O
Zeitgeist de Heroes
Por
Eduardo Nasi (colaborador)

Heroes, série que estréia nesta sexta-feira, 2,
no Brasil, não tem nada de novo. Mas subverte o conceito-chave
dos X-Men para provocar identificação com o público
A máxima televisiva de que nada se cria e tudo se copia atinge
seu auge com Heroes. A trama, que estréia sexta-feira, 2, pelo
Universal Channel brasileiro, já foi relativamente
noticiada por aí: por uma questão de evolução
genética, algumas pessoas comuns começam a ganhar superpoderes.
Só que essa galera está espalhada mundo afora, cada
um com um poder diferente: um bandido atravessa paredes, um policial
lê pensamentos, um candidato a senador pode voar, uma menina
cura seus ferimentos rapidamente etc. Um certo professor descobre
um método de localizar os mutantes para, no mínimo,
ensiná-los a usar seus poderes de forma controlada.
A
inspiração, claro, tem até mesmo trejeitos de
plágio: são os X-Men, cria da Marvel nos anos 60. E
os produtores não têm problema nenhum com isso. Levam
na boa, como homenagem que é. Por exemplo: um dia desses, no
episódio que passou na TV norte-americana, Stan Lee fez uma
participação especial como motorista de ônibus.
A
participação do mundo dos quadrinhos não pára
aí. O desenhista Tim Sale, colaborador de
anos da Marvel e da DC, é o responsável pelos quadros
pintados por um superdotado que vê o futuro em suas telas. Seu
traço é que revela o fio condutor da história:
uma grande explosão nuclear que devastará Nova York.
São os Heroes, claro, que precisam impedi-la. E outros artistas
foram chamados para fazer as graphic novels de Heroes, publicadas
no site da emissora norte-americana NBC. Michael Turner é um
deles.
Outra
fonte de inspiração evidente de Heroes é o seriado
Lost (1). A nova série
se aproveita da estrutura de mistérios repletos de pistas a
serem decifradas pelos espectadores. Ou seja: a série aposta
no conceito de inteligência coletiva (2)
para envolver os espectadores. E, daí para também criar
um alternate-reality game (ARG), foi um passo. Como
em Lost, cabe ao público engajado em fóruns e blogs
mundo afora desvendar ativamente o lado corporativo da grande conspiração
por trás da série, que, no caso, envolve uma empresa
chamada Primatech Paper. As pistas estão espalhadas por toda
a internet, até mesmo em perfis do MySpace, site ao estilo
do Orkut bastante popular nos Estados Unidos, e incluiu fortemente
os celulares, que fazem parte ativa do jogo.
A
grande lição que Heroes pega de Lost não é
a chance de o público participar da construção
da história como se fosse um detetive coadjuvante. A ilha e
os flashbacks da série da ABC inverteram o conceito de identificação
na TV. Antes, e com raras exceções, o espectador se
identificava com um perfil de personagem que tinha a ver com o seu.
Adolescentes se refletiam em adolescentes, latinos em latinos e por
aí vai. Com Lost, a identificação se dava com
o clima de paranóia e desconfiança geral pós-11
de Setembro. E também com um aspecto que define o inconsciente
de todo o espectador. Em Lost, como na vida real, todo mundo tem um
lado negro. Na série, mesmo o mais bonzinho dos personagens
tem um lado sombrio que aparece nos flashbacks que costuram os episódios.
Os
X-Men da Marvel, perseguidos por serem uma minoria diferente, sempre
tiveram um efeito de identificação com a massa dos leitores
de quadrinhos, vitimada pela pecha de nerd. Os mutantes davam aos
destituídos de uma rede social a sensação de
que algo especial poderia despertar de dentro deles. Mas, diferente
de Clark Kent, os X-Men ainda podem ser rejeitados sem a identidade
secreta. Fera tem o QI acima da média de Fera, mas está
cheio de pêlos. Wolverine tem fator de cura, o que é
descompensado pela memória confusa. Os mutantes da Marvel formam
guetos.
Apesar
da semelhança dos personagens, Heroes inverte a lógica
de Stan Lee. Seus mutantes são, como eles mesmos se classificam,
“especiais” – e são perseguidos justamente
porque podem fazer a diferença no mundo. Na era do Youtube,
qualquer um pode ganhar superpoderes e se tornar especial. Não
é por acaso que a dupla de estudantes chineses que fez sucesso
ano passado dublando músicas em inglês faz uma ponta
em um dos primeiros episódios. Eles são gente comum
que ficaram famosos (ou especiais) de um dia pro outro, coisa que
todo mundo quer, mas só alguns conseguirão. A identificação
do público com Heroes, como em Lost, se dá pelo Zeitgeist,
a palavra em alemão para “espírito do nosso tempo”.
E assim a série estréia já como uma marca pétrea
da mídia contemporânea.
Notas
(1)
Números de audiência da TV norte-americana dizem que
Lost estaria perdendo público, o que pode ser um sofisma. Assim
como boa parte da série migrou para a internet, transformando-a
em um fenômeno que transcende a TV, sua audiência pode
ter tomado o mesmo rumo. Em formato digital, o espectador pode retroceder
e pausar cenas em busca de detalhes que revelem mistérios ocultos,
coisa que a transmissão comum inviabiliza. Os canais de troca
de arquivos piratas, que disponibilizam episódios imediatamente
após a exibição, continuam distribuindo Lost
em massa. Os números para auditar downloads não são
confiáveis, o que tende a gerar um desprezo da indústria
de entretenimento tradicional. E esse menosprezo pode gerar um paradoxo:
queda da receita publicitária do intervalo sem um aumento nos
valores do grande número de merchandising do programa. Os produtores
de Heroes parecem cientes do problema e criaram parcerias visíveis
com Nissan e Motorola.
(2) A inteligência coletiva é descrita
de forma brilhante no livro Convergence Culture, de Henry Jenkins.
O professor e pesquisador do MIT usa o caso dos fãs do Survivor,
que empregam até mesmo um satélite para fotografar as
áreas em que o programa é gravado, a fim de levantar
pistas para descobrir quem é o vencedor. O fenômeno não
é novo: Jenkins cita o caso de Twin Peaks, que, nos primórdios
da internet, conseguiu reunir 20 mil fãs. Ao tentar resolver
juntos o mistério de quem matou Laura Palmer, os freqüentadores
de fóruns passaram a considerar a série de David Lynch
fácil demais, versus o resto do público, que aos poucos
abandonava o programa por considerá-lo profundamente enigmático.
Links
www.nbc.com/heroes/
Site oficial de Heroes na NBC. É onde estão as graphic
novels da série, que funcionam como extras do episódio.
www.primatechpaper.com
É o ponto de partida do ARG.
heroesarg.blogspot.com
Bom blog para acompanhar o ARG.
heroeswiki.com
A Wikipedia de Heroes.
Eduardo
Nasi é jornalista, resenhista e se sente um verdadeiro herói
quando consegue mandar um texto para nos ajudar com o site.