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Guerra Civil: De que lado você ficou?

Em 2007 os quadrinhos de super-heróis da Marvel ficaram envolvidos em um mega-evento que ligou todas as revistas e mudou várias coisas na realidade da editora. Essa Guerra Civil foi um gigantesco embate entre super-heróis, que tiveram que tomar partido sobre a nova Lei de Registro de Super-Humanos que obrigava todos os super-heróis a entregarem sua identidade e se tornarem agentes do governo norte-americano.

Resumindo os fatos, o estopim da Guerra foi uma tragédia envolvendo os Novos Guerreiros que, lutando contra o vilão Nitro, causaram a morte de muitas pessoas, na maioria crianças. Depois disso, o Homem de Ferro liderou os heróis que aceitaram se registrar e travou uma violenta batalha com aqueles que não aprovaram a lei, liderados pelo Capitão América.

É interessante notar que a Marvel soube capitalizar essa história em uma minissérie de sete partes se tornou algo que envolveu praticamente todas as revistas da editora por quase um ano e deixou conseqüências que ainda estão sendo trabalhadas. Houve ainda uma nova série paralela à principal, Guerra Civil: Frente de Batalha, que mostrava algumas conseqüências do conflito em diversos pontos do Universo Marvel. Mais do que só a minissérie principal, o evento acabou fazendo mais sucesso e até mais sentido nas interligações com outras revistas.

Sobre a minissérie em si, muitos reclamaram muito, principalmente do seu final. No decorrer da história ela se apegou demais ao fetiche do leitor de ver heróis medindo forças e lutando até cair. É tudo que os leitores sempre imaginaram: Quem vence numa luta entre o Capitão América e o Homem de Ferro?

Com todo esse clima, toda essa brutalidade, um final em que o Capitão América simplesmente desiste de lutar por ver que a guerra está afetando demais os civis é totalmente anti-climático e inesperado. Isso causou revolta em muitos leitores, mas faz todo sentido quando se olha o panorama geral da história.

A Marvel sempre teve como diretriz mostrar heróis mais realistas, destacar o componente humano e mostrá-lo tão ou mais importante que o uniforme ou o super-poder. O Homem-Aranha é muito mais que um cara que sobe paredes. Ele é alguém que precisa ganhar dinheiro para sobreviver com muito sacrifício, tem dificuldade em conversar com garotas, sempre se sente inferior e diferente dos outros, entre diversos outros problemas que fazem os leitores se identificarem com o personagem.

Por muito tempo esse componente humanístico bastou para dar o toque de realidade nos personagens. Mas os leitores foram pedindo mais. Eles queriam mais explicações, mais justificativas, mais porquês, como etc. Tudo tinha que ser altamente plausível, baseado, no mínimo, na extrapolação de alguma teoria existente. Nada poderia simplesmente acontecer por acaso, pois não é assim que as coisas acontecem na vida real. Na Marvel, principalmente a de hoje, dificilmente existiria um personagem como o Superman, simplesmente porque os leitores não acreditam que possa existir um casal de velhinhos do Kansas que criasse alguém com aquele caráter.

Partindo disso a Marvel decidiu dar ao leitor a realidade que ele tanto quis. A partir de agora os heróis ou trabalharão oficialmente para o governo ou serão fora-da-lei que deverão ser perseguidos, inclusive por seus antigos amigos. A lei será implacável e os heróis registrados responderão por seus atos enquanto os outros terão um real motivo para ocultar sua identidade, pois caso contrário podem ser processados e presos para responder por suas atividades como aventureiros.

Essa é a nova realidade da Marvel, um mundo pós-guerra, que quer paz e ordem. Essa percepção de toda a editora de que as lutas dos heróis causam grandes estragos e devem ser controladas acabou sendo o cerne da história.

