Ultimamente muitos personagens afro-americanos do Universo Marvel ganharam maior destaque nas publicações da editora, alguns deles com papéis importantes. Por isso mesmo, estes personagens tornam-se boas referências para o debate social que envolve as ações afirmativas para com a raça negra no mundo todo.
Praticamente todos estes super-heróis afro-americanos foram criados na década de 1970, quando a mídia em geral desenvolveu um forte interesse pela diversidade étnica. Os resultados foram diversos, na música, no cinema, nos seriados de televisão, na moda e, claro, nos quadrinhos. Contudo, hoje considera-se que esta tendência era por demais pautada num exotismo tão pejorativo quanto o preconceito que rejeitava aquelas figuras.
Seguindo a moda, a Marvel apresentou o Pantera Negra, um líder tribal africano com os mesmos valores heróicos norte-americanos; Luke Cage, um herói de aluguel saídos dos guetos, marcado principalmente pelo visual exagerado dos cantores de funk, e o Falcão, parceiro de um Capitão América que buscava ser politicamente correto. Por mais bem intencionadas que fossem, essas propostas estavam limitadas pelo olhar dos criadores e editores de quadrinhos que pouco conheciam a respeito daquela cultura que pretendiam representar.
Agora, depois de um longo tempo sem destaque nas histórias da Marvel, estes mesmos personagens retornam, reinventados em seus elementos principais, e são postos no centro dos principais eventos da editora nos últimos dois anos, como Vingadores:A Queda e a Guerra Civil. Mais do que abrir “cotas” para personagens negros em suas revistas, os roteiristas da Marvel escolheram Luke Cage, Pantera Negra e a X-Man Tempestade para dar ao leitor novas perspectivas do super-heroísmo em tempos de crise como estes.
Como integrante dos Novos Vingadores, Luke Cage assumiu conscientemente o papel de modelo para a comunidade negra. O personagem demonstrou novas preocupações pelo simples de estar em maior evidência, atuando com nomes de peso como o Capitão América, Homem-de-Ferro e o Sentinela. Cage tem consciência da responsabilidade de sua condição e está sempre preocupado em agir da melhor maneira e dar o exemplo.
Além disso, deve-se lembrar que ele também acabou de se tornar pai, ao lado da ex-super-heroína e detetive particular Jessica Jones (das séries Alias e The Pulse), o que reforçou o senso de responsabilidade de Cage. Aliás, um dos motivos para que ele aceitasse o convite para participar dos Novos Vingadores foi ser uma boa referência para a filha fazendo parte dos maiores heróis da Terra.
Uma das atitudes inovadoras de Luke Cage como vingador foi organizar patrulhas da equipe em regiões com altos índices de criminalidade, inibindo a ação de criminosos “comuns” que agem diretamente contra a população. Segundo o próprio, isso foi inspirado em ações que a polícia dos EUA passou a fazer em bairros da periferia e deram bons resultado. Os Vingadores só estariam fazendo a mesma coisa numa escala maior.
O Pantera Negra também ganhou um papel proeminente nos eventos recentes do Universo Marvel. O príncipe T`Challa da nação africana de Wakanda foi reformulado em uma minissérie e depois ganhou uma nova revista própria. Nestas histórias, a posição de destaque de Wakanda foi reafirmado e seu soberano e herói passou a ser um dos grandes homens da comunidade de super-seres, ao lado de nomes como Reed Richards, Charles Xavier e Tony Stark.
Na edição especial Iluminatti, quando o Homem-de-Ferro reuniu o grupo para propor uma união de todos os super-heróis da Terra em uma única equipe de defesa contra eventos como a Guerra Kree-Skrull, o Pantera Negra imediatamente expulsou todos de seu palácio quando percebeu que as idéias de Tony Stark eram extremistas e autoritárias. Com essa narrativa retroativa, definiu-se a postura firme e autêntica do governante de Wakanda.
A nova revista do Pantera Negra tornou-se um palco para a reunião de todos os outros heróis negros da Marvel, que faziam aparições especiais agindo em áreas de maior concentração de civis afro-americanos. De certa forma, foi uma maneira de dizer por onde andavam estes heróis que não víamos há muito tempo.
A principal convidada da revista é sem dúvida a X-Man Tempestade, que acaba de se casar com o Pantera e tornar-se rainha de Wakanda. Explorando a juventude destes dois personagens, os autores mostraram um verdadeiro conto de fadas entre um jovem príncipe e uma ladra das ruas do Cairo que mais tarde seria idolatrada como deusa e heroína mutante. Mas a união de T`Challa e Ororo representa muito mais do que uma bela história de amor.
Em tempos difíceis para todos os meta-humanos, com o governo dos Estados Unidos ameaçando passar por cima da liberdade dos indivíduos para garantir a segurança de toda a população e com os mutantes sofrendo os efeitos da Dizimação que os reduziu drasticamente, uma nação com um rei com poderes místicos e uma rainha mutante pode ser a única fonte de resistência caso as coisas não saiam bem.
A cerimônia de casamento já foi suficiente para causar um cessar fogo em meio à Guerra Civil, reunindo diplomaticamente heróis das duas facções, a favor e contra o registro de meta-humanos. Sem dúvida, a força política de Wakanda nunca foi tão evidente.
Com essas tramas, a Marvel promoveu mudanças sensíveis em seu universo ficcional. Estas mudanças começam na representação de um grupo de personagens e alcançam toda política deste universo, de modo que os super-heróis negros agora têm uma voz própria na comunidade de meta-humanos e oferecem perspectivas diferentes sobre os acontecimentos que movem todas as tramas.
Esse tipo de caracterização que reconhece a diferença no modo de pensar e de agir dos personagnes, mas que não se deixa limitar pelo exotismo ou pelo determinismo da etnia, é o que podemos considerar uma representação satisfatória, não apenas em termos éticos, mas também artísticos, de uma cultura alheia.