Matérias

AS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS E SUA RELAÇÃO COM O LEITOR: COMO O DISCURSO SOBRE OS QUADRINHOS MUDOU O DISCURSO DOS QUADRINHOS

PARTE 3: A FIGURA DO AUTOR NAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS DOS ÚLTIMOS VINTE E CINCO ANOS

Diego Figueira

Outra característica dos quadrinhos derivada da interação entre fãs é a importância dada à figura do autor de revistas em quadrinhos, que passou definitivamente a ser estrela entre os leitores nos anos 80. O prestígio de alguns autores chega a ser maior do que o dos personagens com que ele trabalha, e a participação de um determinado autor em uma revista pode melhorar muito suas vendas (esta prática é muito comum nos quadrinhos de super-heróis, em que os personagens pertencem às editoras e vários autores se sucedem na produção de suas histórias).

Talvez o primeiro caso a expor esta tendência claramente tenha sido a ascensão de Frank Miller ao estrelato como autor inovador e de estilo muito próprio.Além do sucesso pelo trabalho em si, amparado por uma indústria que se tornava cada vez mais "marqueteira", o nome de Miller foi associado rapidamente ao crescimento das graphic novels nos EUA, especialmente no ramo de super-heróis, onde foram instrumento de uma intensa renovação estética e ideológica. Na seqüência, autores como Alan Moore, Grant Morrison, Neil Gaiman, Garth Ennis e outros passaram pelo mesmo caminho, dando força à idéia de coexistência entre uma visão autoral e os quadrinhos comerciais, de propriedade das grandes editoras, uma condição um pouco diferente do legítimo quadrinhos autoral que existe em outros mercados.

Para as séries mensais, a continuidade das histórias é valorizada, às vezes ao extremo. Cada edição se torna um capítulo na saga dos personagens e mesmo que do ponto de vista criativo a maioria das histórias seja repetitiva ou careça de originalidade, há muitos anos que a estrutura das revistas deixou de ser cíclica, com a trama voltando ao ponto inicial quando se conclui e reestabelecendo algum tipo de equilíbrio inicial. A história de uma edição sempre deixa um gancho para o mês seguinte, levando sempre para uma situação nova e ao longo do tempo os personagens se transformam dentro da série.

O trabalho do autor em histórias em quadrinhos é único. Isso porque a meta principal de todo autor, dar completude a uma personagem, é constantemente desfeita pelos leitores. Um autor de uma revista mensal tem de conciliar o trabalho de diversos autores que o precederam com as necessidades atuais da personagem apontadas no discurso dos leitores e da comunidade quadrinhística em geral (seus editores, o restante da equipe criativa de uma revista, outros autores que compartilham aquele personagem, os demais que observam seu estilo de narrativa, a crítica jornalística, etc).

O autor nunca trabalha sozinho e totalmente livre. Mesmo que uma única pessoa seja responsável pelo roteiro, o desenho a lápis, o acabamento à tinta, a colorização e o letreiramento, ainda existe o editor, que tomará parte do processo criativo em algum momento antes da publicação. A figura do editor nos quadrinhos é um tanto híbrida, meio administrativa, meio de criação. De certa forma é um mediador entre as necessidades editoriais da empresa e as soluções artísticas para elas. Sua atuação pode envolver mais de uma revista, articulando os eventos que levar ao final de um trabalho editorial. Em geral, com as grandes linhas das editoras, há uma equipe de editores subordinados a um editor-chefe que trabalha diretamente com os conceitos de "universo de personagens" e "cronologia".

É interessante notar que muitos editores têm uma origem fanboy, assim como os autores. São também, portanto, criadores de quadrinhos que trabalham lado a lado com escritores e desenhistas procurando preencher as lacunas da completude de um personagem. Mesmo atuando em atividades que podem não ser consideradas artísticas, o editor possui seu próprio excedente de visão estética a respeito das personagens propiciado pelo seu lugar específico nos trabalhos de criação. Do ponto de vista da filosofia da linguagem bakhtiniana, sua interpretação da personagem é tão legítima quanto a dos artistas com quem trabalha, ainda que fundada em termos de vendas e mercado, atividades de que derivam outros distintos gêneros do discurso em que os quadrinhos podem ser o tema.

A consciência do autor dialoga com as formas instáveis dos discursos que precedem o seu trabalho e circulam em meio à cultura de fã. Não só o que está diretamente ligado ao seu objeto de trabalho, mas tudo aquilo que lhe pode servir no processo de experimentação. Se o autor trabalha com uma franquia de uma grande editora, vai re-significar toda trajetória do personagem e as marcas de estilo de outros autores para encontrar o ponto em que pode se instaurar a completude. Sua condição será sempre de co-autor que se situa num momento diferente da criação artística, mas não em um sentido pejorativo por ter se apropriado indevidamente da obra alheia como um mercenário a serviço da editora que detém os direitos de publicação, mas como alguém que oferece uma nova perspectiva sobre uma determinada obra ou personagem baseada em diferentes conceitos e valores sobre a arte dos quadrinhos. Dada a instabilização do discurso da obra artística em contato com os diversos discursos que a re-significam, constantemente, enquanto as histórias de uma personagem forem publicadas, sua completude será desfeita e uma nova resposta estética, de caráter criador e produtivo, se fará necessária para devolvê-la ao seu estado inicial de completude.

A relação dialógica natural de qualquer obra artística ou literária com a tradição estética à qual pertence é ainda mais clara nas revistas de histórias em quadrinhos em que a sucessão de autores e temas é um dos elementos principais de toda uma indústria. A relevância da reputação de determinados autores no juízo popular dos leitores coloca essa relação em primeiro plano ao lado da obra artística em si, de modo que muitos leitores se sentem impelidos a comprar determinadas revistas pelo trabalho de um escritor ou desenhista mais do que pelo próprio personagem e sua história.

A completude de um personagem está ligada à estabilização do enunciado da obra artística enquanto o público interpreta o trabalho do autor como novo e totalmente verossímil segundo as “regras” de seu Universo e sua Cronologia. Uma vez que o público toma posse do significado da obra, este passa a ser questionado, decomposto e re-significado, sendo oposto aos outros trabalhos e outros personagens. A expectativa sobre a concretização daquela memória de futuro, em meio a todo tipo de influência que possa envolver uma obra industrializada, pressiona mais a completude da personagem, mais uma vez carente de estabilização.

De certa forma, o autor de quadrinhos parece estar, na maioria das vezes, se colocando como um leitor, um fanboy, que alcançou o direito de impor sua marca no personagem, com base nas leituras e no conhecimento "extra" que tinha sobre determinados personagens. Valendo-se disso como estratégia de marketing para anunciar a passagem de um criador por uma determinada revista, as próprias editoras alimentam esta relação com seu público leitor, esperando que ela continue levantando questões criativas e novas abordagens de seus personagens, de modo que eles possam continuar vivos na memória de todos.

Leia o Texto Anterior da Série


Esse texto faz parte do nosso Ciclo Científico, com a proposta de divulgar a produção cietífica sobre quadrinhos em seus mais diversos aspectos. Se você também é pesquisador, mande seu texto para nós.

 
   
 


Comentários no nosso boteco ou por e-mail

Retornar a página inicial