Vingadores: Construção
e desconstrução
A
Marvel descobriu Bendis e quando menos percebeu ele tomou
conta de toda a editora e a recriou da forma que ele gostaria.
Como toda história, tudo começa com uma mulher
e com um detalhe que ninguém percebeu antes. A questão
é que dessa fez não foi um corte de cabelo ou
a mudança de um tom na cor que as pessoas esqueceram
de comentar e, sim, um imenso poder de alterar a realidade
nas mãos de uma pessoa com uma história trágica.
Wanda,
a Feiticeira Escarlate, teve uma vida muito complicada. Além
de ser filha de um poderoso super-vilão, Magneto, foi
criada junto com o seu irmão gêmeo como cigana,
sem saber suas verdadeira origens e sem entender o que exatamente
era. Depois de passar por muitas situações complicadas,
ela conseguiu encontrar seu lugar junto com os maiores heróis
da Terra: Os Vingadores.
Contudo,
isso não parou seus problemas, ela se apaixonou por
um andróide, teve um casamento complicado e um divórcio
pior ainda, além de outros acontecimentos que só
foram somando traumas em sua mente já fragilizada.
Soma-se a isso o fato dela ter um grande poder que nunca foi
exatamente definido ou completamente controlado. Mais que
uma mutante que pode alterar as probabilidades, ela tem uma
forte ligação com a magia e com as forças
elementais que regem a realidade como a conhecemos. Quando
isso saiu do controle, todos os Vingadores sofreram.
O
poder de Wanda agindo inconscientemente causou a morte de
alguns heróis, a destruição da Mansão
dos Vingadores e a separação do que sobrou do
grupo. Esse foi apenas o começo de toda a história
que Bendis tinha em mente para a Marvel.
A
partir disso, ele pode criar os Novos Vingadores reunindo
seus heróis preferidos em um grupo que provavelmente
todos pensaram que nunca iria dar certo. O primeiro arco da
história, recentemente publicado no Brasil, mostra
uma complexa conspiração que paga para o Electro
explodir uma prisão com os mais perigosos super-criminosos
vivos e libertá-los. Nesse momento, sem os Vingadores
para proteger a cidade, novos heróis que agem independentemente
têm que se levantar e fazer o que fazem melhor: lutar
até o fim.
Esse
conceito muito interessante depois foi formalizado pelo Capitão
América em uma conversa com o Homem de Ferro sobre
retomar os Vingadores. “Em um dia como nenhum outro,
grandes heróis se juntaram para combater uma ameaça
que nenhum deles poderia vencer sozinhos”. Algo interessante
que vale lembrar nesse momento é que, apesar de Stark
ter formado a equipe original, a força de vontade de
Rogers os manteve unidos. Novamente é o que acontece.
Os novos Vingadores não estavam lutando juntos, apenas
estavam lutando no mesmo local contra as mesmas pessoas. Mas,
na visão do Capitão, eles podiam ser um grupo.
Vemos um momento interessante depois disso que é ele
convidando os heróis para integrarem o grupo e, como
sempre, não se recusa um convite do Capitão.
A
escolha dos personagens parece estranha em um primeiro momento.
Basicamente é o Capitão e o Homem de Ferro,
que sempre estiveram lá e têm que continuar,
um na liderança e outro no financiamento, e o resto
são os personagens favoritos de Bendis e, é
claro, o Wolverine, que tem que estar em todos os grupos da
Marvel.
A
principal crítica que se faz em um primeiro momento
é quanto à presença do Homem-Aranha e
do Luke Cage. Ambos são heróis solitários,
mal vistos pelo público e com um histórico bem
diferente dos outros Vingadores. Contudo, durante o arco,
vemos como realmente funciona a presença deles ali.
O
Aranha é o eterno fracassado. Ele sempre acha que a
culpa é dele, que não deveria estar ali. Ele
se culpa até por ter sido o Electro, um dos "seus"
vilões, a explodir a prisão. Contudo, ele faz
um contra-ponto cômico fantástico na história.
Ele aos poucos vai aprendendo que depois de todos esses anos
ele é realmente um grande herói admirado por
todos. Ele começa a descobrir que ser um Vingador tem
suas vantagens e que, mesmo a equipe ainda sendo um pouco
desfucional, sempre vão apoia-lo, como foi visto no
desenrolar de eventos que levou a destruição
da casa da Tia May e do apartamento dos Parker, levando-os
a morar na torre Stark.
Cage
está para os Vingadores assim como o Arqueiro Verde
está para a Liga da Justiça. Ele ainda não
teve chance de ter todo o seu potencial trabalhado, mas é
um cara das ruas, que entende o que é ser um humano,
ter problemas que não envolvam fantasiados nem lutas
intergaláticas. Ele é quem pode dar um lado
pé-no-chão para o grupo.
Até
Wolverine conseguiu uma boa explicação para
sua presença. Tony diz para o Capitão que eles
precisam de alguém que faça o que os outros
não estarão dispostos a fazer. Em suma, eles
precisam de Logan para fazer o que ele faz melhor: Matar.
Ele é uma carta no baralho para um momento crítico,
alguém para evitar que tudo desmorone novamente, mesmo
que o custo disso seja uma vida.
Essa
nova equipe, em apenas um arco já protagonizou momentos
fantásticos e no mínimo engraçados. Um
bom exemplo é uma cena em que todos são capturados
por Sauron. Eles estão presos, nus e sem opções
de fuga, mesmo assim, o Capitão olha para Sauron e
grita que ele tem apenas uma chance para se render. Nenhum
momento poderia simbolizar mais o Capitão América.
Mesmo sem recurso algum ele ainda acha que basta uma palavra
sua para que todos parem e ouçam.
Outro
grande trunfo desse arco é a arte de David Fingh. Ele
faz um trabalho extremamente caprichado, perfeccionista, cheio
de detalhes e nuances que casam bem com o texto carregado
de Bendis, dando a fluência necessária para a
história.
Vale
a pena acompanhar essa nova fase dos Vingadores por ter tudo
que uma boa história precisa: humor, suspense, ação,
um bom desenho, tudo na medida certa. Além disso, vale
dizer que desde o começo dessa nova fase, todo o mix
da revista tem estado interessante, não dando aquele
gosto amargo de se comprar uma revista de 100 páginas
apenas por uma história.
Também
deve-se lembrar que esse é só o começo
da era Marvel segundo Bendis. A loucura da Feiticeira Escarlate
vai desencadear uma série de eventos na série
Dinastia M e redefinirá a realidade como conhecemos,
além de desencadear um outro grande evento que virá
logo a seguir envolvendo diretamente os Novos Vingadores:
Guerra Civil.