falavam muito de cinema. Os fanzines tinham histórias em quadrinhos também, mas especificamente de quadrinhos, inclusive com histórias foi por volta de 2002, 2003.
P: Daí você veio para jaú e continuou dando seqüência.
J: Sim, aí fui dando continuidade e foi embalando.
P: O primeiro título grande, em termos de independentes, foi a Mosca no Copo de Vidro?
J: Não, eu tinha feito vários outros antes. Em A Mosca eu participei só financeiramente com aquela divulgação na contra-capa. Sobre a parte estética eu nem abri boca, foi tudo eles que fizeram.
P: Mas o material da editora você mesmo edita?
J: Ah sim, eu edito, organizo e sou roteirista também.
P: Você está lançando material seu?
J: Sim. O Máscara Noturna mesmo é roteiro meu.
P: Agora a SM começou a lançar umas coisas bem diferentes e bacanas, como o Gaúcho, o Corcel Negro.
J: Sim, já tem mais de dez títulos rodando por aí.
P: Com personagens clássico inclusive.
J: Sim, o Raio Negro e o Gaúcho, que são os dois personagens com cujos os autores eu tive contato, e tenho ainda, já que estão vivos. O autor do Raio Negro (Gedeone Malagorne) está doente, velhinho, mas atuante. E o autor do Gaúcho (Júlio Shimamoto) está em pleno vapor, com 64 anos e felizmente cheio de saúde.
P: A histórias do Raio Negro são todas republicações ou tem material novo?
J: São todas histórias que saíram na década de 60. O autor do Raio Negro infelizmente não tem mais condição de produzir. Mas vamos ver o futuro, se alguns outros autores podem desenhar.
P: Teve aquela história conjunta com o ...
J: O Meteoro. Pois é, é uma saída.
P: Foi legal a história porque mostra como a geração de agora ainda gosta do Raio Negro e tem como uma referência.
J: Claro, se bem que o autor do Meteoro não é tão de agora, tem a minha idade, uns 40 anos mais ou menos. Mas é legal, claro que é legal. Porque aí sim, lançando, tem chance do público mais jovem conhecer.
P: E como tem sido a distribuição e a divulgação?
J: Olha, a distribuição que é o X do problema. Eu distribuo aqui em Jaú e consegui através de um dos parceiros que é o Marcelo Rodrigues, autor do Piadas do Marcelo, que é outro gibi que nós temos, ele deixa lá em meia dúzia de bancas em João Pessoa, consegui uma banca no Rio e graças ao amigo Worney, o historiador de quadrinhos lá de São Paulo, está nos pontos atendidos pela Comix em São Paulo. Eu acho que se tiver divulgação nacional as tiragens vão esgotar fácil, fácil.
P: Você está trabalhando com tiragens pequenas?
J: Sim, tiragens pequenas. As tiragens são de 500 exemplares.
P: E feito em gráfica daqui?
J: Feitos na Real Artes Gráficas desde o primeiro. É a gráfica da Maria Lúcia e do Roberto, que dão uma ajuda sempre.
P: Eu sinto uma falta de uma presença maior na internet.
J: Realmente. Mas agora não tem tão pouco. Tem a divulgação no Bigorna e agora tem um blog (http://smeditora.uniblog.com.br)
P: Ah, tem um blog?
J: Tem, o amigo Eduardo Manzano criou. Um dos motivos de eu não estar tão na internet é que eu não sei mexer muito bem em computador. Não sei criar site, blog nem nada. Mas felizmente os amigos estão aí para ajudar.
P: A gente também não sabia, quer dizer, a gente ainda não sabe. Se mandar fazer outro ...
J: Tem alguém que faz para você?
P: Não, a gente mesmo faz tudo, tem alguma ajuda dos amigos para aperfeiçoar, mas no geral o trabalho braçal é nosso.
Você se considera uma editora ou um editor de revistas independentes?
J: Uma editora tem que ter razão social, funcionários. O Leonardo Santana tem um nome interessante para o site (http://www.leonardosantana.com.br/) dele: A Bodega de un Hombre Solo. Sabe como é, hoje com um computador e uma impressora dá para fazer uma editora.
P: E desde que você começou e está fanzendo fanzines, você ainda acha que o papel ainda é o formato ideal?
J: Para mim é. Mesmo porque você vê tantos casos na internet de e-zine que o cara tira do ar e some. Para a história é como se nunca tivesse existido. Até eu morrer vai de papel mesmo. Nem que eu esteja fazendo tiragem de um exemplar só para eu ler.
P: Uma coisa que eu tenho me preocupado é que mesmo os fanzines desaparecem.
J: É, mas tando em papel tem como achar. Você pode achar um colecionador que pode fazer uma cópia para você. Mas esses zines virtuais somem para sempre.
