O PRÍNCIPE E O CAVALEIRO DAS TREVAS
Rodrigo Braga Alonso
Introdução
O Maquiavel de Isaiah Berlin é alguém que se depara com dois conjuntos de valores e cuja originalidade consiste em não rejeitar um conjunto de valores em prol do outro, nem tratar ambos como iguais ou compatíveis.
Ao invés de separar a ética da política, o que Maquiavel faz, em primeiro lugar, é chamar atenção ao fato de que a ética da vida privada é uma e a ética da vida pública é outra e denunciar como "fantasia" tentativa de conciliação entre as duas éticas.
Além de expor que a ética privada e a ética pública não são necessariamente a mesmas, ele ainda opõe a ética cristã e a ética pagã como dois conjuntos de valores distintos, irreconciliáveis, mas ambos bons. E enfim, deparado com a escolha sobre qual ética é a melhor para um príncipe governar seu principado, Maquiavel escolhe, sem remorso, a ética pagã.
Embora pareça uma fórmula simples, mas existe um problema, ao menos histórico, em todas essas divisões que Maquiavel faz; quando Tales de Mileto inaugurou a filosofia declarando que "tudo é água", ele criou também esse impulso filosófico de ver o universo como tendo em si uma unidade fundamental; se Isaiah Berlin está certo sobre Maquiavel, então dizer "a ética cristã é boa para a vida privada enquanto a ética pagã é boa para a vida pública" seria dizer algo como "Deus é a origem do universo na vida privada e Zeus é a origem do universo na vida pública".
No capítulo XVIII Maquiavel diz "Todos sabem o quanto é louvável um príncipe honrar sua palavra e viver com integridade, sem astúcias, mas, na prática, em nossos tempos observamos príncipes que, empenhando-se muito pouco em honrar suas promessas e ludibriando com astúcia a cabeça dos homens, realizaram grandes feitos que superaram os que agiram com lealdade". Essa citação ilustra bem a complexidade do conflito de valores em Maquiavel; "honrar sua palavra" não deixa de ser louvável, mas também é louvável realizar grandes feitos; deixar de honrar a palavra não é um meio para um fim "grandes feitos", é um ato, em si próprio, virtuoso, pois é o ato de um bom príncipe e tal ato é virtuoso por si próprio; eis então que ele expõe as opções (algo como perguntar "como você quer ser louvado? Como um príncipe honesto ou como um príncipe que realiza grandes feitos? Ambos são bons, mas é preciso escolher um") e logo em seguida ele escolhe o lado "desonesto", repetindo, não como a opção ruim que levará a um bom fim, mas como uma boa opção por ser um ato de astúcia (e "astúcia" não é um valor cristão, mas um valor pagão, que não supera o valor cristão da "integridade", mas que se opõe a ele e que, portanto, revela uma opção a ser feita).
Então sejam quais forem os conselhos específicos de Maquiavel, o importante para esse trabalho é mostrar a possibilidade de uma sociedade de valores diversos que não se conciliam, que existem ao mesmo tempo e que se apresentam como opções, não sendo um o valor mais virtuoso e outro o valor mais prático, mas sendo simplesmente valores diferentes.
A seguir, será analisado como essa questão continua atual por meio da obra de Frank Miller "O Cavaleiro das Trevas” (1986).
O Príncipe e o Cavaleiro Das Trevas
Fazer o que for necessário para conquistar e manter um poder que trará ordem e estabilidade para um principado é uma virtude para Maquiavel e se a necessidade pede atos que de outra forma seriam imorais, a necessidade então torna tais atos virtuosos; é esse o relativismo de Maquiavel.
Em 1986, Frank Miller escreve, pela segunda vez, uma história do Batman.
Passada em um futuro onde super-heróis se tornaram ilegais, o ambiente revela, em primeiro lugar, um dilema pelo qual a maioria dos super-heróis norte-americano enfrentam; eles usam seus poderes para defender a democracia e as leis, embora, ao fazer isso, atentem contra a democracia e as leis.
Em tal futuro, a cidade fictícia de Gotham City vive a ameaça de uma gangue de rua que eleva ao topo os níveis de criminalidade enquanto um Bruce Wayne (alter-ego de Batman) velho e aposentado assiste a tudo confortável em sua mansão.
Se Maquiavel desejasse simplesmente que os Médici obtivessem poder e prestígio, talvez ele teria aconselhado-os a continuar como banqueiros e a lucrar com a guerra dos outros; conquistar e manter o poder, entretanto, é uma virtude quando isso causa a ordem.
Assistindo aos noticiários da TV que discutem a violência e o quanto a polícia é incapaz de controlar a situação, se constrói uma necessidade que torna virtude o que de outro modo seria imoral e, desobedecendo a lei, o Batman volta à ativa.
