O retorno de Hal Jordan
Há muito tempo a gente ouve falar que o Hal Jordan iria voltar. Isso sempre pareceu um pouco estranho por vários
motivos. O personagem teve um final digno. Ele é uma daquelas
relíquias da Era de Prata que estava onde
deveria, no passado. Como Espectro sempre foi um
ótimo coadjuvante. Além de que o Kyle, que está
como Lanterna Verde há mais de dez anos, é
um personagem bem legal. Com tudo isso, porque trazer de volta o personagem?
Para justificar isso é mais fácil encontrar motivos
empresariais - leia-se grandes tiragens - do que de histórias
em si.
Olhando pelo lado do dinheiro, sabendo que a DC como
qualquer empresa tem que se preocupar com o lucro, o retorno de Jordan
é muito interessante. Como já se percebeu, mortes e
ressurreições sempre atraem aquele público que
não acompanha as revistas mensalmente mas lê os "grandes"
eventos. Além desse público flutuante, existem as eternas
"viúvas" do Hal Jordan que pararam de ler quando
ele morreu, não deram uma chance para conhecer melhor o Kyle
e viviam reclamando que queriam o retorno triunfal do "verdadeiro"
Lanterna Verde.
Vale lembrar que toda trajetória de declínio
de Hal Jordan esteve ligada a estes eventos bombásticos que
foram verdadeiras bombas. A começar pela destruição
de Coast City, que foi uma parte do plano do Superciborgue e de Mongul
para dominar a terra durante O Retorno do Super-Homem. Depois
vimos Crepúsculo Esmeralda, que aproveitou a deixa
para causar a grande virada na vida de Jordan (como foi regra nos
anos 90) e enlouquecê-lo. Ao menos isso foi feito com dignidade
e estilo, gerando potencial para o futuro do personagem como um herói
caído cheio de carisma.
O que veio depois foi só baboseira. Jordan
foi o vilão por trás da crise temporal em Zero Hora,
manchando sua reputação definitivamente para muitos,
como Batman. Após vários encontros
confusos com seu sucessor Kyle Rayner, Jordan, atendendo
pelo nome de Parallax, tentou se redimir na não
menos sofrível Noite Final. Coincidentemente, esta
série foi outra péssima lembrança para os fãs
do Superman, pois como consequência do apagamento do Sol o herói
se tornou o Super- Elétrico que todos tentam esquecer. Somente
após ser “selecionado” para o papel de Espectro,
Jordan se tornou um coadjuvante interessante, justamente porque estava
em segundo plano nas tramas, sem levantar questionamentos para os
roteiristas.
Mas o verdadeiro problema de todo esse retorno, como
o de qualquer ressurreição, é explicar como tudo
é possível. É interessante que nos quadrinhos
tudo é aceitável quando se trata da essência dos
personagens: anéis mágicos, super poderes, tecnologias
inimagináveis. Contudo, quando partimos para o dia-a-dia, o
leitor quer explicações complexas e que sejam totalmente
plausíveis no mundo real.
Então como justificar a volta de Hal Jordan,
que apesar de ter morrido salvando o universo, em seu último
período foi um assassino cruel, ganancioso e tão ou
mais perigoso que muitos vilões? Não só isso,
como justificar que ele não só volte perdoado, mas puro,
brilhante, irretocável, um verdadeiro santo? Simples. Não
era ele. Ele foi possuído.
Aliás, vale dizer que Hal mostrou uma certa
propensão à coisa. Depois de ter sido possuído
pela tal entidade Parallax, que realmente cometeu todos os pecados
dele, inclusive naquela vez quando ele tinha cinco anos e roubou o
pirulito de um amiguinho, ele virou hospeiro do Espectro.
Reclamações à parte, temos que
dizer que Geoff Johns sabe escrever muito bem uma
história. Ele criou todas essas explicações forçadas
e criou uma minissérie de cortar o coração. Sozinho,
em seis edições, ele não só criou uma
nova mitologia para os Lanternas Verde, mas também unificou
tudo que já foi dito, criando uma história coesa e funcional.
É forçado? Sim, é forçado, mas no plano
geral quem se importa. Ou você vai dizer que não ficou
empolgado quando viu o Hal vencendo o Sinestro.
Na verdade essa é a questão. Muito
se fala do novo título do Lanterna que tem saído nos
EUA. Dizem que é um material excelente, imperdível.
Mas não é por causa do Hal Jordan. É por causa
de Johns. Veja por exemplo o Flash dele. Ele não precisou
trazer de volta o Barry Allen para ter uma boa história,
ele a fez com o personagem que tinha nas mãos.
O sucesso, tanto da minissérie quanto do novo
título mensal, não está no personagem e sim em
um roteirista capaz de quase tudo. Mais uma prova disso é que
ele mostrou nessa história, que joga Kyle para o segundo plano
e a um passo do limbo, que ele é um ótimo personagem.
Não só isso, se você ler a história deixando
de lado o fetiche por Hal verá que o grande herói é
Kyle.
Ele faz o possível e o impossível para
trazer a vida uma pessoa que ele nunca conheceu. Alguém que
ele só tem motivos para não gostar, já que desde
que virou herói sempre foi questionado se estava ou não
à altura do legado de Jordan. Johns nos mostra que ele não
só está à altura, como superou Jordan.
Kyle foi um Laterna Verde solitário, sem o
apoio da Tropa e sem alguém que o guiasse, o treinasse. Ele
passou por vários traumas durante sua carreira e quando achou
que tinha provado tudo ele tem que resgatar Hal e trazê-lo de
volta à vida. Não só isso, ele tem que resistir
ao Parallax, a criatura que dominou até mesmo Jordan. A Kyle,
nessa minissérie, sobra apanhar muito, de todos os lados e,
ainda assim, resistir. Ele encerra a série como um grande herói,
o próprio Jordan, que retorna apenas no final para acabar o
serviço, reconhece isso.
No geral, é obvio que Lanterna Verde:
O Renascimento é uma é ótima história.
Só que não por trazer Hal Jordan de volta, mas por ser
bem escrita apesar de todas as adversidades.
Leia as resenhas da série do UHQ:
Lanterna
Verde: O Renascimento 1; Lanterna
Verde: O Renascimento 2
e Lanterna
Verde: O Renascimento
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