O
olhar e a pena
Quadrinhos
e cinema são duas formas de arte relacionadas tanto em sua
forma quanto em sua história. Ambas têm como marco de
seu “nascimento” o ano de 1895 e seu desenvolvimento enquanto
técnica artística e fenômeno sócio-cultural
compõe um retrato de como os meios de comunicação
se transformaram na modernidade. O surgimento dos desenhos animados
ajudou a descoberta de que cinema e quadrinhos tinham suportes semelhantes,
com uma série de imagens deliberadas em uma seqüência.
A diferença está em que no cinema as imagens se sucedem
no tempo, enquanto nos quadrinhos elas se sucedem no espaço.
Os
préstimos de uma para outra foram vários, nos mais diversos
estágios de produção. De um lado, o cinema fez
uso da arte seqüencial para o planejamento de filmes em storyboard
e do outro, os quadrinhos viram em muitos efeitos do cinema uma série
de paradigmas para a criação de seqüências
em papel.
Desde
que o termo “narrativa cinematográfica” foi empregado
pela primeira vez para descrever o dinamismo das transições
quadrinho a quadrinho em uma revista, este conceito passou a fazer
parte do vocabulário de artistas, leitores e estudiosos da
nona arte. Com o tempo, isso tornou-se um ideal que levou a uma observação
intensa do cinema como referência para a produção
de histórias em quadrinhos. Will Eisner já
fez isso com Spirit, que tinha muitas semelhanças
com os filmes de Orson Welles, especialmente Cidadão
Kane. No entanto, como o gibi de Eisner e o filme de Welles foram
a público no mesmo ano, é mais coerente pensar em um
tipo de “evolução paralela” e num “caldo
cultural” do que numa assimilação direta de um
pelo outro.
Enquanto
o cinema passou mais facilmente pelo processo que o colocou no lugar
de reconhecimento do seu status de arte, os quadrinhos até
hoje penam para dar os primeiros passos nessa estrada. Assim, surgiu
um senso comum de que os quadrinhos seriam um tipo de sub-arte que
expressa a ação como num filme, mas sem a emoção
do movimento.
Em
seu “tratado cult” On Writing for Comics, Alan
Moore já apontava para esta interpretação
limitada, dizendo que a maioria dos desenhista tomava emprestado de
segunda mão os recursos que Eisner havia adaptado de Welles
e de outros cineastas dos anos 40 e 50. Para Moore, para que os quadrinhos
fizessem uma adaptação de elementos do cinema que fosse
criativamente legítima, os artistas deveriam buscar outras
fontes e estabelecer o diálogo com outros cineastas (mais contemporâneos,
inclusive) como Stanley Kubrick, Francis
Ford Coppola, Frederico Fellini e outros.
Mas
ainda é possível uma outra saída. A de fugir
completamente das comparações com o cinema e tentar
levar a arte seqüencial para outros campos de experimentação.
As artes plásticas fizeram isso após o surgimento da
fotografia, que assumiu a tarefa de “retratar” a realidade
em seus mínimos detalhes pictóricos. Assim, a fotografia
ficou encarregada de uma série de funções sociais
(como os retratos, a ilustração de jornais e revista,
a propaganda, etc) que antes cabiam a desenhistas e pintores, que
agora passavam a desenvolver técnicas de expressão que
rompiam com o olhar tradicional sobre as formas do mundo. Destas experiências
surgiram o expressionismo, o impressionismo, o cubismo e várias
outras vanguardas.
De
fato, muitos autores de quadrinhos já assimilaram estas tendências
(veja a matéria sobre pintores de hq).
O
cinema também estabeleceu seus paradigmas se distinguindo do
modo do ser humana olhar a realidade. O cineasta polonês Dziga
Vertov expressou em diversos textos seu conceito de “olho
da câmera” e descreveu como o mecanismo do cineasta se
desprende das limitações físicas do homem e passeia
pela cena capturando os fatos.
Pois
bem, os quadrinhos podem levar esta idéia além, já
que o aparato técnico do cinema ainda possui limitações
que a imaginação do ilustrador pode superar com facilidade.
O contato com quadrinhos de diferentes partes do mundo fez com artistas
desenvolvessem técnicas e efeitos que retratam muito mais do
que a superfície dos objetos em cena e re-significam as categorias
de espaço e tempo na narrativa.
Desde
seus primórdios, os mangás mostraram as mais variadas
formas de abstração dos momentos de tensão dramática
mais forte e criaram representações gráficas
para os estados da alma dos personagens que ainda fascinam os leitores
(e artistas) do ocidente.
Nos
anos 60 e 70, o italiano Guido Crepax revolucionou
os quadrinhos do mundo todo com as diagramações ousadas
das páginas de Valentina, em que a realidade exterior
e interior da personagem dividem espaço na mesma página,
com quadrinhos que levam de uma a outra de forma tão natural
quanto acontece na imaginação de qualquer um em meio
a devaneios. Com isso, Crepax se tornou um mestre pioneiro na exploração
das páginas duplas com enquadramentos nada convencionais.
Os
quadrinhos americanos demoraram um pouco em assimilar estas idéias,
talvez porque sua concepção de “quadrinhos maduros”,
em geral, tinha mais a ver com o campo da palavra, o roteiro e os
diálogos – ainda que esta divisão tão brusca
entre palavra escrita/roteiro e arte não seja muito saudável
para o amadurecimento estético dos quadrinhos. Assim, o que
se observa é uma grande quantidade de revistas que se concentravam
na elaboração de uma narrativa verbal sobre as seqüências
de desenhos.
Chris
Claremont e Marv Wolfman são exemplos
claros. Ambos abusam de recordatórios que além de descrever
o mesmo que se vê nos desenhos, mas com uma linguagem rebuscada
que tenta expressar o estado de ânimo do personagem em meio
aquela situação. Não é a toa que a maioria
destas histórias possuem um dos personagem como narrador.
Compartilhando
esta “pretensão literária” dos quadrinhos,
J. M. De Matteis, em Moonshadow, põe
na voz de seu narrador personagem uma série de citações
literárias que lhe servem de mote para contar cada capítulo
de forma muito verborrágica.
Contudo,
ao longo do tempo esse excesso de texto descritivo foi desaparecendo.
Os roteiros dão espaço privilegiado aos diálogos,
como os de Brian Michael Bendis. No seu caso particular,
seu senso de medida é tão refinado, que os desenhistas
que trabalham com ele também puderam desenvolver recursos narrativos
para não tornar os longos diálogos monótonos.
Com isso, a continuidade espaço-temporal da narrativa já
não se parece em nada com o que se vê em outras mídias.
Isso
porque, como explica Scott McLoud no seu livro Desvendando
os Quadrinhos, um quadrinho já não representa mais
uma fração de uma ação bem definida no
tempo, mas pode conter uma série de acontecimentos simultâneos
que demoram vários segundos para acontecer.
Na
segunda parte do texto, faremos uma análise de como têm
sido as experiências de alguns autores de quadrinhos com estas
técnicas narrativas. Esperamos com isso refletir sobre como
a nona arte vêm se constituindo como instrumento para interpretação
da realidade e que discurso ela tem construído nos últimos
anos.
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O Olhar e a Pena 2