Crise
de Identidade, uma história de Amor
Se
você ainda não leu Crise de Identidade aconselhamos fortemente
a lê-la antes desde texto. Contudo, mesmo revelando algumas informações
importantes aqui, o grande trunfo desta série é sua narrativa
e não um mero mistério.
Crise
é uma das melhores minisséries de todos os tempos por
quatro razões principais: é uma história de amor;
é uma declaração de amor à DC; tem todos
os elementos necessários de uma HQ e é a principal justificativa
das mudanças que estão por vir.
Antes
de mais nada Crise é uma história de amor. Isso fica muito
claro em diversos momentos, mas principalmente no caso de Sue Dibny.
Muitos disseram que se a DC quisesse ser ousada deveria ter feito o
que fez com a Lois Lane, mas se enganaram. Sue é perfeita, uma
personagem clássica mas sem uma grande relevância, que
sempre passou meio despercebida, diferente de coadjuvantes que roubam
a cena como Lois. Justamente por ser um pouco desconhecida do público
em geral é que ela foi perfeita, pois Brad Meltzer em poucas
páginas não só resumiu sua carreira e mostrou seu
romance com o Homem-Elástico, mas fez todos os leitores se apaixonarem
por ela. Uma paixão tão forte que nos tira da posição
de mero observador dos eventos, mas nos deixa triste, com ódio
e com o mesmo desejo de vingança de Ralph.
Apesar
do clima romântico triste permear toda a série, a primeira
e a última parte concentram os momentos mais fortes, principalmente
aqueles ligados a Ralph. Foi simplesmente maravilhosa a idéia
do Homem-Elástico não conseguir controlar seu corpo e
chegar perto de se dissolver quando tenta discursar no funeral. Esse
seria o melhor momento da série se não fosse pelo epílogo.
Motivado pelo Arqueiro Verde, Ralph passa a conversar com Sue. O sentimento
de conforto na solidão que isso passa é absurdo. Se não
fosse pela segunda página do epílogo, mostrando um apartamento
abandonado e o último quadro dessa página, mostrando pelo
espelho a cama vazia, você teria certeza que ele está conversando
com alguém.
Além
do casal principal o amor é o que movimenta toda a trama de assassinato.
Jean, a mulher do Elektron, o quer de volta. Ele também a quer,
mas como tudo nos romances as coisas não são simples.
Ela é muito orgulhosa, quer se provar uma mulher superior ao
marido, tanto que no divórcio toma as patentes dele só
para devolver depois, dizendo que não precisava do dinheiro dele
para viver. Meltzer constrói uma personagem que ninguém
suspeitaria mas deixa uma trilha de pistas, que às vezes até
parecem erros, moldando o caráter e a mente perturbada da assassina.
Quem
se beneficia com os assassinatos? Ora, aqueles que amam os super-heróis
e tem que os dividir com o resto do mundo, pois é isso o que
eles fazem. Com os crimes os heróis mudam suas prioridades, se
permitem ser um pouco egoístas e ficarem com aqueles que amam.
Para encerrar o que tange o romance, a escolha do Elektron vale pela
cena em que ele sai de Arkham e encolhe, se sentido pequeno.
Brad
Meltzer conseguiu com essa série fazer sua declaração
de amor à DC e a todos os seus personagens. Ele resgatou personagens
há muito deixados de lado, os revitalizou, criou novas nuances
e mostrou como eles ainda podem funcionar. Ele conseguiu trabalhar com
várias formações da Liga da Justiça, mostrar
os diversos super-grupos, inclusive de vilões, interagindo. A
riqueza de detalhes e o conhecimento dos personagens tornaram essa série
um prato cheio para os fanboys.
Mas
quem pensa que esse foi só um romance parado se engana muito.
Crise é um thriller policial cheio de ação e tensão.
Uma busca frenética por um assassino de que ninguém tem
a menor pista. Uma tentativa constante e desesperada de evitar o próximo
ataque. Tudo para deixar o leitor preso à história, curtindo
cada movimento e desesperado pelo próximo número.
Como
se tudo isso não bastasse, Crise de Identidade é a faísca
que dá início a uma nova DC que surgirá após
a Crise Infinita. Não que os eventos tenha correlação
direta. Algumas coisas estarão ligadas com o fato da Liga ter
mexido com a memória do Batman, mas isso são reflexos
menores. A principal ligação da série com o futuro
da editora está explicitada na citação de Arthur
Miller: "Pode-se dizer que uma era acabou quando se exauriram suas
ilusões básicas". O mundo mudou, o universo DC mudou,
está mais cruel, mais sinistro, mais perigoso, mas os heróis
ainda não tinham se dado conta disso. Eles viviam uma falsa ilusão
de segurança. Viviam em um mundo onde os heróis são
bem-vindos e conseguem controlar o crime e a violência.
Infelizmente
nos dias de hoje não conseguimos mais acreditar nessa fantasia.
Por mais que queiramos heróis nos protegendo sabemos que mesmo
o mais poderoso deles não é capaz de limpar o mundo. Essa
realidade crua já dominou as outras editoras e os considerados
melhores quadrinhos; contudo na DC ainda ficava contida na linha Vertigo.
Mas agora os heróis viram que seu mundo mudou. Enxergaram que
estão em um lugar perigoso onde nem eles estão a salvo.
Onde mesmo entre os melhores existem segredos sujos. É desse
ponto, é nessa realidade que a nova DC vai surgir. Se será
bom ou será ruim é difícil dizer... nos resta esperar
para ver o que se passa dentro da cabeça desses criadores que
tanto amamos.