Batman: Um Ano Depois
Em agosto encerrou-se o período de publicações da DC Comics denominado Um Ano Depois, no qual acompanhamos os primeiros acontecimentos depois de um estranho período em que os principais heróis do Universo DC andaram desaparecidos e profundas mudanças ocorreram. Como tudo isso aconteceu será mostrado ao longo da série 52, que já está na terceira das treze edições que terá no Brasil.
Mais uma vez a palavra de ordem na DC é renovação, começando pelos personagens e buscando alcançar o público. Contudo, a premissa não se aplica exatamente da mesma forma a todos os títulos da editora, de modo que em alguns deles é difícil perceber alguma mudança significativa, quanto mais alguma que se mostre positiva para a atração de novos leitores ou menos para recuperar alguns que deixaram de ler quadrinhos há algum tempo.
Para a alegria de muitos, os títulos em que esta mudança mostra-se mais clara e bem-vinda são os dos dois maiores ícones da DC: Superman e Batman. Há anos ambos vinham amargando histórias que na melhor das hipóteses eram regulares e nem faziam justiça à importância dos personagens. No caso do Cavaleiro das Trevas, parecia haver um conflito entre as histórias contadas em seus títulos e os acontecimentos dos grandes eventos do UDC, de modo que muitas tramas foram interrompidas antes de Crise Infinita sem uma definição satisfatória.
Tanto é que as novas histórias praticamente abandonam todas as tramas estabelecidas no último ano antes de Crise Infinita, após a saga Jogos de Guerra, que prometia revolucionar o universo do Morcego e seus aliados por muito tempo. Assim, não se fala mais nada sobre o vilão Máscara Negra estar como chefão do crime organizado de Gotham ou as mudanças no relacionamento do herói com alguns aliados, como por exemplo Oráculo. A atitude só é válida porque a qualidade do primeiro arco de histórias compensa muito.
O enredo apresenta uma retomada de praticamente todos os elementos clássicos do personagem e do cenário que ele habita, que foram alterados ou simplesmente descartados nos últimos dez anos pelas diversas sagas pelas quais o Cavaleiro das Trevas passou. As personagens centrais são Batman, Robin, o Comissário Gordon e o detetive Bullock. Mesmo saltando de uma ambientação confusa para um período cheio de dúvidas como é o Um Ano Depois, a sensação é de que conhecemos aqueles personagens e como eles se comportarão.
Ainda que o roteirista aposte em uma idéia batida como a volta do vilão Duas-Caras e coloque o praticamente desconhecido Tubarão Branco como novo chefão por trás do crime de Gotham, a história toda se sustenta muito bem por apoiar-se nas duas duplas (a de heróis e a de policiais).
Outra novidade muito interessante é a presença de artistas de primeira linha nos dois títulos norte-americanos em que estas histórias foram publicadas – Batman e Detective Comics. Somente com eles é possível ter a certeza de que o Cavaleiro das Trevas está voltando de vez para o primeiro time dos quadrinhos de super-heróis. Graças a eles, há um perfeito equilíbrio entre ação, drama e suspense nos títulos.
O resultado é um Batman mais interessante e menos calcado em clichês ou interpretações simplistas de seu mito. O herói parece mais equilibrado e seguro de si, com mais confiança em seu parceiro, e por isso não se comporta como um monstro entre seus aliados da polícia. A postura assustadora fica reservada para os criminosos. Incrível como esta simples distinção entre momentos ajuda a tornar a personalidade do herói mais atraente.
As cenas de ação apresentam uma Dupla Dinâmica entrosada de uma forma que há muito tempo não se via - talvez apenas Dick Grayson, em seus tempos de Robin, atuasse tão bem ao lado do Cavaleiro das Trevas. Com pequenos sinais, Bruce Wayne e Tim Drake se entendem e realizam proezas engenhosamente planejadas pela dupla de roteiristas. A diversão também está de volta à revista, que não deixa, assim, de ser séria.
Para aqueles que gostam de pensar que existem dois lados distintos do Homem Morcego, o detetive e o super-herói, este arco de Um Ano Depois tratou de mostrar que ambos podem se conciliar de forma inteligente. Há mistério, suspense e ação em doses equilibradas e cada elemento de Gotham que faz de Batman um grande personagem é afetado de alguma forma pelo que acontece nestas edições. Nem mesmo o drama está de fora, visto que a relação de Bruce Wayne com Harvey Dent também é retomada neste arco.
Tudo isso deixando ganchos para ninguém menos que Paul Dini e Grant Morrison desenvolverem como novos roteiristas destes títulos. Eles devem seguir estes conceitos apresentados neste arco inicial, o que deve funcionar tanto com os leitores novos como antigos, pois apostam numa boa definição dos personagens e do cenário.