HERÓIS EM GUERRA 2- Rumo à Guerra Civil
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Por
Adriano de Avance Moreno(*)
A situação do Universo Marvel nos últimos tempos é extremamente tensa. E com razão, pois aconteceram diversos fatos que, isoladamente, foram se acumulando até desaguarem nos acontecimentos atuais. Alguns fatos foram públicos, outros, nem tanto, mas todos contribuíram para deixar a credibilidade dos chamados super-heróis em xeque.
O X-man Wolverine, por exemplo, foi capturado pela Hidra e submetido a lavagem cerebral, tornando-se um verdadeiro assassino sob ordens da organização criminosa. E Logan mostrou porque é tão perigoso: ele matou inúmeras pessoas, feriu muitas outras e deixou diversas autoridades em pânico, temendo serem seus próximos alvos. Apesar de desprogramado, as autoridades não têm mais tranqüilidade quando Wolverine está por perto.
Nos Vingadores, um incidente entre o Valete de Copas e a Mulher-Hulk fez com que Jennifer Walters perdesse o controle de seus poderes, tornando-se tão perigosa quanto o próprio Hulk. Na tentativa de detê-la, uma cidade inteira foi destruída. Ninguém morreu, mas o medo ficou estampado no rosto das pessoas.
Para os Vingadores, o pior ainda estava por vir. Descontrolada emocionalmente, a Feiticeira Escarlate voltou-se contra sua própria equipe, destroçando-a. Alguns heróis morreram e a cidade de Nova Iorque sofreu inúmeros danos decorrentes da luta que “enterrou” os Vingadores como os conhecíamos. Ao fim do confronto, os Vingadores não existem mais e vários membros se desentenderam consigo mesmos. Na tentativa de encontrar uma solução para o problema de Wanda Maxximoff, seu irmão Pietro, receoso de que seus próprios colegas fossem matá-la, força a jovem a alterar toda a realidade, tornando a Terra um mundo dominado pelos mutantes, que oprimem os humanos.
Com a ação de vários heróis, a realidade normal foi restaurada, mas Wanda literalmente “dizimou” a raça mutante, excluindo seus poderes. De milhões, restaram poucos mutantes no mundo. De posse desta informação e sem saber exatamente o ocorrido, um temor implícito passou a circular na sociedade, que viu a violência dos grupos extremistas anti-mutantes explodir, com a morte de inúmeros “ex-mutantes”, que agora se encontravam indefesos sem seus poderes. Os X-Men, por exemplo, passam a ficar confinados ao Instituto Xavier, em Westchester, sob a proteção dos robôs Sentinelas do governo americano.
Meses antes, outros atos dos heróis já haviam desencadeado fortes desconfianças no público. Determinado a deter os planos malignos de Victor Von Doom de uma vez por todas, Reed Richards tomou posse da Latvéria, afrontando as normas de direito internacional. Reed conseguiu inutilizar as estruturas de Destino, para evitar que ele recuperasse seu status de déspota, mas a imagem do Quarteto Fantástico ficou extremamente negativa, a ponto de o governo americano e a SHIELD darem voz de prisão a Richards e seu grupo.
Quase ao mesmo tempo, Thor, o Deus do Trovão, novo governante de Asgard, havia decidido tornar o lar dos deuses nórdicos vizinha da Terra e permitir que os mortais pudessem ter a ajuda dos imortais em diversos assuntos. Ao mesmo tempo, declarou-se protetor e regente da Terra, alegando que alguém precisava mostrar aos mortais o seu real rumo na existência. Thor acabou abandonando os Vingadores e chegou até mesmo a enfrentar o Capitão América e o Homem de Ferro em luta direta. Mesmo tendo se dado conta do erro de sua estratégia, e levado Asgard de volta para seu lugar de origem, aumentou ainda mais a desconfiança da população, que ficou receosa de ser “dominada” pelos ditos super-heróis.
E como desgraça pouca é bobagem, o Hulk também entrou de gaiato na história, sofrendo uma desestabilização por conta de uma explosão gama. Enquanto não recuperou o controle, arrasou uma cidade, matando diversas pessoas. E o temor de que o Hulk, que já teve diversas crises de descontrole, se repetisse de novo não ajudou a deixar o clima mais ameno, muito pelo contrário. O golias verde, aliás, é um dos heróis que ficará à margem do conflito, por ter sido exilado em outro planeta após ser trancado em um foguete e mandado para fora do Sistema Solar, numa tentativa de prevenir a Terra de outros “incidentes” que possam causar mais mortes e destruição. Mas claro que o Hulk vai dar um jeito de retornar ao nosso planeta, e quando isso acontecer...salve-se quem puder, pois ele estará bem mais do que simplesmente zangado, não importa se com amigos ou inimigos.
Por tudo isso, a situação dos heróis atinge um ponto crítico e antes idolatrados como salvadores de todo o mundo, as pessoas agora se perguntam se o mundo na verdade não estaria muito melhor sem eles. Gratidão pelos salvamentos de todos estes anos? Esqueça. O mundo parece estar piorando e as pessoas também. Tem-se a forte impressão de que é melhor sacrificar o outro para se garantir do que bancar o vizinho solidário e gentil. Ficção? Sim, mas quem garante que o mundo não está caminhando nessa direção?
