O ORIENTE MÉDIO INVADE OS EUA

Conheça os mais novos super-heróis do mercado americano, vindos diretamente do Egito.

Por Adriano de Avance Moreno(*)

Quando se fala em quadrinhos de super-heróis, os tradicionais “comics”, a imagem que vem à mente são dos personagens das grandes editoras norte-americanas, como Marvel, DC, Image, Dark Horse & cia. Em um mercado assim tão disputado, às vezes surgem publicações de outros países tentando conseguir um lugar ao sol. Ocasionalmente, até mesmo obras brasileiras acabam chegando lá. Mas a grande novidade que está chegando às bancas e comic shops americanas são as novas publicações de super-heróis de uma nova editora, a AK Comics, que é sediada no...Egito!

É isso mesmo. Os leitores americanos irão conhecer os heróis criados por uma editora de quadrinhos do Oriente Médio. Pode parecer loucura, mas se recentemente a Marvel Comics fechou contrato com uma editora da região para publicar histórias do Homem-Aranha em árabe, porque não poderia ocorrer o inverso? Com isso em mente, a AK Comics criou o selo “Middle East Heroes”.

“Por que o Oriente Médio não pode ter seus próprios super-heróis?”, pergunta Marwan Nashar, editor e diretor da AK-Comics, que ao lado de Ayman Kandeel, dono da editora egípcia, promete mostrar que não são apenas os americanos que possuem super-heróis.

Tudo começou há poucos anos, quando Kandell, então um professor de Economia da Universidade do Cairo e fã de gibis de longa data, começou a conceber seus próprios personagens de quadrinhos, claramente inspirados nos heróis americanos da Marvel e DC Comics. Morando nos Estados Unidos, ele percebeu que suas idéias não o permitiriam dar vôos mais altos naquele país e então pensou em levar suas criações para sua terra natal, o Egito. Criou a AK-Comics em 2003 e em fevereiro do ano seguinte a editora começava efetivamente a funcionar, com as primeiras revistas impressas em uma tiragem mínima, de apenas 400 exemplares, e com as histórias impressas apenas em preto e branco.

As dificuldades iniciais foram muitas, entre as quais, a falta de artistas para escrever e desenhar as histórias. O jeito foi recorrer a artistas estrangeiros, agenciados pelo G Studios, nos Estados Unidos, para trabalhar com os personagens criados por Kandell. O esquema, que já envolveu até artistas brasileiros, ainda é utilizado, mas a AK-Comics tem planos de ajudar a desenvolver artistas egípcios que queiram trabalhar neste mercado.

Atualmente, a editora vende uma média superior a 20 mil exemplares, somando seus 4 títulos, apenas no Oriente Médio, número bastante expressivo levando-se em conta a pobreza reinante em boa parte da região. A princípio, as revistas eram editadas apenas em árabe, mas visando uma maior difusão dos gibis e de seus personagens, todas as revistas passaram a ter versões em inglês também, que eram oferecidas a todos pontos de venda. Então um fato curioso aconteceu: as revistas foram colocadas à venda nos vôos da Egypt Air, o recurso deu certo e as revistas começaram a aumentar progressivamente suas vendagens.

Kendall não nega as influências das gigantes dos quadrinhos, DC e Marvel, bem como dos quadrinhos britânicos e até mesmo os mangás japoneses, mas as coincidências não ficam apenas nisso. “Queremos que nossos personagens sejam uma influência positiva para nossos jovens, assim como os heróis americanos, e ajudem a mostrar uma visão positiva do mundo árabe”, declara. E, parafraseando uma conhecida frase, seus heróis protegem “a verdade, a justiça, e o modo de vida árabe”. E isso serve para mostrar que nem todo árabe é uma ameaça, como dão a entender os radicais islâmicos.

Aliás, motivado pelo frágil balanço político e social da região, onde proliferam radicais islâmicos e fanáticos de toda espécie, a AK Comics não permite que a religião tome parte de suas histórias, pelo bem da neutralidade. Isso tem o objetivo de evitar que suas revistas se tornem motivos de brigas e escaramuças ideológicas. Por este motivo, até mesmo templos religiosos são proibidos nas histórias dos personagens, sejam igrejas, sinagogas, mesquitas, ou o que for. Eles sabem que qualquer exposição do tema, por mínima que fosse, poderia servir de argumento para malucos praticarem atrocidades.

