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HERÓIS EM GUERRA

Panini lança “Guerra Civil”, megaevento que joga os heróis Marvel uns contra os outros

Por Adriano de Avance Moreno(*)

Nos universos de super-heróis dos quadrinhos, de tempos em tempos, os personagens, em sua grande maioria, participam de um evento de grande porte, onde geralmente são necessários os esforços de um grande número de personagens para deter a ameaça, ou ameaças que prometem destruir o planeta, varrer o Universo do mapa, coisas assim. E acaba de aportar nas bancas nacionais, pela Panini Comics, uma das mais aguardadas megassagas dos quadrinhos dos últimos tempos: Guerra Civil, que promete virar pelo avesso o atual panorama dos super-heróis da Marvel Comics.

A principal diferença desta saga para as demais já lançadas, tanto da Marvel quanto da DC ou de outras editoras, é que aqui não há exatamente super-vilões a serem combatidos, nem uma ameaça global ou universal que precise ser detida. Muito pelo contrário, a maioria dos combates nesta saga serão perpetrados pelos super-heróis contra eles próprios. O foco que dá origem ao evento é algo muito mais realista, tangível, e ao mesmo tempo não menos importante: a liberdade individual e as responsabilidades decorrentes disso, traduzida na saga como o livre direito a pessoas com habilidades super-humanas, ou habilmente treinados, de sair por aí combatendo criminosos a torto e a direito, e responder pelas conseqüências disso.

Tudo começa com um grupo de super-heróis secundário (nos dias de hoje), os Novos Guerreiros, que participando de um ridículo reality show da TV americana, aborda sorrateiramente um grupo de supervilões da pesada. Como não poderia deixar de acontecer, os heróis partem para o combate, porém sem muita coordenação. E o pior acontece, ao lado de uma escola: um dos vilões, com o poder de gerar explosões, causa uma que mata mais de 600 pessoas na vizinhança. A ação incauta dos pretensos “justiceiros uniformizados”, como parte da mídia os retrata, gera indignação e repulsa em boa parte da população americana, que passa a exigir que os heróis respondam pelos danos que causem em suas “pretensas” ações de combater o mal.

O governo americano, então, prepara-se para baixar uma lei ordenando que todos os heróis revelem suas identidades para a SHIELD, organização secreta de defesa da ordem mundial, e ao mesmo tempo, passem a ser agentes públicos sob supervisão e comando governamental. Na prática, todos os heróis passariam a ser soldados à disposição do governo, que iria então comandar e coordenar suas ações.

É aí que o bicho pega: vários heróis ficam relutantes em revelar suas identidades, temendo sofrerem sanções, ou pior, de seus segredos serem expostos pelo governo caso não cooperem. Ao mesmo tempo, o temor de virarem peões das autoridades, uma vez que muitos de seus atos beneficiam a sociedade de formas muito mais eficientes que os políticos, os tire a liberdade de discernimento.

E, claro, há o outro lado, no qual diversos heróis concordam com os preceitos da lei do governo, e estão prontos a seguir as determinações legais. E, como dentre estas determinações está a prisão e detenção de todos aqueles que se recusarem a se registrar, está iniciado um confronto de grandes proporções que promete abalar as relações entre os diversos super-heróis da Marvel.

Os heróis terão de tomar posições, e estas posições irão colocar seus pontos de vista à prova, em um conflito que deixará várias seqüelas que prometem não serem restauradas após a conclusão da saga. E, de fato, nos EUA, onde Civil War (nome original do evento) terminou no início deste ano, até o momento as conseqüências do combate são sentidas. Não é para menos: amigos tornaram-se adversários, muitos inimigos mesmo; relações se romperam; laços familiares foram dilacerados; tudo isso na luta pela defesa de pontos de vista divergentes sobre algo que muitas vezes as pessoas não pensam com seriedade a respeito: liberdade e responsabilidade.

Tony Stark, o Homem de Ferro, após tentar demover os políticos de seu projeto de lei, resolve apoiar a iniciativa, para prevenir os conflitos que a rejeição incondicional à lei pode desencadear. O problema é que há outros heróis com visões diferentes da sua. O Capitão América, que sempre defendeu sua nação sem pensar duas vezes, e desde a Segunda Guerra sempre lutou pelo que acreditava, de repente se vê na condição de “renegado”: tudo porque resolveu se recusar a “prender aqueles que arriscavam suas vidas pelo bem-estar da população”, como ele mesmo definiu, completando que os heróis não podem ser vítimas da “politicagem”, do contrário, Washington é quem iria “dizer” quem são os vilões. E, mesmo com seu currículo de feitos, a SHIELD e as demais autoridades governamentais não hesitaram em rotulá-lo de criminoso. Por defender seu modo de pensar, em um país que se supunha ser a terra da Liberdade, eis a gratidão das autoridades, que levadas pelo clamor popular, não pensaram duas vezes no que fizeram.

E o confronto promete ser forte, pois se o Homem de Ferro conseguiu angariar vários colegas super-heróis de peso para o lado que apóia o registro, o Capitão América é uma lenda viva, e vai contar com outro tanto de heróis a seu lado para defender seu ponto de vista. Assim a batalha começa.

No comando da saga está o roteirista Mark Millar, que realmente promete sacudir o panorama do Universo Marvel. O roteirista, que já tinha feito um excelente trabalho na série dos Supremos, costuma ser bombástico e adora fazer o “circo pegar fogo”. O grosso do planejamento da saga foi feito em uma longa reunião na sede da Marvel, em Nova Iorque, muito antes da história sair finalmente nas bancas americanas. Todo o staff de roteiristas da editora foi reunido para ser posto a par do que seria a megassaga, e de como deveriam se portar para deixar os títulos em que trabalhavam alinhados com os acontecimentos da história.