P: Você tem resgatado muito os autores clássicos. Você acha que falta algo na geração atual?
J: Olha, com a atual eu nem me preocupo mais, eu me preocupo em fazer quadrinhos para uma nova que vem aí. Tanto que eu estou divulgando fora de Universo HQ e essas frescuradas aí. Procuro fazer para pessoas que nem nunca ouviram falar disso, não sabem quem é Alan Moore, Neil Gaiman, esses caras que eu não gosto. E para a geração atual realmente não tenho mais nenhuma preocupação em agradá-los ou não.
P: E qual que é o público da SM?
J: Está se formando ainda.
P: Mas trabalhando em um espaço tão pequeno você tem como saber qual é a cara do seu público.
J: Ainda não. Mas eu estou fazendo. Estou inclusive ajudando o time de basquete da cidade e no primeiro jogo distribuí 60 gibis. Na certa para pessoal que nem está sabendo de quadrinhos e tudo mais.
A intenção realmente, dentro das minhas limitações, na minha seara é claro, é fazer uma geração de quadrinhos diferente dessa aí, porque essa vai morrer com Alan Moore no colo.
P: Você está fazendo o que as editoras grandes deveriam fazer no sentido de criar um público novo. Mas de onde veio essa idéia de criar um público diferente?
J: Na própria militância. Porque a editora além de um trabalho estético é um trabalho político. Você está mexendo com pessoas e tal. E através do desprezo do pessoal do Universo HQ, o pedantismo do pessoal que fica exaltando Alan Moore, eu fui procurando minha turma.
Eu estou falando mal do Universo HQ porque eu não engoli ainda o que eu ouvi, principalmente na comunidade do Orkut do Universo HQ.
P: Mas o que foi?
J: Principalmente o editor da Set.
P: O Sadovski?
J: É exatamente.
P: Mas o Sadovski não é ligado ao site.
J: Mas eles destratam qualquer tentativa. Eu nem entrei na discussão, mas eu li tudo que falaram. Apareceu um outro dia, que deve um perfil falso, que entrou na comunidade de Quadrinhos Brasileiros para falar que Emir Ribeiro é um farsante, que Gedeone Malagorne morreu.
P: Mas esses dias saiu uma resenha do Gaúcho (publicação da SM) no Universo HQ.
J: Mas também, francamente. É questão de que tem que engolir, como vai deixar de divulgar o Shimamoto? Como também já divulgaram o Raio Negro, como vai deixar de divulgar. Mas se você puder achar as primeiras críticas do Raio Negro e do Máscara noturna... nossa. E só mencionaram os mais conhecidos, os outros nem mencionaram, e nem quero que mencionem mais.
P: Nesse caminho que você tem seguido, a SM já tem uma estética própria?
J: Então, agora eu estou començando, com o passar do tempo eu estou começando a definir. É uma empreitada bem reacionária. Reacionária no sentido de rejeitar o que está circulando aí e tentar trazer de volta as bancas um tipo de quadrinhos que existia até a década de 80.
Então por isso que é reacionária. Não no sentido chulo da palavra, mas uma reação mesmo ao atual estado das coisas.
P: Mas a gente vê também que não tem aquele apelo a nostalgia.
J: Sim, é a diferença entre o nostálgico e o reacionário. O nostágico fica só contemplando: “ Oh, como era belo o passado”.
P: Vocês estão tentando dar continuidade mesmo.
J: Sem dúvida. Coisa para o presente e o futuro, mas resgatando o passado.
P: Você é leitor de quadrinhos até hoje?
J: Os de hoje eu não leio.
P: O que você gosta de quadrinhos internacional?
J: Eu lia a Marvel anos 60 e 70, gosto muito. Lia quadrinhos underground, Crumb, e quadrinhos italianos. Esses sim, eu leio até hoje e faço coleção dos quadrinhos Bonelli: Zargor, Tex... Adoro.
P: Os quadrinhos Bonelli, ao contrário dos americanos, parece que não mudaram tanto com o tempo.
J: Eles melhoraram com o tempo. Tanto que o Tex quando eu era adolescente eu não comprava tanto. De uns anos para cá, adicto.
P: E pra quem gosta de Bonelli hoje está bem servido.
J: Estava mais uns anos atrás, quando tinha Nick Rider, Mister No, mas não dá para reclamar.
P: O que você acha que aconteceu para ter essa ruptura de algumas pessoas, como você, gostarem de quadrinhos americanos até o começo da década de oitenta?
J: Aconteceu a partir de Alan Moore, Neil Gaiman, essa frescurada que usam os quadrinhos para próprias angústias pessoais ou para elocubrações políticas descabidas. Vai ver que é isso. Afastou do que poderia agradar o povão, as publicações foram ficando mais caras. Sem contar que Marvel e DC está uma ruindade crescente dos anos 90 para cá.
