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OS INCOMPLETOS

Dia desses, estava olhando de longe as lombadas de alguns álbuns da minha coleção e fiquei pensando: porque alguns gibis não conseguem emplacar em território nacional de maneira alguma? Aí resolvi escrever este texto, lembrando de alguns títulos que apesar de longevos na sua terra natal, aqui no Brasil mal conseguem se manter por alguns números.

EDITORAS “MENORES”

Vamos começar por um dos que eu sempre sonhei em ver lançados completos por aqui: Concreto de Paul Chadwick. Lançado originalmente pela editora americana Dark Horse, teve uma primeira tentativa de publicação no Brasil por uma editora pequena fundada por um grupo de cariocas, dentre eles, alguns conhecidos por Roberto Adler, Cláudio Besserman, Cláudio Manoel Pimentel e Hélio Couto, que anos mais tarde ficariam famosos como Beto Silva, Bussunda, Cláudio Manuel e Helio de La Pena através do programa Casseta & Planeta Urgente!. A editora tinha o singelo nome de Toviassú Produções Artísticas Ltda., sendo que Toviassú é abreviação para “todo viado é surdo”.Típico dos caras.

Infelizmente a empreitada não surtiu efeito e tivemos apenas três edições do Concreto lançadas. Em compensação fomos brindados com a irreverente, irônica e pornográfica Black Kiss, do genial Howard Chaykin. Vale a pena cavoucar em algum sebo por horas procurando por ela. A editora Best News também reacendeu minhas esperanças, mas lançaram apenas a reedição do primeiro número. Muitos anos depois a Editora Devir anunciou o lançamento de um encadernado com algumas histórias do personagem. Oba! Fiquei contando os dias para o lançamento do livro e quando ele chegou reli as três primeiras histórias que já conhecia e ainda pude ler a quarta e última sobre a origem de Concreto. Fiquei empolgado pensando que a Devir lançaria outros volumes com o restante da história, mas até a presente data, nada...apesar do grande número de edições inéditas no Brasil.

Outro que chegou recentemente à centésima edição nos Estados Unidos foi Usagi Yojimbo, o Coelho Guarda-Costas de Stan Sakai. Como se fosse um Lobo Solitário antropomórfico, este sisudo coelho samurai teve três álbuns lançados no Brasil pela Via Lettera e depois também foi para o limbo. Talvez porque negociar com a Dark Horse deve ser complicado, como fiquei sabendo outro dia através do site da Mythos, que está lutando para manter Conan nas bancas, mas esbarra na cobrança dos royalties e em algumas imposições da editora do cavalo preto. Quem diria que Conan, que era o caro chefe da Abril, estaria nessa situação calamitosa, mas essa é outra história. Pode ser também que os álbuns tenham vendido pouco. O que sei é que gostaria muito de continuar lendo a saga do parente do Pernalonga.

Como citei Howard Chaykin no penúltimo parágrafo, gostaria que alguma alma caridosa lançasse de forma completa e na ordem correta (outro grande problema aqui no Brasil) a sua obra-máxima, American Flagg, que também foi lançada pela Cedibra e Abril, mas de forma mutilada.

Lembrando outros lançamentos das chamadas independentes que também são boas, mas que não tiveram sucesso no Brasil, posso citar Balas Perdidas de David Lapham, com dois encadernados pela Via Lettera; Ódio de Peter Bagge com um encadernado também pela Via Lettera e Miracleman com 4 edições com tamanhos, papéis, periodicidade e impressão diferentes (tenho um número aqui comigo que até hoje solta tinta) da Editora Tannos. No caso de Miracleman é provável que só veremos esta saga completa aqui no Brasil quando a batalha judicial entre Neil Gaiman, bancado pela Marvel, e Todd McFarlane pelos direitos do personagem for concluída, ou seja, daqui a uns 40 anos, ou até quando alguém desistir, ou se chegarem a um acordo, que quer dizer Toddinho gritando “Show me the money!

VERTIGO

No caso da Vertigo temos muitos exemplos de títulos excelentes que ficaram no limbo pra nunca mais voltar. Um dos que eu sempre gostei foi Sandman – Mistery Theatre, que contava as aventuras do Sandman da Era de Ouro, Wesley Dodds. Durou 75 edições mensais nos Estados Unidos mais dois especiais. As histórias – pelo menos as que foram publicadas aqui – eram publicadas em arcos de 4 partes cada uma. A Editora Abril publicou três sagas que correspondiam às edições 1 a 12 do original, na finada revista .

