VIVE LA EXTREMIS REVOLUCIÓN!!
"I
am the Iron Man inside out!"
Tony Stark
Por
Fivo* (colaborador)
Nunca
fui fã do Homem de Ferro. Na minha
visão, ele sempre padeceu do mesmo mal que ataca personagens
como Superman e Capitão América,
por exemplo. Ou poderosos demais, ou auto-suficientes demais,
ou com suporte demais, ou sem problemas demais, ou todas as
opções mencionadas juntas. Não à
toa, a contraparte ultimate do Capitão - defeituosa
até a alma - é bem mais interessante. E Tony
Stark não é diferente. É um
homem comum e um alcoólatra, mas podre de rico e resolve
tudo com uma facilidade que impressiona. Cria-se um paradoxo:
é um homem comum tão meta-humano, que não
sei o que venceria este cara.
No mundo das histórias em quadrinhos há que
se aceitar certas coisas para que a diversão ocorra.
Entretanto, mesmo dentro de seus absurdos, existem regras
coerentes com o gênero em si. Já me peguei várias
vezes pensando como os poderes destes personagens funcionariam
e um que sempre se mostrou meio apelativo era o Homem de Ferro.
O nível de tecnologia de sua armadura, o fato de não
haver algo sequer próximo de seu potencial, partindo
do princípio de que Tony Stark, humano, faz tudo sozinho,
deixava tudo muito distante do que eu julgava ser coerente
dentro da incoerência. A armadura só teria sentido
se Stark não fosse humano, mas ao menos mutante - tipo
um Forge, por exemplo.
Quando surgiu a versão ultimate, pensei: "Opa!
Até que enfim uma visão do Homem de Ferro verossímil!
Só poderia ser assim mesmo”. Lembro que um amigo
chegou a discordar de mim, disse que, para ele, Stark era
fora de série e, se considerasse a versão clean
desenhada por Adi Granov, seria mais condizente
com o que ele imaginava possível.
E ele estava certo. Comprei O Invencível Homem
de Ferro - Extremis e fiquei de queixo caído.
A sinopse é até repetitiva dentro do próprio
mundo de estórias do personagem: uma arma biológica
é roubada de um laboratório onde trabalha uma
amiga/ex-peguete de Stark e esta o chama para ajudar a resolver
o problema. Simples, direto e certeiro. É uma premissa
de roteiro tão batida e óbvia, com pontos chaves
tão bem definidos, que fica na cara que deve ter um
algo mais para terem se dado ao luxo de trazer esta pompa
toda ao arco.
E que pompa! A equipe criativa é uma destas duplas
que você deseja que nunca se desfaçam. Assim
como Bendis/Maleev, Millar/Hitch
e outros, Warren Elis e Adi Granov
combinaram com o Homem de Ferro como se o personagem tivesse
sido feito para eles. Ou por eles. Mas já que não
foi, então eles o refizeram.
Como já cansamos de ver, toda a cronologia do personagem
pesou e tiveram que redefinir o passado de um cara por volta
de seus trinta e poucos anos em 2005. A forma como o estilhaço
veio parar no seu coração foi um pouco alterada,
assim como o contexto em que se encontrou com Yinsen - o cientista
japonês que o ajudou a construir a primeira armadura.
As conseqüências de suas invenções
e a inequívoca condição de crescimento
tecnológico americano, intimamente vinculado ao suporte
militar, foram mais densamente definidas. Algumas outras questões
morais, que até já foram inseridas em outros
tempos, ganharam roupa nova pela imaginação
de Ellis.
Não
sei se esta nova origem vai colar - fizeram isto com Homem
Aranha e Superman, por exemplo,
e não colou - mas não há como negar o
talento de Warren Ellis ao pegar um roteiro batido e transformá-lo
em algo eficiente. É, novamente, o "como"
sobrepujando o "o quê". Costumo pensar que
uma história em quadrinhos pode ser boa se não
tiver desenhos bons, contanto que roteiro e diálogos
compensem, sendo que não há história
boa se o desenho for bom, mas com roteiros fracos. Ellis abusa!
Seus diálogos são afiadíssimos e, mesmo
que o roteiro por vezes dê uma soluçada e nos
apresente eventos que sabidamente não ocorreriam daquela
forma se o objetivo não fosse redefinir o personagem.
A
dupla criativa de Extremis nos presenteia com um conjunto
perfeito, onde ótimos diálogos recebem a companhia
da impressionante e limpa arte de Adi Granov. O cara é
um absurdo. No my space dele percebe-se que sempre foi tarado
por máquinas e afins, o que é algo perfeito
para quem começou seu papel na Marvel com um personagem
essencialmente máquina. Ao acabar de ler cada página,
nos pegamos mais cinco minutos admirando seu desenho, sua
anatomia simples, seus cenários, os detalhes técnicos
da visão do Homem de Ferro que o fazem verossímil
como havia falado.
Curioso,
pois é uma maneira austera de imprimir seu estilo,
mas esta austeridade não abre mão do dinamismo
em momento algum. É possível sentir o movimento,
inevitável imaginar os personagens se movendo nos momentos
antes da cena desenhada e imediatamente após, até
juntar-se com o próximo quadrinho. Tudo é de
um esmero que justifica os atrasos nas datas de publicação
da revista. A primeira - de seis - saiu em janeiro de 2005,
a última em março de 2006. Se me permito fazer
alguma objeção é quanto à sua
representação das pessoas. Se por um lado a
anatomia é perfeita, por outro esta mesma perfeição
as deixa "plastificadas", como que embalsamadas,
mas aí a gente chama de estilo e fica tudo certo.
De
qualquer forma, mesmo que a armadura, sob os detalhes de Granov
e o argumento de Ellis, tenha ficado verossímil, ainda
assim seria um desperdício de talento e/ou oportunidade.
Algo mais precisava ser feito para criar um sentido de mudança
definitiva, de forma que esta série não ficasse
no esquecimento no futuro próximo. Não basta
mudar o Homem de Ferro, há que se mudar Tony Stark.
Deixamos de ter um "mero humano superpoderoso" e
passamos a ter de fato o Homem de Ferro na mais perfeita acepção
da palavra.
Revelar
mais é tirar a graça, então paro por
aqui. Só digo que vale o dinheiro gasto. Pena que a
Panini não tenha decidido lançar tudo de uma
vez só, um encadernado de 150 páginas. Ficaria
muito mais bonito na estante.
* Fivo é um dos colaboradores do Blog
Área Azul onde três colegas discutem quadrinhos
com um ponto de vista bem peculiar. Vale a pena conferir e
participar das discussões.