Quem leu Wolverine viu que existe uma empresa chamada Controle de Danos Inc., especializada em limpar e reconstruir áreas onde houve conflitos super-humanos. Essa empresa era justamente quem mais lucraria com a Guerra Civil, tanto que o diretor dela provocou o evento que iniciou o conflito. Ele deu ao Nitro uma droga que aumentava seus poderes e quando o vilão enfrentou os Novos Guerreiros acabou causando uma tragédia gigantesca.

Contudo, como disse Emma Frost em uma das histórias dos X-Men, os mutantes já enfrentaram massacres bem piores que esses. Sem pensar muito, podemos facilmente lembrar de destruições muito mais catastróficas causadas por lutas entre heróis e vilões. Assim, a questão se torna: por que agora?

Há dois enfoques para responder isso. O externo é que os EUA estão novamente passando por um momento pacifista de aversão à guerra. Isso é algo cíclico lá e, ora eles elegem o Bush justamente por ele ser um militarista que quer ver o sangue escorrendo pelas mãos do bem preparado exército norte-americano, ora eles criticam o governo eleito justamente por fazer o que eles queriam. É um refluxo de guerras que causam mortes demais, duram tempo demais e parecem perder sua razão. Aconteceu antes com o Vietnã e está acontecendo novamente agora no Iraque.

Editorialmente vemos que os “heróis realistas” têm ganhado muito espaço nos quadrinhos. Os leitores compram e elogiam mais as histórias cada vez mais realistas. Supremos da própria Marvel e um exemplo disso. Ali o principal grupo de heróis trabalha oficialmente para o governo.

Assim, buscando o que vende mais, a editora iniciou a transição que levará a um novo tipo de realidade às histórias. Uma olhada nas revistas Marvel Action #14 e Avante, Vingadores #14 mostra como os vilões uniformizados clássicos estão sendo substituídos por ameaças terroristas e conflitos militares internacionais. E isso é a Guerra Civil, a percepção dessa realidade. Dessa forma, nada mais justo que o confronto acabar quando o Capitão América, o líder da resistência dos heróis tradicionais de capa e máscara, percebe que o mundo mudou e eles ficaram para trás.

Aliás, o Capitão América é o que mais sente essa realidade pois em Guerra Civil ele vê que suas ações podem causar mais mal do que bem e, no seu título próprio, um pouco depois, ele fica ciente de sua mortalidade. O Capitão sempre foi, antes de mais nada, um humano um pouco mais forte que a maioria. Apesar de sua determinação inigualável, ele ainda era só um humano e humanos morrem. É exatamente o que acontece depois da Guerra Civil. Sem uma grande luta, sem um apoteótico combate, Steve Rogers é baleado e morre.

Depois, quando viram o resultado de tudo, o caminho que as coisas tomaram, muitos leitores reclamaram. Diversos declararam que desistiam dos super-heróis e que só leriam quadrinhos antigos a partir de agora. Os próprios criadores são a favor das histórias clássicas, tanto que os quadrinhos retrô tem mostrado cada vez mais destaque e qualidade. Contudo, a maioria dos leitores pediu mais realidade.

Mesmo chamando o Homem de Ferro de vilão, a maioria estava do lado dele. E há uma passagem interessante na quarta edição de Guerra Civil em que Tony Stark tenta justificar sua proposta de Lei de Registro, alegando que esta era uma demanda da opinião pública que a própria comunidade de super-humanos deveria atender antes que as autoridades convencionais decidissem sobre o assunto. Isso lembra muito o contexto de criação do Código de Ética dos Quadrinhos (o Comic Code Authority), uma forma de auto-censura que a indústria de quadrinhos criou nos anos 50, quando era alvo de críticas ferrenhas de setores conservadores da sociedade norte-americana, e por muito tempo foi considerado uma das maiores mazelas das HQs.

Então, agora esse é o novo mundo que foi pedido e essas são as histórias mais realista que vamos acompanhar agora, pelo menos até a próxima mega-saga que mudará tudo.

(22/04/08)

 
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