Mesmo com estes cuidados, a AK não está livre de enfrentar dificuldades. Na Arábia Saudita, por exemplo, ela só tem permissão para comercializar 2 de seus títulos: Rakaan e Zein. Os motivos são óbvios: os outros títulos são estrelados por “heroínas”, o que é um assunto terminantemente proibido no país (podem chamar de machismo mesmo, pois a desculpa de que é mandamento da religião islâmica é totalmente imbecil). Não importaram as justificativas da editora: os censores árabes vetaram e ponto final. Uma prova de que nem mesmo boa vontade basta para superar dogmas arcaicos e preconceituosos, pra não falar na falta de liberdade de expressão, que parece ser dominante neste pedaço do mundo conturbado por conflitos. A dificuldade em criar identificação dos personagens com os leitores é permanente, e tentar criar um exemplo positivo de comportamento nem sempre é fácil, ainda mais numa região tão complicada e onde a religião islâmica parece ser um entrave para muitas coisas..

Ainda assim, as histórias tentam retratar, tão possível quanto, a realidade da região, mas com alguns cuidados, para evitar maiores problemas. A realidade do “universo” dos personagens situa-se em um futuro próximo, onde o Oriente Médio acabou de sair de um confronto longo e penoso, conhecido apenas como “Guerra dos 55 Anos”, que deixou profundas marcas na região. Tentando reencontrar seu caminho, os povos da região têm de conviver com inúmeras ameaças, e é aí que entram os heróis, para proteger os inocentes e combater aqueles que se aproveitam da situação. Os nomes de países, bem como os de cidades, em parte são fictícios, embora se refiram ao universo real. Um exemplo é a Cidade de Todas as Fés, menção que remete a Jerusalém, cidade sagrada tanto para cristãos, judeus e islâmicos. E algumas regiões são chamadas pelos seus nomes históricos, como Mesopotâmia, Pérsia, etc.

A principal intenção da AK Comics é tentar preencher o grande vácuo cultural existente entre as culturas do Ocidente e do Oriente Médio, mais estremecidas do que nunca nas últimas décadas. “Nós queremos apresentar para o mundo inteiro uma visão forte e otimista para um Oriente Médio futurístico, sem guerra, violência e tumulto. E nossos produtos destinam-se a mostrar nossos heróis como embaixadores globais da boa vontade, tentando mostrar uma imagem positiva desta que é a região mais turbulenta e mal-entendida do mundo, o Oriente Médio!”, declara a editora. O site da editora já recebeu mais de dois milhões de visitas e o lançamento dos títulos já mereceu reportagens em diversos veículos de comunicação americanos, europeus, e árabes, como a TV All-Jazeera.

Com o sucesso de suas revistas na região, publicadas na língua árabe, a AK Comics agora decidiu fincar raízes no mercado natal dos super-heróis, os Estados Unidos, onde pretende conquistar um vasto público leitor com seus personagens singulares e sua narrativa dinâmica, dando seu primeiro passo para conquistar espaço no mercado internacional de quadrinhos. As edições têm periodicidade bimestral e poderão ser adquiridas por um grande número de leitores. Abram alas para a mais nova geração de super-heróis. E que venham pra ficar.

OS PERSONAGENS

Conheça agora os heróis que terão suas aventuras publicadas nos EUA, em inglês:


JALILA, A SALVADORA DA CIDADE DE TODAS AS FÉS : Única sobrevivente de um desastre nuclear em Dimondona quando tinha 16 anos, a Dra. Ansam Dajani adquiriu superforça, a capacidade de voar, armazenar e controlar radiações nucleares, além de possuir agora supervisão e superaudição. Utilizando um traje especial concebido por seus falecidos pais, a jovem utiliza suas novas habilidades super-humanas para proteger a Cidade de Todas as Fés das forças do mal, entre as quais o perigoso Aton, a Força de Liberação Unida e o Exército de Zios que, apegados às suas visões extremistas, querem controlar o local pelo uso da força e impor seu domínio. Como se não bastasse, ela ainda precisa cuidar de seus irmãos mais jovens, tarefa complicada quando um deles é um viciado em drogas e o outro está envolvido com um grupo terrorista, se metendo sempre em encrencas. Mesmo assim, Ansam procura honrar seu nome e reputação como Jalila, sempre pronta para lutar contra as forças do mal. Podem considerá-la a “versão” da editora egípcia da Mulher-Maravilha e a personagem mais poderosa da editora.


