À procura do medo


Continuando nosso réquiem a Alex Toth, resgatamos uma idéia antiga de falar sobre o gênero horror. Vale lembrar que além dos trabalhos animados, Toth produziu excelentes quadrinhos e mostrou porque era chamado de mestre do branco-e-preto com o seu trabalho em histórias de horror.

Mas porque esse gênero nos fascina tanto? Sentir medo não é exatamente o sentimento mais agradável. Muitas pessoas têm verdadeiro asco a vísceras e sangue. Monstros são muito mais freqüentes nos nossos pesadelos, então porque continuar com essas histórias? Olhando os lançamentos recentes, podemos observar 30 dias de Noite, Criaturas da Escuridão, Os Mortos-Vivos, entre outros. Cada um no seu estilo particular, mas todos de grande qualidade, tanto em arte quando em roteiro.

Um desses que merece destaque é Os Mortos-Vivos. O roterista, Kirkman, é fã declarado dos filmes de horror. Assim ele resolveu trabalhar com todos os conceitos principais do gênero, inclusive alguns que há muito viraram clichês por causa dos filmes B, e mostrar que esse tipo de história pode ser levado para qualquer caminho que o autor quiser. Basta lembrar que os filmes de zumbis nunca foram tão populares quanto os de vampiros, fantasmas ou outros monstros.

Kirkman, opta, entre outras coisas, por inserir em seu trabalho uma forte crítica social. O que não é novidade no gênero. Uma pedra fundamental das obras de horror ficção científica, Frankenstein, é também uma reflexão sobre a pretensão do homem de brincar de Deus, manipulando a natureza através do mau uso do conhecimento.

Nos quadrinhos, tanto nos EUA quanto no Brasil, os quadrinhos de horror foram, antes de qualquer outro gênero, a maior manifestação de contra-cultura. Antes de qualquer tendência underground, as revistas de horror eram as únicas que ousavam fugir de uma visão conservadora dos quadrinhos, que pregava que as revistas deveriam trazer temas “edificantes” e “saudáveis”.

Com tramas sem nenhum compromisso com a moral conservadora, muitos assuntos e comportamentos “assustadores” foram parar nas páginas dos gibis. Veja o exemplo da editora EC Comics, alvo maior da caça às bruxas entre os quadrinhos norte-americanos, que em suas revistas mais populares apresentava histórias de assassinatos e sobre-naturais envolvendo donas de casa, pais de família, estudantes, funcionários de supermercado, taxistas, etc.

A arte por sua vez, chocava justamente por mostrar a maldade existente em personagens tão comuns, com os quais o leitor se identifica, sem dúvida alguma. Nada mais vertiginoso que o contraste entre um ambiente cotidiano bem iluminado e a revelação da ameaça que espreita nas sombras logo no quadrinho seguinte.

Infelizmente, a função “pedagógica” dos quadrinhos sempre teve um valor muito forte em praticamente todos os países e os quadrinhos de horror foram combatidos por sua postura subversiva. Ainda hoje não existe uma postura crítica do público em geral para aceitar este material como algum tipo de produção cultural digna da nossa atenção. Ironicamente, o cinema continua despejando dezenas de filmes por ano que nem chegam perto dos verdadeiros clássicos do horror e só servem para gerar lucro para as produtoras.

 

 

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