Muitas
vezes as histórias em quadrinhos contrariam todo tipo de
lógica que possa se aplicar a outros gêneros de literatura
e indústria cultural. Mesmo quando parecem que os responsáveis
pelas histórias querem expulsar os leitores da banca, esses,
sem qualquer explicação aparente, vêem algo
de surpreendente que lhes faça continuar acompanhando cada
edição.
O
caso mais recente vem sendo protagonizado pelos X-Men
de Joss Whedon (criador das séries televisivas
Buffy e Angel) e Joe
Cassaday (desenhista da ótima hq Planetary).
Em meio à toda “reformulação”
que a Marvel fez com os títulos mutantes, Astonishing
X-Men representa o único ponto de interesse dos leitores,
que estão vendo pela enésima vez as idéias
do fundo da gaveta de Chris Claremont, além
de uma série de bizarrices de outros criadores. Sem contar
que ninguém esperava que Whedon fizesse um bom trabalho
por pressuporem que ele não conhecia bem os personagens.
O que já de cara ele mostrou estar muito longe da realidade.
Caso ele não conhecesse tudo, pelo menos fez uma pesquisa
muito boa e mostrou isso logo no primeiro número resgatando
cenas clássicas dos mutantes.
Curioso
é que Whedon fez coisas que poderiam muito bem ser consideradas
insultos à inteligência do leitor, como desfazer
a morte de Colossus e traze-lo de volta ao lado
de Kitty Pride. O casal já havia sido
formado na época em que Claremont escrevia bem os títulos
mutantes e era acompanhado do talentoso Dave Cokrum
nos desenhos. Mas os dois nunca formaram uma relação
com que o público se identificasse e o romance não
vingou totalmente.
Agora,
quem olha o trabalho de Whedon e Cassaday enxerga ali uma combinação
de elementos de Colossus e Kitty que os faz um casal perfeito,
em termos de ficção. A relação dos
dois ganhou ares de obra prima com a oposição de
personalidades e características dos dois. De um lado,
o enorme, invulnerável e pesado Colossus. Do outro, a jovial
Kitty, dotada de uma leveza que lhe permite atravessar paredes.
Mas
como pensar que somente Whedon possa ter pensado nessa relação
entre os personagens? Se as características dos personagens
e seus poderes são basicamente as mesmas desde sua criação,
há mais de trinta anos. Talvez, além de esperar
o surgimento de um Joss Whedon, tivéssemos que esperar
também algum tipo de mudança nestes personagens.
Principalmente
com relação a Colossus, os maus-bocados por que
passou nas mãos de roteiristas e editores de pouco talento,
podem ter contribuído para realçar o ar trágico
do personagem. Por mais idiota que tenha sido sua morte, é
justamente isso que faz com que os leitores esperem sua volta,
para corrigir uma despedida mal feita.
Isso
já poderia levar o nome de efeito Hal Jordan,
em homenagem ao tão querido Lanterna Verde
da DC. Assim como a abordagem de Whedon para Colossus e Kitty
Pride, o heroísmo de Hal Jordan que os leitores queriam
ver “de volta”, nem existia nos quadrinhos como eles
alegavam. O Lanterna Verde teve uma trajetória no mais
das vezes sofrível nas revistas, mas por fora delas, no
imaginário dos leitores mais fanáticos, o mito da
coragem e da vontade inabalável de Jordan se tornou mais
forte.
Bastava
encontrar alguém que explorasse esse fenômeno peculiar
de forma competente. Whedon, com sua sensibilidade de escritor
da televisão norte-americana, veio para realçar
justamente o lado dramático que permeia as aventuras dos
mutantes. Cada diálogo de Surpreendentes X-Men é
carregado de emoção como se fosse mesmo uma série
de tv para segurar a atenção (e conseqüentemente
a audiência) do público a cada minuto.
Sem
falar que arte de Cassady potencializa tudo isso. A cena que em
que os dois se reencontram é fantástica em todos
os sentidos. A arte conseguiu inverter as características
dos personagens deixando Kitty fria e paralizada quando vê
Peter e fazendo o Colossus frágil, caído ajoelhado,
se sentindo um fantasma quando diz pergunta para ela se finalmente
está no céu.
Whedon
e Cassady criaram o momento perfeito para o finalmente existir
de um romance como o de Colossus e Kitty.