RAKAN, O GUERREIRO SOLITÁRIO: Um guerreiro solene que vaga pelos desertos da Arábia medieval e Pérsia, Rakan foi abandonado por sua tribo ainda criança e adotado e criado por um mítico Dentes-de-Sabre do Deserto, a quem passou a chamar de Arameh. Ao ajudar um velho nômade chamado Hakim, que morava em um oásis secreto, tornou-se seu discípulo, aprendendo com ele técnicas de combate, noções profundas de paz e sabedoria, bem como as artes marciais de Sheba, tornando-se um guerreiro quase invencível. Agora, Rakan dedica sua vida a proteger os inocentes da violência gerada pelas guerras entre facções opostas, utilizando suas habilidades de combate, seus instintos animais e sua espada mística de Majido para evitar que os fracos sofram pelos erros dos poderosos, contando sempre com a ajuda dos ensinamentos de Hakim, bem como do auxílio de Arameh, seu amigo e parceiro Dentes-de-Sabre. Entre os inimigos que Rakan já coleciona estão o poderoso Majido e o Chest Master. Tendo a seu lado a companhia esporádica de Arameh, Rakan enfrenta os perigos de um mundo onde a lei da espada prevalece frente a feiticeiros e malfeitores. Conan continua dando muita inspiração para novos personagens...


ZEIN, O ÚLTIMO FARAÓ
: Filho de um poderoso rei dos tempos antigos, Zein nasceu cerca de 14 mil anos antes de Cristo. Com a queda de um grande meteoro, seu pai colocou-o em uma incubadora especial para salvar sua vida, onde ele ficou em hibernação por quase 9 mil anos. Ao despertar, viu que havia desenvolvido incríveis poderes sobrenaturais devido às capacidades especiais da câmara de incubação. Tornando-se quase imortal, Zein passou a viver diversas “vidas” ao longo do tempo, procurando sempre ajudar as pessoas. No presente, ele se radicou em Origin City, assumindo a profissão de professor de filosofia. Mas ao longo de toda a sua vida, tornou-se um herói lendário conhecido como Zein, o Último Faraó, lutando para preservar a paz e a prosperidade onde quer que fosse. Uma tarefa que não ficou mais fácil nos tempos atuais, com o surgimento de vilões como o perverso Anúbis e o temível Escaravelho. De sua base secreta, Zein lutará até o final dos tempos para defender a justiça, como herdeiro dos conhecimentos de uma civilização antiga e majestosa. É o herói mais bem-equipado da editora, possuindo um carro voador, dispositivos de rastreamento, dardos tranqulizantes, além de contar com um esconderijo bem requintado, onde guarda seu maior recurso: “Ísis”, um supercomputador que o auxilia em sua luta contra as forças do mal. Outro de seus recursos é a “Jóia do Rio”, uma pedra mística imbuída de diversos poderes antigos que ele usa em suas aventuras e que possui íntima relação com suas habilidades super-humanas.


AYA, A PRINCESA DA ESCURIDÃO: A jovem argeliana Rania Moktar sofreu um forte trauma em sua infância, ao ver seu pai ser assassinado bem na sua frente e, pior, ver sua mãe condenada à prisão perpétua acusada pelo crime. Com sua família destroçada, a jovem seguiu sua vida, até que um encontro misterioso com uma organização secreta de combate ao crime ofereceu-lhe a oportunidade de mudar seu destino e o das pessoas ao seu redor. Após um rígido e extenso treinamento, a jovem Rania se transformou numa expert em disfarce e espionagem, além de dominar todas as artes de combate marciais. Agora, ela usa as habilidades que aprendeu, bem como os equipamentos fornecidos pelo seu misterioso mentor, Número Zero, para lutar contra o mal em todas as suas formas, tornando-se uma temida e implacável vigilante noturna. Paralelamente, ela entrou para uma escola de Direito, visando encontrar uma maneira de reverter uma injustiça e conseguir libertar sua mãe da prisão, onde encontra-se detida há anos. Qualquer semelhança com um certo vigilante de Gotham City seria mera coincidência?.Ela cruza as ruas escuras em sua possante moto e dotada de diversos dispositivos tecnológicos leva a justiça das trevas àqueles que insistem em caminhar no lado errado da sociedade. Um de seus maiores inimigos é José Darian, líder da Nova Gangue do Submundo.

 


Comentários, sugestões: colunahq@yahoo.com.br

(*) Adriano de Avance Moreno é colaborador autônomo de jornais e revistas especializadas na área de quadrinhos, animação e afins.

 

 

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