Tempos bons que não voltam mais
Um dos grandes problemas da cronologia nos quadrinhos é que, uma vez feitas certas mudanças, não se pode simplesmente voltar atrás. Tudo bem que personagens ressuscitem, que identidades não-secretas voltem a ser um mistério, culpados se inocentem etc. Essas são algumas vicissitudes da indústria dos quadrinhos a que já nos acostumamos.
Agora, por mais que se façam manobras editoriais, o tempo é inexorável, mesmo para os quadrinhos. Depois de décadas, por mais que os fãs saudosistas queiram, não dá para simplesmente apagar o passado e retornar ao início. Quer dizer, até dá, mas esses casos são um tanto traumáticos, pois, ou você recomeça tudo e cria algo “novo”, como a linha Ultimate (Millenium) ou você dá uma reviravolta que não vai agradar os fãs que passaram anos acompanhando histórias que agora não valem mais (é mais ou menos o que estão dizendo que acontecerá em Spider-Man One More Day).
Dessa forma, ainda sobram algumas alternativas comercialmente viáveis para as editoras. Uma delas é algo que está sendo bastante usado ultimamente de pegar um ponto marcante da carreira de um personagem e tentar trabalhar com o espaço que sobra entre os acontecimentos principais, preenchendo certos vazios.
A Marvel tem usado essa técnica em algumas histórias escritas pelo Joe Casey, como Fantastic Four Fisrt Family (Quarteto Fantástico Anual 1) e Avengers – Earth´s Mightiest Heroes vol. I e II (respectivamente Vingadores Anual 1 e 2). Olhando essas histórias, vemos que elas funcionam, até certo ponto, como uma homenagem aos personagens. Elas até servem para o resgate das tramas originais e, dessa forma, satisfazer os saudosistas.
Contudo o resultado final que temos acompanhado está longe de ser satisfatório. Essas revistas tem sua trama muito entrecortada, com uma narrativa truncada que dá um salto em cada ponto que bate com uma parte já narrada lá na história original dos personagens. Assim, a ação fica reduzida, pois as lutas já foram mostradas no passado.
Na história do Quarteto, Casey dá uma driblada nessa situação inserindo um novo vilão. Funciona, até certo ponto. Agora, em Vingadores, principalmente no segundo volume, ele criou algo difícil de engolir. Uma história chata, cansativa, carregada em diálogos e monólogos mentais e praticamente sem ação.
Temos que concordar que é uma tarefa árdua a que foi proposta para ele. Ele deve voltar as origens dos personagens, fazer algo inédito e não mudar nada. Praticamente ele deve reinventar a roda e apresentá-la como a melhor invenção do momento.
É difícil, mas não impossível. A série X-Men First Class (publicada aqui recentemente em X-Men Anual 2) é uma prova disso. A série parte da mesma proposta de se ambientar no começo da carreira dos heróis mutantes, quando eles ainda eram um pequeno grupo, simples, compacto e muito funcional. Quando usavam máscaras, tinham efetivamente aulas, estavam aprendendo com Xavier a usar seus poderes para salvar “um mundo que os teme e odeia”.
Nessa história o roteirista Jeff Parker em vez de tentar pegar algum momento marcante ou fazer um grande espetáculo, simplesmente pega a ambientação e começa a contar histórias curtas, como se estivesse na década de 60. Pode parecer estranho, mas na verdade muitas vezes a simplicidade garante uma boa história.
Tudo é leve, inocente e divertido nessa revista. Obviamente o traço de Roger Cruz ajuda muito na realização dessa tarefa. Cruz mostra um de seus melhores trabalhos nessa revista casando perfeitamente com a proposta de ser um entretenimento leve, que, tanto serve para agradar os fãs saudosistas como para conquistar novos leitores que estão se iniciando nos quadrinhos de heróis.
É simples, funcional e muito divertido. Então, porque poucos quadrinhistas fazem isso? A resposta também é simples. Até certo ponto, é fácil prender o leitor e chamar sua atenção com histórias revolucionárias onde personagens voltam da morte, onde não se sabe quem é o clone ou quem é o original ou, até mesmo, um básico confronto que definirá o destino do universo.
Agora, prender a atenção com uma história tida por muitos como boba, bem, para isso é necessário muito mais que criatividade. Você precisa ter uma grande habilidade narrativa, precisa saber como desenvolver bem um texto, transformá-lo em uma revista em quadrinhos.
É um fato que o saudosismo é um grande apelo para a nossa geração. Ou sofremos de um sentimento precoce, como o caso do fetiche pela década de 80, ou por uma falta de coisas que não vimos, como a geração de leitores que começaram nos anos 90 sempre ouvindo dizer que bons mesmos eram os quadrinhos antigos.
Agora, é preciso saber trabalhar com isso. Não basta espanar umas idéias e colocá-las em exposição, para isso é melhor simplesmente reeditar os clássicos. É preciso ter habilidade narrativa para trazer ao presente a inocência do passado e, assim, mostrar, com a linguagem de hoje, porque aquilo era tão bom.