O tema não é novo e nem original, como já dito, que um super-herói desobedeça a lei para cumprir a lei é um tema comum, o que diferencia The Dark Knight Returns é, em primeiro lugar, a consciência de que isso está sendo feito e, em segundo (e isso o aproxima de Maquiavel), que a necessidade torne essa uma opção a ser tomada sem remorso. (imagem 1)
Nos debates da TV, Batman é chamado de fascista, é deixado claro que ele quebra a lei. Quando um bandido qualquer diz "eu tenho direitos", ele responde ironicamente, "você tem direitos, muitos direitos, às vezes eu conto eles só para me sentir louco" e um cidadão qualquer dando uma entrevista a TV diz que adora o Batman, porque ele faz o que a polícia não consegue e que ele espera que o Batman vá atrás dos homossexuais depois; enquanto isso um grupo de jovens o chama (novamente) de fascista e diz "a consciência da América morreu com os Kennedy" (imagens 2 e 3)
Então fica claro, logo no começo, o lado antidemocrático do Batman, sem a inocência das décadas passadas, se fantasiar e correr atrás de bandidos não é algo socialmente aceito, não pode ser ignorado que isso subverte todo o sistema judiciário e, portanto, a democracia americana em si; mas não há remorso nesse ato, é virtuoso que não se cometa crimes; o Batman usa de agressão contra civis, mas não permite que civis agridam um ao outro; ele está claramente em outro nível moral, as regras que se aplicam a ele não se aplicam aos cidadãos comuns de Gotham City.
Ele sabe disso e isso não cria um conflito entre dois valores a serem unificados, mas sim uma opção; existe de um lado os valores dos civis e do outro os valores do príncipe; de um lado os valores dos cidadãos e do outro os valores do Batman, para um é virtude viver em paz e obedecer a lei e para o outro é virtude ir a guerra e quebrar a lei quando necessário. Uma virtude não se opõe à outra, ambas convivem ao mesmo tempo e se alguém quiser cruzar de uma para a outra é preciso não só ter coragem para fazer o que é preciso, como também entender que duas pessoas diferentes agindo da mesma forma podem ter virtudes diferentes.
Quando Batman vê no vilão Duas-Caras um "reflexo" (imagem 4); o que ele vê, em primeiro lugar, é a ausência de linhas absolutas entre bem e mal, mas apesar disso é preciso haver alguma distinção ou não teria motivo para Batman atacar o seu inimigo e a distinção parece exatamente ser que um busca poder ordem e o outro desordem. Duas-Caras quer causar destruição insensata e anarquia e para isso usa de violência e desrespeito a lei; Batman também desrespeita a lei e usa de violência, mas para manter a sociedade que criou as leis que ele desrespeita da mesma forma que um príncipe cristão realiza atos anticristãos; não é hipocrisia, pois o ideal último não é traído; não é uma questão de meios e fins, pois os meios são considerados tão virtuosos quanto os fins e não é só uma questão de relativismo de valores subjetivos, pois não cabe a qualquer um decidir que irá desrespeitar as leis; existe algum conjunto de valores que impede a total subjetivação da questão, mas não é um conjunto absoluto que dá regras para todas as ocasiões, então há espaço para alguma relatividade, mas não muita, pois é o príncipe que pode ser relativo e não o súdito.
Mas afinal, há de se perguntar; quem é o príncipe do mundo do Batman?
Nessa questão, Maquiavel e Frank Miller se separam de uma maneira interessante; pois existem dois príncipes. O Batman e o presidente dos Estados Unidos. Enquanto o Batman age sozinho, o presidente (que não é nomeado, mas cujo desenho se parece muito com Ronald Reagan em alguns quadros) não dá atenção, mas quando o Batman adquire algum poder sobre os súditos, o presidente sai de sua neutralidade e se diz "preocupado" com o Batman, embora continue a respeitar a hierarquia federalista.
Isso gera uma situação e uma questão interessante para Maquiavel; pois o príncipe deve ser o líder absoluto e, portanto, o presidente dos Estados Unidos não pode permitir que o Batman adquira poder político, mas o Batman adquire tal poder (ao menos sob Gotham City), mas não o usa para conflitar contra o poder do presidente, mas sim para manter a ordem; então a questão para Maquiavel e para o presidente desse Estados Unidos fictício seria a seguinte: como agir se você depende de um poder paralelo para impedir que a nação caia no caos? A resposta do presidente parece ser de que violência urbana é mais aceitável do que esse poder paralelo; de fato, medidas já haviam sido tomadas contra super-heróis antes e antes de suas ações serem oficialmente ilegais, o Batman já se via como um criminoso (imagem 5 ), o que nos traz de volta a configuração de poder que só se sustenta pela multiplicidade de valores.
Existe uma nação com leis, o poder oficial não consegue fazer com que a população cumpra essas leis; entre essas leis, existe a de que apenas o poder oficial pode julgar e usar de coerção para manter tais leis; então surge o Batman que quebra as leis para mantê-las; a multiplicidade de valores é essa: A nação pode usar de coerção, os cidadãos não; o Batman pode quebrar leis, mas não permite que os outros quebrem; a nação usa de violência contra o Batman, que se defende, mas não ataca, pois não é sua intenção ser um poder opositor ao poder oficial, mas sim um verdadeiro poder paralelo que age ao mesmo tempo em que o poder oficial.
