Justiça – Resgatando a fé nos heróis da DC
O Universo DC vem passando por tempos sombrios desde a minissérie Crise de Identidade, publicada no Brasil em 2005. De repente, percebemos que os heróis daquele mundo não são infalíveis e que às vezes têm que tomar atitudes de que não se orgulham por um bem maior. Há os leitores que gostaram e os que rejeitam esta abordagem da vida sob máscaras na DC, mas, ainda que temporária, é uma perspectiva diferente do aspecto mítico que esses heróis sempre tiveram, inclusive como ponto de diferenciação entre eles e a Marvel.
Nesse contexto, a maxissérie Justiça, publicada em 12 edições até fevereiro passado pela Panini Comics, parece surgir como uma alternativa à essa interpretação de personagens clássicos do gênero de super-heróis. Existem certos elementos na trama, muitas vezes sutis, que dialogam com muitos acontecimentos recentes do Universo DC convencional.
O ponto de partida de Justiça é reunir a Liga da Justiça em sua formação mais clássica, com os principais heróis da DC: Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Flash (Barry Allen), Lanterna-Verde (Hal Jordan), Aquaman e o Caçador de Marte. Esta é também a formação que aparece no antigo desenho dos Superamigos. Ou seja, à primeira vista, trata-se de mais uma celebração da Era de Prata dos Quadrinhos, uma viagem nostálgica a uma outra época em que os quadrinhos eram diferentes. Mas Justiça é mais do que isso.
O enredo da série não é uma cópia dos enredos da Era de Prata e guarda muitas semelhanças com histórias recentes da DC e da Marvel, até mesmo na sua linha Ultimate. A própria aliança entre os vilões destes diversos heróis se dá de uma maneira diferente do que era mostrado nas revistas das décadas de 50, 60 e 70. Dispostos a aniquilar definitivamente seus adversários, os vilões unem-se em torno de um sonho compartilhado por eles, em que os super-humanos que se declararam protetores da humanidade falharam diante da catástrofe final e o mundo, que confiava plenamente nestes novos deuses, desaparece.
O questionamento que surge deste sonho é o mesmo que Mark Millar e Brian Hitch abordaram em Os Supremos: a influência dos super-seres na vida da humanidade. As primeiras edições, dando ênfase no lado de Lex Luthor, Brainiac e companhia, chegam a inserir fortes dúvidas no leitor, como o fato de confiarmos completamente nosso destino nas mãos de alienígenas, monarcas de sociedades míticas perdidas, patrulheiros espaciais e aberrações da Era Atômica. O homem comum aparentemente abriu mão de seu papel na história do Universo DC.
Quando a Sociedade de Vilões decide curar todas as moléstias do mundo, da fome ao câncer, parece que realmente os papéis se inverteram e os heróis estão na berlinda, sendo questionados por que nunca tentaram isso antes, ao invés de gastar seu tempo prendendo criminosos que a polícia poderia deter.
Mais uma vez, o que Alex Ross nos oferece é uma reconstrução da figura do super-herói. Desta vez, o artista está na condição de colaborador tanto no argumento, com Jim Krueger, quanto na arte, pintando os desenhos de Doug Braithwaite.
As primeiras edições, inclusive, servem para apresentar ao leitor a visão destes autores sobre alguns heróis da Liga que não são tão bem definidos quanto Superman ou Batman. É o caso do Aquaman, logo na primeira edição, seguido pelo Caçador de Marte e a Mulher-Maravilha. Até mesmo o Lanterna Verde Hal Jordan, que na continuidade normal da DC tinha acabado de voltar dos mortos, recebeu uma atenção especial para ressaltar as características que Ross e Krueger julgavam essenciais no personagem.
Ao final da primeira onda de ataque da Sociedade de Vilões, a condição dos heróis é realmente assustadora. Talvez a imagem mais expressiva disso seja a da Mulher-Maravilha com o rosto ferido pela Mulher-Leopardo. As feridas não cicatrizam e deformam a face de Diana, que vai se tornando hedionda na medida em que está morrendo. Nesta condição é justamente ela que, na edição 6, constata que tudo não foi apenas um simples ataque à Liga da Justiça, mas algo mudou na maneira como as pessoas os olham.
Para auxiliar os heróis atingidos, entra em cena um grupo de membros-reserva de fazer inveja em qualquer outra super-equipe dos quadrinhos: Capitão Marvel, Gavião Negro, Mulher-Gavião e Eléktron. Dessa maneira os autores começam a revelar a verdadeira grandeza da Liga da Justiça e restitui-la à sua condição original.
Com esse time de apoio fica difícil não pensar na série de desenhos animados Liga da Jusiça Sem Limites, em que a equipe é uma organização gigantesca de defesa da Terra, com centenas de heróis como membros.