Mas não ficou apenas nisso. A idéia era realizar Guerra Civil para redefinir em boa parte todo o leque de títulos da Marvel, com a inclusão de novas revistas, novos personagens, resgate de vários deles de antigamente e perda de outros “em combate”. E o mais importante de tudo: não agradar a todos. Algo que ficou patente no balanço da reunião era de que a última coisa que gostariam de ouvir dos leitores seriam aprovação unânime dos acontecimentos que a saga mostra, o que dá a indicação de que o objetivo seria realmente atingir o público leitor de jeito. Pelo visto, conseguiram o seu intento, pois as discussões em relação à história, seus confrontos e desfecho, foram enormes, para não falar na repercussão na mídia informativa, seja ela especializada ou não.

E, verdade seja dita, Guerra Civil tornou-se o evento do ano nos quadrinhos americanos em 2006. Quando muitos apontavam que a DC iria conseguir reagir, os fracos desfechos de Crise Infinita e suas sagas em paralelo deixaram a Marvel em uma situação privilegiada no mercado de vendas. Embora os fatos principais tenham sido relatados na minissérie de 7 partes, os desdobramentos dos acontecimentos se espalharam para muitos dos títulos regulares da editora, resgatando aquela interação dos personagens em diversas revistas diferentes, que muitos não viam nos quadrinhos da Marvel com freqüência há muitos anos. E agora, chegou a vez dos leitores nacionais acompanharem Guerra Civil.

O trabalho editorial da Panini merece elogios. A começar pela bem sacada idéia de publicar aqui o “Clarim Diário”, um encarte em formato tablóide, como se fosse um jornal de verdade, noticiando o início da saga, recheado de notícias, análises, cartas e até propaganda, para não mencionar o editorial do mais conhecido ranzinza do Universo Marvel: ele mesmo, John Jonah Jameson, que retorna à sua favorita retórica anti-heróis, agora não mais restrita apenas àquele “maldito escalador de paredes” (como ele define o Homem-Aranha). Uma leitura imperdível. Pena que nem todos os leitores encontraram este material nas bancas nacionais, uma vez que a distribuição da Panini continua caótica em diversas partes do país.

A editora até criou um site “oficial” para o evento (www.guerracivil.com.br), onde estarão disponíveis as “últimas notícias” da saga, além de contarem com links para seu fórum de debates, e até para uma votação on-line, onde os leitores podem votar em qual lado eles acham que está mais certo. Embora Guerra Civil seja uma minissérie em 7 partes, que serão publicadas mensalmente, de julho até janeiro do ano que vem, seus desdobramentos acontecerão em praticamente todas as demais revistas da Marvel publicadas pela Panini. Quem quiser acompanhar tudo a que tiver direito que se prepare para comprar inúmeros gibis. A minissérie terá preço de capa de R$ 3,90 (exceto a edição 1, que custa R$ 4,90).

Nestes tempos de internet e comunicações quase instantâneas, o final e as conseqüências de Guerra Civil já são conhecidos de vários leitores. Por outro lado, isso gerou uma grande repercussão, dando um destaque tremendo ao evento, que está chamando a atenção de muitos, até de quem não lê quadrinhos. No orkut, por exemplo, tem havido debates e trocas interessantes de idéias sobre o que está em jogo na saga, com posições bem fundamentadas de ambos os lados. No próprio site oficial da Panini, na votação on-line, mostra uma disputa acirrada entre os que “apóiam” o registro dos super-heróis, e a turma contra o registro, o que mostra que, na disputa, não há um lado completamente certo, nem um completamente errado.

O que esperar de Guerra Civil propriamente? Muita coisa, ainda mais se pararmos para pensar que, no passado, já houve grandes confrontos pela discussão de idéias e ideais. Agora chega a vez do mundo ficcional dos super-heróis enfrentar situação semelhante.

E você? De que lado vai ficar?

AS EDIÇÕES COMPONENTES DA SAGA (anunciadas até o momento)
Fase pré-Guerra Civil

Homem-Aranha 64

Os Novos Vingadores 39

Homem Aranha 65

Universo Marvel 23

Homem-Aranha 66

Universo Marvel 24

Guerra Civil

Guerra Civil 1
Homem-Aranha 67
Avante, Vingadores! 7
Wolverine 32
Guerra Civil 2
Homem-Aranha 68
Universo Marvel 26
Marvel Action 8
Os Novos Vingadores 43
Wolverine 33
Guerra Civil 3
Guerra Civil Especial 1
Homem-Aranha 69
Universo Marvel 27
Os Novos Vingadores 44
X-Men Extra 69
Avante, Vingadores! 9
Wolverine 34
Guerra Civil 4
Homem-Aranha 70
Universo Marvel 28
Os Novos Vingadores 45
X-Men Extra 70

Wolverine 35
Guerra Civil 5
Guerra Civil Especial 2
Homem-Aranha 71
Universo Marvel 29
Marvel Action 11
Os Novos Vingadores 46
X-Men Extra 71
Avante, Vingadores! 11
Wolverine 36
Guerra Civil 6
Guerra Civil Especial 3
Homem-Aranha 72
Universo Marvel 30
Marvel Action 12
Os Novos Vingadores 47
Avante, Vingadores! 12
Wolverine 37
Guerra Civil 7
Homem-Aranha 73
Universo Marvel 31
Marvel Action 13
Os Novos Vingadores 48
Guerra Civil Especial 4

Esse texto continua aqui

Comentários, sugestões: colunahq@yahoo.com.br

(*) Adriano de Avance Moreno é colaborador autônomo de jornais e revistas especializadas na área de quadrinhos, animação e afins.

 

   


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