Diferente do poder paralelo do narcotráfico (por exemplo) que institui leis novas a uma região sob controle do poder oficial; o Batman institui leis novas apenas para si próprio e para outros que usam da violência para manter as leis do poder oficial; mesmo quando o Batman se diz "a lei" (imagem 6), sua lei não é diferente da lei do poder oficial, a diferença é que ele se posiciona como poder judiciário e executivo, é como se dois poderes judiciários e executivos diferentes respondessem ao mesmo poder legislativo, ironicamente, isso torna a sociedade mais democrática (pois os próprios cidadãos se colocam como poder) e menos democrática (pois um dos poderes tem inclinações fascistas) ao mesmo tempo e como observação fora do tema em questão, uma vez que os Estados Unidos adquiram independência por meio de uma milícia armada, a idéia de milícias violentas como "espírito de comunidade" não soa como uma contradição. (imagem 7; que mostra também o poder oficial desistindo de se impor como poder único).
E por fim, o Batman cria seu exército e se estabelece como príncipe, com um virtuoso ideal último e meios questionáveis; ele é firme (pede até para Robin se sentar direito) e tem um plano e uma mão firme e a questão que o quadrinho parece colocar quando ele fala em "inimigos bem piores que assassinos e ladrões" é se o próximo alvo é o governo (passo lógico para qualquer príncipe). (imagem 8).
Conclusão
De acordo com Isaiah Berlin: "esse molde monístico unificador está no âmago do racionalismo tradicional, religioso e ateu, metafísico e científico, transcedental e naturalista que vem caracterizando a civilização ocidental. É essa pedra, sobre a qual crenças e vidas vinham sendo fundadas, que Maquiavel parece, na verdade, ter deixado partida". O molde monístico ao qual ele se refere é a idéia fundamental de que existe alguma unidade no mundo (que engloba tanto a natureza física quanto os ideais de virtude) e que a racionalidade é capaz de descobrir qual é essa unidade e daí construir uma sociedade perfeita, que esse ideal seja inatingível ou impossível de se descobrir não é novidade na história, a novidade que se inaugura com Maquiavel é de que não faz sentido perguntar por ele, ao menos politicamente, existe algo de imprevisível na natureza (que ele chama de "fortuna") que clama com que o príncipe abandone todo conjunto único de valores e se adapte as circunstâncias.
O Batman sempre foi visto como um obcecado, como alguém que tem o objetivo único de justiça e de "lutar contra criminosos", como foi visto aqui, não é um personagem tão simples. Ele mesmo se considera um criminoso e não se importa de atentar contra a democracia, acusá-lo de "fascista" é uma acusação com base, considerar democrática as ações de Batman é considerar democráticas as ações de grupos de extermínio da polícia brasileira ou de milícias que caçam imigrantes ilegais na fronteira entre os Estados Unidos e o México.
Se ele fosse obcecado, essa contradição ou não seria consciente, ou levaria a loucura; que ele diga "precisamos ser criminosos", mostra ele menos como um obcecado e mais como alguém aberto a, como Maquiavel, deixar de lado valores únicos em prol de um ideal, no caso de Maquiavel, que o príncipe consiga poder o suficiente para impedir o caos e garantir a segurança dos súditos e no caso do Batman, que as leis em vigor do poder oficial sejam respeitadas, não por ele, nem pelo seu exército, mas pela população que não é nem governante e nem parte do exército do Batman.
Que um herói fascista faça sentido quando a ameaça da violência urbana se torna demais é tão pouca surpresa quanto a admiração a esquadrões de extermínio da polícia brasileira, mas serve como lembrete de que a democracia, que se coloca como liberdade, precisa se impor como poder único se pretende se manter como manifestação de um governo único, nesse sentido, a democracia em si (e não esse ou aquele presidente) se impõe como um príncipe maquiavélico que, como Rousseau, coage os cidadãos a serem livres e então a necessidade apresenta a multiplicidade de valores como opção e o que torna Maquiavel atual é o seguinte: se opções antidemocráticas como o Batman se mostram razoáveis para se manter a democracia, isso significa que a democracia é apenas um conjunto de valores e não o valor único que os ocidentais tanto almejam e que encará-la como valor único é tolice (como diria Maquiavel) e que a humanidade esteja encarando esse ou aquele ideal como valor único significa que um autor como Maquiavel ou um herói como Batman vão continuar chamando a atenção.
Rodrigo Alonso fala sobre quadrinhos a vida e tudo mais no seu blog http://sblargh.blogspot.com/ praticamente impronunciável. Ele também escreve histórias em quadrinhos, em parceria com Felipe Cunha, já criaram o excelente fanzine Chuva contra o Vento e, agora, estão lançando a série Eterno.
Esse Texto faz parte do nosso Ciclo Científico. Se você é pesquisador em qualquer área e escreveu um trabalho, texto, artigo etc relacionado à quadrinhos, mande para nós.