O próximo confronto trás mais dois elementos comuns de séries recentes: o ataque a entes queridos dos heróis e confronto de heróis entre si. Estes foram temas explorados em Crise de Identidade e Guerra Civil, respectivamente. Contudo, aqui, ambos estão combinados em um mesmo plano. Através dos controladores mentais de Brainiac, os vilões dominam um grupo de outros heróis, principalmente os Novos Titãs, e os fazem enfrentar a Liga.
Ainda com relação a Crise de Identidade, Justiça parece reagir diretamente ao tratamento dado a duas coadjuvantes nesta minissérie. Em Crise, Jean Loring, ex-esposa de Ray Palmer, o Eléktron, assassinou Sue Dibny, esposa do Homem-Borracha, com quem formava uma espécie de “Casal 20” da DC. Em Justiça, os dois casos aparecem reunidos e lutando para superar as adversidades. Alex Ross, fã de Sue Dibny na fase da LJA do satélite, nunca escondeu seus descontentamento com o fim destas duas personagens e é de se imaginar que ele tenha aproveitar para restaurá-las nesta minissérie.
Da mesma forma, há uma cena na edição 7 que pode ser lida como uma espécie “salvação de Barry Allen”. Sob o controle de Brainiac, o Flash é forçado a correr em supervelocidade sem parar, até se consumir completamente. A cena remete claramente à saga Crise nas Infinitas Terras, de 1986, na qual o personagem morreu e deixou de aparecer na continuidade normal do Universo DC. Ross é um dos autores que faz campanha pela volta de Barry – assim como fez por Hal Jordan – e essa passagem soa como um recado dizendo que seria possível salvá-lo.
Também na edição 7 o Dr. Caulder, da Patrulha do Destino, afirma a respeito de Aquaman: “Arthur é mesmo um homem com um potencial inexplorado extraordinário”. A declaração se aplica a tudo que foi publicado sobre o personagem até hoje. Aquaman nunca teve o mesmo carisma que os outros grandes da DC, e até o mesmo o Caçador de Marte conseguiu superá-lo em popularidade nos últimos – e olha que, como lembrou o próprio Alex Ross na época do lançamento de Reino do Amanhã, o marciano nem fazia parte do elenco de Superamigos.
Em Justiça, mais do que evocar o clichê de que não existem personagens ruins, apenas mal-aproveitados, os autores praticamente reinventam o personagem, dando uma nova importância aos poderes físicos do herói. As capacidades do corpo de Aquaman chegam a atrair a atenção de Brainiac, que busca criar um novo corpo para abrigar sua consciência. Até hoje, o único alvo deste plano do vilão havia sido o Superman, de modo que assim Aquaman se equipara ao mais poderoso indivíduo do Universo DC.
Como complemento desta reinvenção de Aquaman, sua força moral também se realça no final, quando ele finalmente derrota o Arraia Negra como um verdadeiro rei: “Eu vivo sob o mar. Governo um reino cercado por pressões muito além da capacidade humana de medi-las. Que chance você já teve contra mim?”.
A batalha final é para salvar a própria Liga, libertar os heróis dominados por Brainiac e fazer a equipe se reerguer. Diversos heróis considerados secundários brilham em meio ao plano de contra-ataque. Arqueiro-Verde, Canário Negro, Eléktron, o Lanterna Verde substituto John Stewart, Homem-Borracha e os Homens-Metálicos estrelam momentos marcantes que os definem como grandes heróis, assim como pretende a série.
Seguindo essa mesma lógica, a conclusão de Justiça celebra o maior herói da DC: Superman. Na cena final, vemos um vislumbre da Legião dos Super-Heróis, no século XXXI, observando Metrópolis nos tempos do Superman. Da forma parecida a Reino do Amanhã, o Homem-de-Aço volta a ser Clark Kent, não se disfarçando, mas fazendo parte da humanidade. Pelas palavras de Batman, que narra este final, vemos como a relação entre os heróis e a humanidade é recíproca. A Liga da Justiça protege o mundo porque todos eles são indivíduos deslocados, órfãos, exilados ou transformados, que não têm pares e que foram acolhidos pela humanidade de uma forma que Luthor e a Sociedade de Vilões não pode compreender.
A Liga da Justiça representa a capacidade do ser humano superar as adversidades, por maiores que sejam. A visão da Legião, como amostra de uma humanidade fantástica, mostra como Superman e seus amigos podem ser o primeiro passo dessa nova humanidade, exatamente como se espera dos mitos.
Muito do conteúdo de Justiça tem um forte apelo metalingüístico, referindo-se a questões correntes dos quadrinhos. Ainda que seja uma história de leitura prazerosa e até despretensiosa, é uma excelente amostra de como os quadrinhos estão sempre buscando construi uma identidade para si mesmos, encontrando formas de representar idéias e valores que circulam por aí o tempo todo. Até mesmo outras HQs podem ser lidas com uma outra perspectiva oferecida por esta série e isso é um dos grandes méritos desta grade saga.
(11/05/08)