HOMEM DE FERRO
Extremis Nº 01 de 03
De R$ 6,50 por R$ 5,30

VIVE LA EXTREMIS REVOLUCIÓN!!

"I am the Iron Man inside out!"
Tony Stark

Por Fivo* (colaborador)

Nunca fui fã do Homem de Ferro. Na minha visão, ele sempre padeceu do mesmo mal que ataca personagens como Superman e Capitão América, por exemplo. Ou poderosos demais, ou auto-suficientes demais, ou com suporte demais, ou sem problemas demais, ou todas as opções mencionadas juntas. Não à toa, a contraparte ultimate do Capitão - defeituosa até a alma - é bem mais interessante. E Tony Stark não é diferente. É um homem comum e um alcoólatra, mas podre de rico e resolve tudo com uma facilidade que impressiona. Cria-se um paradoxo: é um homem comum tão meta-humano, que não sei o que venceria este cara.

No mundo das histórias em quadrinhos há que se aceitar certas coisas para que a diversão ocorra. Entretanto, mesmo dentro de seus absurdos, existem regras coerentes com o gênero em si. Já me peguei várias vezes pensando como os poderes destes personagens funcionariam e um que sempre se mostrou meio apelativo era o Homem de Ferro. O nível de tecnologia de sua armadura, o fato de não haver algo sequer próximo de seu potencial, partindo do princípio de que Tony Stark, humano, faz tudo sozinho, deixava tudo muito distante do que eu julgava ser coerente dentro da incoerência. A armadura só teria sentido se Stark não fosse humano, mas ao menos mutante - tipo um Forge, por exemplo.
Quando surgiu a versão ultimate, pensei: "Opa! Até que enfim uma visão do Homem de Ferro verossímil! Só poderia ser assim mesmo”. Lembro que um amigo chegou a discordar de mim, disse que, para ele, Stark era fora de série e, se considerasse a versão clean desenhada por Adi Granov, seria mais condizente com o que ele imaginava possível.

E ele estava certo. Comprei O Invencível Homem de Ferro - Extremis e fiquei de queixo caído. A sinopse é até repetitiva dentro do próprio mundo de estórias do personagem: uma arma biológica é roubada de um laboratório onde trabalha uma amiga/ex-peguete de Stark e esta o chama para ajudar a resolver o problema. Simples, direto e certeiro. É uma premissa de roteiro tão batida e óbvia, com pontos chaves tão bem definidos, que fica na cara que deve ter um algo mais para terem se dado ao luxo de trazer esta pompa toda ao arco.

E que pompa! A equipe criativa é uma destas duplas que você deseja que nunca se desfaçam. Assim como Bendis/Maleev, Millar/Hitch e outros, Warren Elis e Adi Granov combinaram com o Homem de Ferro como se o personagem tivesse sido feito para eles. Ou por eles. Mas já que não foi, então eles o refizeram.

Como já cansamos de ver, toda a cronologia do personagem pesou e tiveram que redefinir o passado de um cara por volta de seus trinta e poucos anos em 2005. A forma como o estilhaço veio parar no seu coração foi um pouco alterada, assim como o contexto em que se encontrou com Yinsen - o cientista japonês que o ajudou a construir a primeira armadura. As conseqüências de suas invenções e a inequívoca condição de crescimento tecnológico americano, intimamente vinculado ao suporte militar, foram mais densamente definidas. Algumas outras questões morais, que até já foram inseridas em outros tempos, ganharam roupa nova pela imaginação de Ellis.

Não sei se esta nova origem vai colar - fizeram isto com Homem Aranha e Superman, por exemplo, e não colou - mas não há como negar o talento de Warren Ellis ao pegar um roteiro batido e transformá-lo em algo eficiente. É, novamente, o "como" sobrepujando o "o quê". Costumo pensar que uma história em quadrinhos pode ser boa se não tiver desenhos bons, contanto que roteiro e diálogos compensem, sendo que não há história boa se o desenho for bom, mas com roteiros fracos. Ellis abusa! Seus diálogos são afiadíssimos e, mesmo que o roteiro por vezes dê uma soluçada e nos apresente eventos que sabidamente não ocorreriam daquela forma se o objetivo não fosse redefinir o personagem.

A dupla criativa de Extremis nos presenteia com um conjunto perfeito, onde ótimos diálogos recebem a companhia da impressionante e limpa arte de Adi Granov. O cara é um absurdo. No my space dele percebe-se que sempre foi tarado por máquinas e afins, o que é algo perfeito para quem começou seu papel na Marvel com um personagem essencialmente máquina. Ao acabar de ler cada página, nos pegamos mais cinco minutos admirando seu desenho, sua anatomia simples, seus cenários, os detalhes técnicos da visão do Homem de Ferro que o fazem verossímil como havia falado.

Curioso, pois é uma maneira austera de imprimir seu estilo, mas esta austeridade não abre mão do dinamismo em momento algum. É possível sentir o movimento, inevitável imaginar os personagens se movendo nos momentos antes da cena desenhada e imediatamente após, até juntar-se com o próximo quadrinho. Tudo é de um esmero que justifica os atrasos nas datas de publicação da revista. A primeira - de seis - saiu em janeiro de 2005, a última em março de 2006. Se me permito fazer alguma objeção é quanto à sua representação das pessoas. Se por um lado a anatomia é perfeita, por outro esta mesma perfeição as deixa "plastificadas", como que embalsamadas, mas aí a gente chama de estilo e fica tudo certo.

De qualquer forma, mesmo que a armadura, sob os detalhes de Granov e o argumento de Ellis, tenha ficado verossímil, ainda assim seria um desperdício de talento e/ou oportunidade. Algo mais precisava ser feito para criar um sentido de mudança definitiva, de forma que esta série não ficasse no esquecimento no futuro próximo. Não basta mudar o Homem de Ferro, há que se mudar Tony Stark. Deixamos de ter um "mero humano superpoderoso" e passamos a ter de fato o Homem de Ferro na mais perfeita acepção da palavra.

Revelar mais é tirar a graça, então paro por aqui. Só digo que vale o dinheiro gasto. Pena que a Panini não tenha decidido lançar tudo de uma vez só, um encadernado de 150 páginas. Ficaria muito mais bonito na estante.


* Fivo é um dos colaboradores do Blog Área Azul onde três colegas discutem quadrinhos com um ponto de vista bem peculiar. Vale a pena conferir e participar das discussões.

O INVENCÍVEL HOMEM DE FERRO
Extremis Nº 02 de 03
De R$ 5,90 por R$ 4,90

 

 

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