A editora Metal Pesado/Fractal/Tudo em Quadrinhos/ Atitude (que sofria de uma terrível crise de personalidade) lançou em formato de minissérie mais três sagas correspondentes às edições 13 a 24, além dos dois especiais mencionados acima, sendo um deles o que mostrava o encontro de Wesley Doods com o Sandman dos Perpétuos, de Neil Gaiman. Nunca mais ouvimos falar ou sequer sonhamos com Sandman – Mistery Theatre.

Hellblazer é outro título que tem mais furos nos lançamentos feitos no Brasil que um gangster da Chicago de 1930. A Editora Abril publicou as seis primeiras edições escritas por Jamie Delano e depois quando lançou a revista Vertigo, partiu pra fase escrita por Garth Ennis, iniciando com a edição 41 e depois publicando o que lhe dava na telha. Depois a editora Metal Pesado/Fractal/TEQ/Atitude começou a preencher alguns buracos deixados pela Abril, mas acabou abrindo outros.

A Brainstore assumiu então de onde a finada MP/F/TEQ/A parou, mas logo em seguida abandonou a idéia e pulou para a edição 129 que mostrava o retorno de Garth Ennis ao título com a saga em cinco partes Filho do Homem. Seria mais um recomeço para John Constantine, se a editora não fechasse e deixasse em aberto a saga seguinte, “Assombrado”, escrita por Warren Ellis.

Se você não se perdeu ainda, acompanhe, pois dessa vez foi a Editora Devir que assumiu a bronca, porém começou lançando um encadernado que mostrava a fase do Mike Carey, anos-luz a frente da última incompleta de Warren Ellis e de uma das mais bem comentadas fases dos últimos anos, escrita por Brian Azzarello. Agora que a Pixel Media assumiu as publicações da Vertigo no Brasil vamos torcer para que saia algo do tipo “Hellblazer: agora completo, em ordem cronológica correta como você sempre quis!”.

Outros que também sofrem do Mal da Continuidade e da Doença da Editora Quebrada são: Monstro do Pântano, os primeiros 20 números A.A.M. (Antes de Alan Moore) e os outros trocentos D.A.M. (Depois de Alan Moore), Patrulha do Destino e Os Invisíveis de Grant Morrison, Preacher (PELAMORDEDEUSPIXELPUBLICAESSAP@#$%COMPLETA) de Garth Ennis e Steve Dillon, Transmetropolitan de Warren Ellis e Darick Robertson e por fim Os Livros da Magia de J.K. Rowl...ops...John Ney Rieber.

DC

Bom, pra começar, a DC aqui no Brasil sempre foi deixada em segundo plano, vide o último imbróglio envolvendo a Panini e a Pixel. Mesmo assim muita coisa boa foi lançada, principalmente pela Panini, que vem resgatando antigos materiais muito bons na sua coleção Grandes Clássicos DC. Embora todo um trabalho de resgate tenha sido feito, ainda existem dois títulos que eu adoraria terminar de ler: Hitman e Starman. Aliás, os dois tiveram uma similaridade muito grande nas suas jornadas pelo Brasil. Tiveram cinco edições lançadas pela Editora Magnum, depois migraram para a Metal Pesado/Fractal/TEQ/Atitude e por fim terminaram seus dias na Brainstore. Hitman teve 60 e Starman 80 edições mensais lançadas na terra do Tio Sam e 34 e 16, respectivamente, aqui na terra do Quatro Dedos, ou seja, tem muita água pra rolar por debaixo da ponte.

MARVEL

A Marvel sempre foi muito bem publicada aqui no Brasil, tem muito material, até mais do que a gente gostaria, principalmente da galera do Xavier. Antigamente, quando eu ainda era alucinado e tinha 6.000 e tantos gibis – hoje tenho apenas 1.500, mas é só filé – pra todo lugar que eu olhava tinha um X e eu nem sou fã da Xuxa (tenho 1,75m). Porém dois títulos estão sempre na minha listinha dos incompletos: Esquadrão Supremo e Capitão Marvel.

