A
última parte da mini-série Liga da Justiça
Elite já chegou à maioria das bancas do país
e deixou muitos leitores impressionados com a retomada que Joe
Kelly fez do mote de Action Comics 775, onde
o Superman enfrentou uma representação das novas
tendências dos quadrinhos nos anos 90.
O
artigo do roteirista publicado na segunda edição
é uma excelente amostra de como os quadrinhos de super-heróis
podem passar por descontruções como as começadas
por Alan Moore em Watchmen e ainda assim
continuar existindo. Principalmente quando as experiências
neste sentido criaram uma série de novos clichês
que foram apenas repetidos na década passada.
Pelas
palavras de Kelly neste texto, é possível ver como
ele tem uma postura crítica e ponderada sobre estes quadrinhos,
conhecidos como o “estilo Image”. A maneira de estas
histórias mostrarem o cruzamento dos quadrinhos com o “mundo
real” é praticamente invertida em JLA Elite. Assim
o roteirista trata de resolver uma incoerência entre estes
dois elementos que mataria o gênero de super-heróis.
Na
Image, personagens que não são super-heróis
são postos para protagonizar uma história de super-heróis,
em geral com todos os clichês do gênero. Aparentemente,
bastava que o personagem fosse mal-encarado, usasse umas roupas
transadas, falasse palavrão, fizesse sexo na frente dos
leitores e espancasse um pouco mais seus adversários –
só um pouco além da violência que já
era exagerada nos gibis. Nisso nasce uma contradição
enorme.
Por
isso, com a maioria dos autores sendo apenas medianos, era difícil
aceitar estas histórias como parte do gênero super-heróis
e ainda dar algum crédito a elas. Se eram boas, era porque
fugiam demais das convenções do gênero. Muitos
até hoje interpretam o depoimento de Alan Moore de que
ele teria matado os super-heróis em Watchmen como se sua
postura fosse inversamente proporcional à de Frank
Miller, que os teria salvado em Cavaleiro das Trevas.
Na verdade, ambas fizeram esta tal “descontrução”
do gênero para indicar os pontos que precisavam ser revistos
para a adequação das histórias ao novo momento
cultural em que os leitores viviam.
Atualmente
nas revistas do Superman vemos uma insinuação
de um caso com Lana Lang depois de Clark e Lois estarem casadas
há anos. Tudo em nome de “humanização”
do personagem e um “amadurecimento” dos quadrinhos.
Como se Clark fosse um bobão por não ter pulado
a cerca até hoje, ainda mais com o “charme”
e o “caráter” que seus poderes lhe conferem.
No
entanto, esta postura era impensável em uma sociedade em
que nem mesmo os cidadãos reais se prestavam a comentar
o adultério. A concepção do personagem é
anterior a esta discussão e sua transposição
mecânica para os quadrinhos é mais um retrocesso
dessa forma de arte do que um avanço, pois não percebem
que a relação entre os fatos sociais e sua representação
pela ficção é um pouco mais sofisticada e
indireta.
Os
personagens da Elite, por sua vez, estão mais próximos
dos indivíduos comuns. Ou melhor, suas atividades cotidianas
são mostradas aos leitores, apenas na medida em que acrescentam
algo ao conflito do enredo, e isso se torna parte constitutiva
delas. Não é apenas mostrar o herói adolescente
indo ao colégio e depois massacrando uns bandidos da mesma
forma que Wolverine faria. Trata-se de definir estes personagens
como algo mais próximo de pessoas.
Essas
pessoas estão tentando melhorar o mundo como super-heróis.
Mas só por causa deste foco quase oposto ao caso anterior
é que enredos muito diferentes se constroem. “Trazer
a luz através das trevas”, segundo o Xeique. Há
muitas questões por trás deste mote que fogem ao
roteiro dos quadrinhos de super-heróis.
Justamente
por isso os melhores momentos da série estão em
diálogos entre membros da equipe, nas dependências
de seu esconderijo. É onde estes soldados são pessoas.
Outra frase marcante é a última da mini-série,
quando Vera Black responde que na Elite não há nenhum
super-herói, “Só gente boa”.
Ao
invés de sacar os super-heróis e deixar o enredo,
Kelly mantém os heróis e joga com a trama para tentar
algo diferente. Seja abordando a filosofia de trabalho do Xeique
ou o conflito moral de um assassinato em combate, lá estão
super-heróis para serem testados sem que o roteirista esteja
predisposto a ridicularizá-los ou destruí-los moralmente.
Como
ressalta Joe Kelly, esta é exatamente uma história
de super-heróis porque o que mais importa é a conduta
destes personagens e sua motivação e esforço
para causar alguma melhora no mundo. Algo bem diferente de The
Authority, que busca soluções em escala global
para os problemas “reais” e com isso cai além
daquele limite do gênero dos super-heróis. O foco
concentrado da Elite em fazer a sua parte é que a torna
uma equipe especial.
Sem
dúvida, Kelly tentou salvar os heróis com uma boa
história. Principalmente para os personagens que têm
uma vida além deste título, como Flash
e Arqueiro Verde, foi uma injeção
de criatividade que os energiza para encarar estes tempos de provação
em meio à crise. Não importa como isso termine,
esperamos que eles sigam sendo heróis.