Havey Kurtzman

Nasceu em 3 de Outubro de 1924, em Nova Iorque. Ainda criança, tinha o hábito de desenhar com giz tiras de seus personagens Ikey & Mickey nos muros e calçadas da vizinhança. Aos quinze anos, venceu um concurso da revista Tip Top Comics, cuja premiação foi a publicação do desenho enviado e a fabulosa quantia de um dólar.

Em 1942, aos 18 anos começou sua carreira profissional como escritor e desenhista freelancer. Ele conseguiu trabalho com Lou Ferstadt, que produzia quadrinhos para editoras como Prize e Ace e costumava empregar jovens artistas recém saídos da escola (como Harvey, que havia acabado de se formar na High School of Music and Art). O primeiro trabalho de Harvey foi como assistente de Louis Zansky na adaptação de Moby Dick para a coleção Classics Illustraded.

Decidido a ficar na profissão, o primeiro trabalho realmente assinado por ele foi a capa de Super-Mystery Comics (volume 3) número 3 e a história Mr. Risk nesta mesma edição de janeiro de 1943.

Em seguida, Harvey foi servir o exército e quando voltou o mercado de quadrinhos havia mudado consideravelmente. Harvey estava a procura de emprego em Nova Iorque e até cogitou abrir seu próprio estúdio em sociedade com Charles Stern e seu companheiro de escola Bill Elder. Mas logo conseguiu um trabalho com Stan Lee, ainda na época da Timely Comics, para escrever e desenhar as histórias de uma página de Hey Look! sem interferências editoriais. Neste trabalho que é considerado o melhor desta fase de sua carreira, Kurtzman aprimorou sua habilidade para desenhar cartuns e elaborar uma piada graficamente. Uma compilação do material de Hey Look! foi publicada pela Kitchen Sink Press em 1992. Depois Elliot Chaplin, editor da Toby Press, o contratou para produzir alguns trabalhos e pela primeira vez Harvey, já um artista maduro, expôs todo seu talento em uma narrativa extensa toda feita por ele.

Harvey começou a trabalhar para a Mad em 1949, criando capas e histórias para as revistas de ficção científica e horror da editora. Pouco tempo depois, já editava os títulos Frontline Combat e Two-Fisted Tales, impondo sua marca pessoal sobre eles. Alguns dos maiores artistas do momento ilustravam aquelas histórias, mesmo assim Harvey insistia em mostrar-lhes como fazer.

Kurtzman era conhecido por ser obcecado pelos detalhes, geralmente esboçava layout completos e idéias para as histórias que ele passava para outros artistas e insistia que eles não deveriam fugir das suas diretrizes. Apesar (ou por causa) do seu estilo auto-crítico, seu trabalho no começo da década de 50, principalmente na Mad, ainda está entre os melhores no seu estilo. Com todo esse perfeccionismo, as histórias de Kurtzman ganhavam muito mais verossimilhança e impacto.

Decidido a apostar no seu talento para o humor (que havia sido decisivo para que Bill Gaines o contratasse), em outubro de 1952 Harvey lança o primeiro número de Mad. Editada pelo próprio Harvey, a revista tinha muito do seu estilo de fazer humor. Ele permaneceu na revista por 28 edições, 23 no formato comic book e 5 no formato magazine

Durante a década de 50, Kurtzman também foi um dos escritores da nova série de tiras de Flash Gordon nos jornais. Contudo, a veia humorística de Harvey não poupou sequer este trabalho com um ícone da aventura em quadrinhos e em uma edição de Mad de 1954, apareceu Flesh Garden, ilustrado por Wally Wood.

Em parceria com Hugh Hefner, editor da Playboy, em janeiro de 1957 Harvey lançou o primeiro número de Trump. Em seguida veio Help!, uma publicação considerada uma das primeiras manifestações dos quadrinhos underground.

A revista usava muito material de fotografias para montar sátiras em forma de fotonovelas. As imagens recortadas de filmes antigos eram encaixadas com novas e ousadas tomadas e misturadas a cenários loucos e complexos.