O primeiro teve a maioria dos seus crossovers com os Vingadores publicados por aqui e algumas edições da sua segunda maxissérie publicados na antiga revista Marvel Force, da Editora Globo, mas não de uma forma realmente ordenada. Eu imaginei que com a chegada da série Poder Supremo, atual Esquadrão Supremo, na revista Marvel Max, a Panini publicaria os encadernados, mas me enganei. Só um recado: não publiquem as edições impressas com as cinzas do Mark Gruenwald misturadas à tinta, porque eu sou meio cismado com essas coisas, vai que o cara aparece pra ver se eu tô cuidando direito da revista...

Já o Capitão Marvel foi uma das primeiras broxadas que eu tive com a Panini. O Capitão Marvel era a única coisa que me fazia comprar a antiga revista do Quarteto Fantástico e depois a do Hulk. Eu fiquei tão decepcionado com a entrada da série no limbo que além de parar de comprar a revista com as histórias do Bruce Banner, me desfiz das que eu já tinha e das antigas do Quarteto Fantástico. Como diria a música dos Titãs “A gente não quer só dinheiro, a gente quer inteiro e não pela metade.”

AQUELES QUE ENCONTRARAM A SALVAÇÃO

Para encerrar, vamos falar de coisas boas, as revistas que aparentemente nunca iam ser publicadas por aqui, mas que por um golpe do destino ou dos acordos de royalties bem feitos, apareceram para alegria de milhares de fãs. O primeiro foi Lobo Solitário. Quase não acreditei quando a Panini avisou que ia lançar a obra-prima de Kazuo Koike e Goseki Kojima. Quase não estou acreditando que em Abril de 2007 nas regiões privilegiadas e em Agosto de 2007 nas regiões menos favorecidas, da qual a minha querida Franca faz parte, estaremos lendo integralmente e sem cortes a saga de Itto Ogami e Daigoro.

Outro mangá que a Panini também resgatou e terá dez edições é Crying Freeman. que eu ainda não tive o prazer de ler – pela Panini porque eu li as edições lançadas pela Nova Sampa – porque faço parte da região dos pobres diabos (perceberam como isso me incomoda?) e a revista ainda não chegou aqui. Se eles falarem que vão lançar Akira, aí eu vou lá na redação e dou um beijo na Elza Keiko (caso o marido dela não seja um samurai errante empurrando um carrinho de bebê).

Estranhos no Paraíso, apesar de ter sido lançado até agora por quatro editoras diferentes, incluindo a atual HQM, pelo menos tem sido lançada em ordem cronológica e o resgate da HQM foi mais que bem-vindo.

Calvin e Haroldo também merecem uma menção pelo recente contrato fechado pela Conrad que lhe dá exclusividade no lançamento aqui no Brasil e que promete a saga completa do pestinha em álbuns semestrais.

Temos ainda Sin City completa aqui no Brasil e a Devir merece os nossos parabéns por ter conseguido essa façanha. Lembrando que a Pandora também havia lançado quase tudo, mas de uma forma desleixada.

Pra finalizar, gostaria de deixar claro que não tenho base, nem know how para criticar nenhuma das editoras aqui mencionadas. Aliás, todas, mesmo aquelas que não conseguiram dar andamento a algumas séries, devem ser respeitadas por tentarem publicar quadrinhos no Brasil. Existe uma queda nas vendas de quadrinhos em todo o mundo, inclusive no Japão, e aqui no Brasil isso se agrava com a morte da classe média no governo FHC e seu enterro e missa de 7º dia no governo Lula. As editoras nacionais têm que sobreviver e a partir do momento em que não vendem, cancelam os títulos, pois além da produção, impressão e distribuição, ainda existem os pesados royalties cobrados pelas editoras donas dos direitos que oneram sobremaneira o custo das publicações.

Estes dois fatores, economia e custos, geraram nos últimos anos uma migração da maioria dos gibis para as livrarias e lojas especializadas com álbuns mais luxuosos e mais caros, que a galera que compra em banca dificilmente tem acesso e além disso apenas uma multinacional como a Panini tem fôlego para agüentar a barra que é colocar em banca todos os meses dezenas de títulos. Mas esse assunto fica pra outra hora.

 

Concorda? Discorda? Lembrou de algum outro título que parou de ser publicado e que te fez freqüentar o analista por meses? Escreva para amaliojr@zipmail.com.br.

Amalio Damas Jr. tem 22 anos só como leitor de quadrinhos, fica possesso quando uma editora pula uma história e ameaça nunca mais ler quadrinhos na vida! Essa ameaça dura apenas um minuto.

   
 
 
 
 
 
 
 
 
 


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