P: Você acha que esse caminho de quadrinhos mais adulto que se seguiu a partir do Alan Moore, a linha Vertigo... você discorda dele?
J: Não é questão de discordar, eu não gosto. Não me atrai. Quer fazer faça, mas se for fazer isso faça. O problema é que se ficar só nisso acaba, essa é a última geração de leitores de quadrinhos, eu acho, não querendo ser um profeta.
Não é questão de ser contra. Contra, esteticamente, eu sou. Eu gosto de fazer coisa que é o avesso daquilo. Mil vezes trabalhar com o autor do Corcel Negro do que aquilo.
Eu estou aprendendo agora com a SM que quadrinho tem que ser entretenimento, tem que ser para agradar o leitor. Não essa ideologia derrotista de Neil Gaiman. Eu acho muito ruim.
P: E o que você acha que agrada o leitor?
J: Simplicidade. O que quer quer ver o leitor de super-herói? Quer ver ele brigar com o vilão, quer ver uniformes bacanas, o de terror quer ver sangue tripas e mulheres bonitas.
P: E isso tem vendido?
J: Aí é que está. Por isso que eu digo que eu estou fazendo para uma nova geração, porque para essa daí eu não tenho nem esperanças. Mas eu também não posso reclamar porque as vendas estão sendo superiores ao que eu esperava.
É o que eu disse, seu eu tivesse distribuição nacional as tiragens iam vender rapidinho, mesmo sem divulgação. Primeiro, é mais barato, é uma coisa diferente. Eu acho que está sendo um caminho positivamente surpreendente.
P: E esse formato simples e barato é proposital? Você não tem a pretensão de um dia fazer um álbum do Raio Negro?
J: Sim, gostaria de lançar um álbum, é claro, não critico isso, o problema é ficar só nisso.
P: Você tem falado de uma nova geração, algo que vem crescendo entre os jovens é o mangá. O que você acha disso?
J: Eu acho bacana. Eu leio mangás para adulto. Leio os para adulto porque os para crianças não dá para ler porque tem muita poluição visual e até irrita os olhos.
Caiu na minha mão o Astro Boy, que era um desenho que eu assistia, mas eu não consegui passar da página 10. Em compensação tem uns mangás para adulto que eu não abro mão. Lobo Solitário não pode faltar na minha coleção. E andei lendo alguns boas de mangá: Sanctuary, Battle Royale...
P: Monster...
J: Sim, Monster é apavorante.
P: E você acha que essa molecada evolui para outro tipo de quadrinhos?
J: Espero que sim. Evolua não, amplie.
P: E essa história de que com internet, televisão, games, as pessoas estão lendo menos.
J: Não só por isso, eu acho que há um emburrecimento geral e a decadência do ensino que influência mais do que as outras mídias.
P: Você poderia falar um pouco o que tem de atrativo nas publicações da SM?
J: Você tem que pensar uma coisa, infelizmente ainda não dá para dissociar a editora - editora entre aspas - do meu próprio gosto pessoal. Eu estou publicando o que eu gosto mesmo, às vezes só eu gosto mesmo, então outras pessoas podem não gostar. Mas o que eu quero daqui para frente, cada vez mais, lançar coisas otimistas que entretenham e elevem a moral do leitor.
Vou dar um exemplo. Vou lançar brevemente um gibi do Benjamim Pepe. É um gibi produzido por um artista chamado Paulo Miguel Anjos e ele é presidiário em Mongaguá e tem um trabalho muito otimista. Então eu pensei como que um cara que está em uma situação dessas pode fazer um trabalho tão otimista e eu estar fazendo coisas pessimistas. Então é isso que eu quero daqui para frente. Mesmo quando for tratar de tema barra pesada, deixar uma esperança.
P: E esses autores você está procurando, eles estão te procurando?
J: Eles procuram, inclusive está até uma confusão, porque estão achando que eu posso resolver o problema do quadrinho brasileiro.
P: Na sua coleção o que não pode faltar?
J: Quadrinhos brasileiros das décadas de 60 e 70, Fantasma, Mandrake e os Bonelli. Mesmo Marvel dos anos 60 e 70.
P: Tem uma pergunta que a gente faz para todos os entrevistados: Por que quadrinhos?
J: A isso é difícil saber. Por que o céu nasceu azul? A gente nasce com isso. Os espíritas falam que a gente herda dos antepassados, talvez algum antepassado meu já lia.

(arquivo pessoal de Shimamoto, de onde está sendo extraído o Gaúcho)


(foto de parte da coleção de José Salles)

(Diego e José Salles)

(José Salles e Zé Oliboni)