Em 26 edições, entre agosto de 1960 e setembro de 1965, Harvey produziu centenas destas histórias com aparições de personalidades como Dick Van Dyke, Gloria Steinem, Roger Price, Sylvia Miles, Orson Bean, Algis Burdrys, Ed Fisher, Phil Ford, Mimi Hines, Henny Youngman, Jack Carter, Jean Shepherd, Bernard Shir-Cliff, Russ Heath, Woody Allen, John Cleese, and many others. Os artistas e escritores que colaboraram na publicação eram tão famosos quanto eles: Gahan Wilson, Ed Fisher, Paul Coker, Jr., Phil Interlandi, Arnold Roth, Arthur C. Clarke, Ray Bradbury, Jack Davis, John Severin, Al Jaffee.

Ao mesmo tempo em que editava Help!, Kurtzman teve dificuldades financeiras e foi mais uma vez em busca de Hugh Hefner para conseguir um trabalho mais lucrativo. Assim nasceu mais uma obra-prima de Kurtzman ao lado de Will Elder, a longa série Little Annie Fanny, publicada nas páginas da Playboy de 1962 a 1988, parodiando as mesmas atitudes que a revista tanto promovia, além de brincar com o título de Anne, a Pequena Órfã (Little orphan Anne), uma tira muito conhecida na década de 30.

Como as histórias de Annie eram todas pintadas, elas exigiam muito esforço dos artistas, que precisam se revezar mas tinham que ser de qualidade. Ao longo dos anos, o time de artistas “assistentes” de Little Annie Fanny se formou com nomes como Jack Davis, Frank Frazetta, Russ Heath, Al Jaffee, Arnold Roth, Paul Coker, Jr., Larry Siegel, William Stout e outras lendas.

Considerado por muitos como o pai dos quadrinhos underground, Harvey colaborou com muitas revistas do gênero nos anos 70 e manteve um título próprio, chamado Kurtzman Comix, iniciado em 1976. Nesta revista, publicou em diversas seções de carta e editoriais palavras de incentivo para jovens criadores. Em 1975, é publicada a coletânea Illustrated Harvey Kurtzman Index e em 1977, na convenção de San Diego, foi homenageado com o troféu Ink Pot pelo conjunto de sua obra e suas contribuições aos quadrinhos.

Em meados dos anos 80, novos trabalhos de Kurtzman apareceram, a maioria em parceria com Sarah Downs, que já havia colaborado com Hravey na Playboy. Mas o mais aclamado trabalho de Kurtzman nos anos 80 foi Estranhas Aventuras, com histórias ilustradas por feras como Robert Crumb, William Stout, Sergio Aragonés, Tomas Bunk, Rick Geary, Dave Gibbons e Sarah Downs. No álbum estão presentes sátiras a quadrinhos, filmes e programas de tv da época, como O Super-surfista e Shmegeggi, o Homem das Cavernas.

Kurtzman sempre gostou de ver seus trabalhos reunidos em edições encadernadas e republicações. Durante toda a sua carreira como editor, ele mesmo organizou este tipo de edição para aproveitar o interesse do público pelo material das suas revistas. Merece destaque a edição autobiográfica My life as a cartunist, publicada em 1988.

Harvey Kurtzman faleceu em 21 de fevereiro de 1993. Devido ao impacto considerável causado pela Mad na cultura popular, Kurtzman foi descrito certa vez pelo New York Times como "uma das mais importantes figuras pós-Guerra da América". Seu nome foi dado para um dos maiores prêmios da indústria dos quadrinhos, o Harvey Awards, tão famoso, respeitado e disputado quanto o Eisner Awards.

Vez ou outra, algum criador do porte de Mark Millar ou Garth Ennis declara que se sentiu influenciado e inspirado por Harvey Kurtzman a fazer quadrinhos. Antes do Universo Marvel trazer as novidades em termos de aventura que os quadrinhos pediam depois de um final capenga da Era de Prata, o estilo trazido por Harvey foi a melhor opção para diversão de todo uma geração. Como mestre do underground, seu legado é muito mais difícil de se reconhecer, ainda mais por nós brasileiros, que não vemos muitas obras importadas deste gênero sendo publicadas por aqui.

 

 

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