O olhar e a pena – Parte 2

Anteriormente discutimos como os quadrinhos se relacionam com o cinema, em suas origens e técnicas narrativas. O ideal que se tornou a “narrativa cinematográfica” para os quadrinhos e como a banalização deste conceito se tornou uma limitação para muitos quadrinhistas.

Agora veremos como algumas experiências afastaram um pouco a nona arte do mesmo olhar cinematográfico, ajudando a expandir os horizontes da arte seqüencial nos últimos anos. Através de variações no uso do ponto de vista ou foco narrativa artistas passaram a contar histórias usando uma narrativa mais sofisticada e ousada.

Quando as histórias em quadrinhos começaram a se tornar um produto para adultos, entre os anos 70 e 80, prevaleceu a idéia de que deveriam tratar de temas mais complexos e mostrar o desenvolvimento da expressão verbal dos roteiristas. Assim, surgiram histórias carregadas de balões de diálogo e recordatórios com a interferência de um narrador ou consciência narrativa.

Através destas propostas, consolidou-se um renovação estética nos super-heróis, aprofundando as características do protagonista por meio de suas reflexões. Também nesta fase houve o grande “boom” das graphic novels.

Aos poucos, um novo tipo de relação entre argumento e desenhos foi tomando conta dos quadrinhos, de forma que a nona arte finalmente passou a ser concebida como algo mais do que a simples combinação destes dois elementos.

Scott Mcloud, em Desvendando os Quadrinhos, aponta como principal característica dos quadrinhos o efeito de conclusão, aquilo que nos faz deduzir a sucessão dos fatos entre dois quadros, trabalhando com a leitura do que está implícito entre quadros.

A sofisticação deste efeito tem produzido resultados sempre surpreendentes. Chega a ser lendária a correlação de cada quadrinhos e cada página de Watchmen. Por trás de uma estrutura padrão para cada página há uma cadeia de simbolismos e não-linearidade dos acontecimentos. Tudo de acordo como o Dr. Manhattan presencia os fatos e o fluxo do tempo na série.

O exemplo mais recente é WE3, de Grant Morrison e Frank Quitely. Silenciosa a maior parte do tempo, a narrativa abandona completamente a necessidade de uma consciência como narrador e adere à estética literária de deixar a história contar a si mesma. Cada cena é apresentada diretamente aos olhos do leitor, sem passar por filtro de nenhuma outra consciência, da forma mais objetiva possível.

Através da expressão das personagens, dos gestos, dos diálogos e das características do ambiente, o leitor compõe para si a unidade de tom da história. Obviamente, não se pode confundir a ausência do narrador com a ausência de autor, pois este ainda é responsável pela elaboração daqueles fatores de forma deliberada.

No caso de Quitely, como tudo é mostrado de forma bem direta, há uma crueldade muito forte em WE3. Crueldade que o artista ressalta com detalhes que às vezes chegam a ser grotescos: closes de dentes, gengivas, pêlos, unhas e, claro, sangue. Isso tudo mostrado de perto, em todas as suas imperfeições, pelo estilo irônico e meio caricato de Quitely.

O Olhar e a pena parte 1


   

 

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