REFLETINDO OS DIAS ATUAIS
Pode-se dizer que o clima dos quadrinhos atuais é um reflexo do panorama atual do mundo, em especial depois dos atentados do dia 11 de setembro de 2001, quando terroristas seqüestraram aviões e os lançaram no World Trade Center e no Pentágono, ocasionando uma tragédia sem igual. De lá para cá, as autoridades de diversos países, em especial os Estados Unidos, declararam uma “guerra” contra o terror, com resultados de eficácia duvidosa, pois ninguém pode afirmar que o mundo está mais seguro do que antes. E o que mais as autoridades fizeram foi tomar ainda mais atitudes por baixo do pano, afrontando direitos individuais e até a opinião pública moderada.
Tome como exemplo a invasão do Iraque, movida literalmente a toque de caixa, sob o pretexto de que Saddam Hussein apoiava terroristas e estocava armas potenciais em massa, até hoje não encontradas. Os EUA declararam uma guerra e não deram a mínima para a opinião do resto do mundo, contando com poucos países para apoiá-los incondicionalmente, como a Grã-Bretanha. A tragédia do World Trade Center serviu de pretexto justificativo para se atropelarem normas e procedimentos. Elegeu-se um bode expiatório e os maiorais em Washington aproveitaram para fazer coisas que, no íntimo sempre desejaram.
Dentro de casa, o sentimento de controle ampliou-se a níveis muito maiores do que os de então. Baixou-se o “Ato Patriótico”, que deu ao governo americano a prerrogativa de invadir a privacidade de seus cidadãos sem necessidade de autorizações judiciais ou outros pormenores legais. Tudo em nome da “segurança” do país. Com as imagens do atentado frescas na cabeça de muitos, os políticos não tinham como receber contraargumentações à altura, apesar da chiadeira de centenas de pessoas, que corretamente afirmavam que toda a população não deveria pagar pelos erros de poucos.
Em vão. A paranóia vencia a razão, e até hoje ainda tem muita gente que prefere atirar em pessoas suspeitas de serem terroristas do que perguntar primeiro, com medo do pior. A reeleição de Bush como presidente dos Estados Unidos apenas provou que os americanos continuam ressabiados, pois os republicanos simplesmente acusaram os democratas de querer “entregar” o país à insegurança e aos terroristas, quando estes falavam em moderação das atitudes a serem tomadas.
Basicamente, isso apenas reforçava uma velha idéia de que as autoridades só se sentem à vontade quando podem “controlar” totalmente alguma coisa. Basta ver os percalços da política internacional, que mostram quanta patifaria se comete por baixo dos panos, com detalhes que poderão nunca ser totalmente conhecidos. No caso da invasão do Iraque, é interessante notar que foram os próprios americanos que levaram Saddam Hussein ao poder naquele país, como medida de arrumar um vizinho que pudesse conter o Irã, que havia sofrido uma “revolução” islâmica considerada pelos autocratas americanos como indesejável e que deveria ser combatida, tudo porque os iranianos não passavam mais a comungar pela cartilha de Washington.
Mas Saddam mostrou ter suas próprias idéias, e no início da década passada, invadiu o Kwait, dando origem à Guerra do Golfo, e de um momento para o outro, o ditador do Iraque não era mais “confiável”. Dez anos depois, o Iraque ainda era “não-confiável”, apesar de ser inimigo do Irã, outro país “não-confiável”. Voltou-se a um clima que recordava os piores momentos da Guerra Fria, onde se você não estava do lado dos EUA, era tachado de comunista. Então, quem se opunha à guerra antiterror americana implicitamente era tido como aliado dos terroristas. Quem disse que o homem aprende com os erros do passado?
Como não são só as autoridades a terem culpa no cartório, o próprio povo tem uma grande parcela de culpa também na cobrança de providências e pela onda de desconfiança e até de racismo demonstrada. Voltando novamente ao 11 de setembro, como foram resultado de ações de terroristas islâmicos, muitos passaram a ver em cada árabe um terrorista potencial camuflado. Com a internet a toda, não foram poucos os sites, seguidos de ações de grupos, discriminando qualquer pessoa, apenas por ser árabe, ou por ser islâmica. De um instante para o outro, ser árabe ou devoto do Islã virava sinônimo de terrorista. Muitas pessoas, que nada tinham a ver com a história, foram condenadas pelas sociedades em que viviam. Com o surgimento de terroristas em locais, e vivendo nestes locais, só piorou o panorama geral de paranóia: a pessoa a seu lado poderia ser o pior terrorista do mundo.
Especialmente nos EUA, considerados o país da liberdade, de repente, passavam a condenar veladamente qualquer um que, aos olhos dos demais, parecesse suspeito, até um olhar mal-encarado poderia ser desculpa para alguém ser considerado potencialmente perigoso para a sociedade. E várias pessoas sofreram muito por isso, sendo que algumas foram até mortas, pela ignorância das pessoas.
