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Surgimento do formato atual

por Wally Silva


Embora a forma do quadrinho e da charge estivesse presente mesmo em obras muito anteriores à revolução da imprensa, podemos dizer que seu consumo era semelhante à arte da Renascença, destinada aos nobres que seriam os detentores da cultura. O que quero dizer com isso? Transportemos essa lógica para o século XIX, em que temos a burguesia na posição dos nobres do Renascimento e também os artistas e intelectuais profissionais que, conforme cita Mario Feijó*, eram aqueles que conseguiam ser patrocinados por parentes ou amigos. Essas pessoas que apoiavam financeiramente a arte eram como mecenas renascentistas. Estes últimos, ao apoiarem financeiramente a produção artística, se tornavam praticamente os donos da arte em questão.

A guerra dos jornais

Os quadrinhos como cultura de massa surgem graças à disputa entre dois grandes empresários da imprensa de Nova York: William R. Hearst, dono do Morning Jornal, e Joseph Pullitzer, do New York World. Os dois travaram uma guerra em busca de anunciantes. No inicio da imprensa escrita assim como hoje, o grande lucro dos jornais era originário das empresas que obviamente anunciavam nos jornais de maior público.

Na guerra pelos leitores e anunciantes, meios como o uso de ilustrações e charges, amplamente incentivado por Hearst, e páginas coloridas, uma inovação alcançada por Pulitzer em 1893,e também os suplementos dominicais constituíram um grande campo para que dezenas de artistas gráficos apresentassem e desenvolvessem um tipo de mídia atraente e de leve leitura que atingiria e agradaria uma grande quantidade de leitores.

Podemos considerar um grande marco para a história dos quadrinhos quando por volta de 1895 o New York World de Pullitzer passa a publicar em uma página de tablóide as caricaturas feitas por Richard Outcoult no quadro Down Hogan's Alley. O quadro semanal retratava situações humorísticas que tinham como pano de fundo os cortiços de Nova York e seus moradores. Outcoult foi responsável também por uma inovação estética que teve grande importância para os quadrinhos como conhecemos hoje: Os textos de Down Hogan's Alley não eram destacados das imagens como o dos artistas da época. As mensagens apareciam inseridas na ilustração na forma de cartazes nas paredes ou placas e na roupa de um dos principais personagens. Um garoto de feições orientais que aos poucos começou a expressar sua personalidade através de frases em seu "camisolão".

O garoto oriental passou a ganhar maior destaque e quando em 1896 o jornal de Pullitzer conseguiu imprimir a cor amarela em seus suplementos, algo que até aquele momento não haviam conseguido por motivos técnicos, a roupa do garoto ganhou uma cor e se tornou a principal atração do jornal - foi batizado como The Yellow Kid, ou em português, O Garoto Amarelo.

Não devemos esquecer que com o sucesso do menino amarelo a batalha comercial entre Pulitzer e Hearst apenas se torna mais acirrada. Ainda em 1895 Hearst conseguiu atrair para seu jornal Richard Outcoult o que provocou uma grande queda no número de leitores do New York World. Além do Menino Amarelo o jornal de Hearst começou a publicar um novo modelo de quadrinho, o titulo The Katzenjammer Kids, que ficou conhecido no Brasil como Os Sobrinhos do Capitão.

Quando Rudolph Dirks, em 1897, apresentou Os Sobrinhos do Capitão ao dono do Morning Journal ele estava naquele momento consolidado o formato dos quadrinhos tal como conhecemos hoje. Baseado em uma idéia que fora usada uma única vez por Outcoult, Dirks usara quadros em seqüência juntamente com balões saindo da boca dos personagens. A principio, tal como acontecera com o Menino Amarelo de Outcoult, a idéia não foi bem recebida, porém diante da insistência de Dirks logo o formato usado para narrar as travessuras cômicas dos garotos Hans e Fritz que viviam a atormentavam a vida de seu pai adotivo, o capitão, não só foi aceito como cunhou até o termo "comics-strip" (tiras cômicas) ou simplesmente comics , termo usado para nomear os quadrinhos nos Estados Unidos.

Antes de terminar esse artigo cabe uma observação. É inegável o destaque do Menino Amarelo na história dos quadrinhos, mas o personagem não foi o primeiro a surgir nesse formato. O fato é que ele surgiu como uma explosão em um país conhecido pelo capitalismo e suas jogadas de marketing. Por isso muitos consideram “The yellow kid” como a primeira história em quadrinhos e desconhecem trabalhos que foram tão importantes quanto o de Richard Outcoult. Mas então: Quem veio antes de Outcoult e o que ele fez?

(continua)


* Mario Feijó escreveu o livro “Quadrinhos em ação” (Ed. Moderna). É um ótimo livro que apresenta uma retrospectiva dos quadrinhos e sua influencia na sociedade no período de 1895 a 1995. Indico esse livro não somente a professores mas também aqueles que querem ver nos quadrinhos mais que diversão.

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Esse texto faz parte do nosso Ciclo Científico, com a proposta de divulgar a produção cietífica sobre quadrinhos em seus mais diversos aspectos. Se você também é pesquisador, mande seu texto para nós.

 


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