No panorama de “Guerra Civil”, diversos acontecimentos recentes contribuíram para desgastar a imagem dos super-heróis. A paciência da população, esgotada, escolhe os heróis como bode expiatório, bastando que um ato irresponsável de apenas alguns acabem por condenar sistematicamente todos os outros. Com o desastre de Stamford, a opinião pública encontrou a sua “gota” que fez transbordar o copo. E as conseqüências estão aí. De um momento para o outro, todos os heróis passaram a ser vistos como prepotentes, arrogantes, irresponsáveis, etc.
Mesmo aqueles que desfrutavam de grande popularidade e tinham identidades de conhecimento público, tornaram-se alvo da manifestação irracional do povo, como se fossem os próprios culpados pela tragédia. O Tocha Humana, por exemplo, foi espancado por um grupo de indivíduos, após um bate-boca, em que o membro do Quarteto Fantástico tentava explicar que seu grupo não cometeria atos como o de Stamford. Mas o público, ávido por satisfações, apenas deu vazão à sua violência, mandando o irmão da Mulher Invisível direto para a UTI de um hospital.
O próprio Capitão América, com uma folha corrida de fazer inveja a todos os outros heróis, pelo simples fato de se recusar a prender colegas apenas pelo fato de que eles têm direito de discordar, foi tachado de rebelde e criminoso, e precisou enfrentar uma equipe inteira da SHIELD para sair do porta-aviões aéreo. A partir deste momento, mostra-se a ingratidão das autoridades, que passam a rotular um herói nacional como um criminoso, apenas porque ele não concordou com a lei. Onde está o direito do cidadão? E das minorias (afinal, os heróis são uma minoria)?
Para piorar tudo, os heróis favoráveis ao registro estão prontos para enfrentarem os “rebeldes”, como o Capitão e seus aliados são chamados. O povo também começa a fazer o seu showzinho, mostrando até um pouco de falta de caráter, pois dá a entender que anos e anos de ações heróicas foram literalmente esquecidas de um momento para o outro.
Ao colocar os heróis frente a um dilema que envolve basicamente uma discussão de um fato legal, “Guerra Civil” simplesmente traz para a ficção dos quadrinhos de super-heróis algo com o qual eles nunca se defrontaram antes. Não há vilões ou uma ameaça ao planeta a ser detida, nem tampouco algum plano mirabolante de conquista ou invasão a ser detida. O problema é como os heróis lidarão com uma imposição legal como o registro e suas obrigações. Nada seria muito problemático, não fosse a retumbante verdade de que, uma vez no controle, as autoridades, mais cedo ou mais tarde, certamente farão com os heróis o que lhes for mais conveniente.
Afinal, como alguns já mencionaram nas discussões sobre o tema: e se Washington resolvesse de fato invadir o Irã, por exemplo, e para isso convocasse seus super-heróis e ordenasse a tomada de Teerã, com o argumento de que o regime dos aiatolás fomenta terroristas no planeta inteiro? O que acontece de fato? Os heróis terão de obedecer, ou serão enquadrados por sua desobediência, assim como qualquer soldado militar é punido por desobedecer a ordens superiores, mesmo que ele esteja com a razão e seu superior não. Como as autoridades os “punirão” por sua rebeldia num caso destes?
E a questão contundente: o que acontece quando as autoridades estiverem erradas e os heróis, tendo de obedecer a critérios equivocados, acabarem piorando uma situação que todos saberiam que ficaria assim com o rumo ordenado das intervenções heróicas? As autoridades assumiriam seu erro, ou jogariam a culpa nos heróis, citando ter havido algum equívoco por parte deles no cumprimento do dever?
Outra verdade contundente é que nem todas as autoridades são “confiáveis”. Basta ver nosso Congresso nacional. Alguém aqui confiaria algum segredo àqueles políticos? Pois isso está mais do que refletido na saga, onde os heróis se perguntam se podem confiar seus segredos às autoridades. Seu anonimato é a única coisa que os protege de represálias de bandidos que eles ajudaram a pôr na cadeia, os quais não constituiriam ameaças se realmente ficassem presos.
Vejamos os policiais cariocas que foram mortos por bandidos simplesmente por serem policiais, nos últimos tempos. A ação dos bandidos foi para vingar a repressão mais forte por parte das autoridades às ações dos traficantes nos morros da cidade. Tem policial que vai para o serviço de roupas civis, e só lá na repartição veste seu uniforme, tamanha a insegurança que muitos sentem no momento onde não estão a cumprimento de seu dever. Infelizmente, estamos chegando quase a este nível.
Como os diretores da Marvel declararam, a última coisa desejada é que “Guerra Civil” agradasse a todo mundo. De fato, as discussões foram tantas e com tal equilíbrio de opiniões, que talvez nenhuma série de quadrinhos tenha gerado até hoje, na discussão de aplicação de um preceito mais do que real ao universo dos super-heróis. Por este feito, a minissérie da Marvel já ganha muitos pontos em relação a muitas outras sagas até hoje publicadas.
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Adriano de Avance Moreno
é colaborador autônomo de jornais e revistas especializadas
na área de quadrinhos, animação e afins.