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Quadrinhos retrô

            O gênero que é conhecido pela mídia especializada como quadrinhos retrô formou-se ao longo da década de 1990 como um segmento das publicações com super-heróis no mercado norte-americano, apresentadas como edições especiais ou minisséries. Publicadas neste formato, as histórias deste tipo sempre eram uma forma de interpretação mais livre dos personagens, independente das linhas editoriais estabelecidas para suas revistas principais, aquelas que realmente tinham a pretensão de ter grandes vendas, pois são elas que estão todos os meses nas bancas e lojas de quadrinhos. Justamente por possibilitar uma visão diferente a respeito de heróis que há muito tempo estão em circulação, alguns coexistindo em várias mídias diferentes (cinema, televisão, jogos de videogame e computador, livros em prosa, etc), as histórias em quadrinhos retrô se ofereceram como contrapalavra às convenções do gênero de super-heróis que vigoravam desde o final da década de 1980. 

            Naquela época, editores, escritores e desenhistas promoveram o que eles definiam como a “modernização” dos quadrinhos e seus heróis, com uma série de transformações em todos os níveis do discurso presente naquele conjunto de publicações. O número de publicações cresceu muito, de forma que mesmo personagens pouco conhecidos tinham revista própria independente daquela em que apareciam regularmente, e aqueles personagens mais conhecidos, como Batman e Homem-Aranha, chegaram a ter quatro ou mais revistas mensais, além de edições especiais, minisséries, revistas bimestrais, trimestrais, anuais e coletâneas de histórias antigas. Tantas publicações, muitas de baixíssima qualidade, levaram ao desgaste da imagem de muitos personagens e as tendências estéticas do momento pareciam realçar a idéia de uma fase de maus frutos para os quadrinhos nos EUA e para aqueles mercados, como o brasileiro, em que estas histórias em quadrinhos são o principal artigo.

            Do ponto de vista dos roteiros, fracos e inconsistentes, o resultado foi uma degradação do conceito de herói nos quadrinhos, uma rejeição aos heróis perfeitos e idealizados, substituídos por figuras mais “modernas” e com um comportamento mais violento e moralmente ambíguo. A própria caracterização pelos desenhos dos personagens apresentava esta mudança: o visual da moda entre super-heróis tentava esconder as fantasias feitas de colante com acessórios como sobretudos e jaquetas, luvas de couro, coturnos, ombreiras, bolsos e fivelas. Interessante notar que as vestimentas dos personagens deixam de ter, assim, o aspecto iconográfico que os uniformes tradicionais tinham, inclusive com as insígnias que tornavam os heróis reconhecíveis automaticamente, como o Superman. Além disso, armas diversas (brancas, de fogo ou futuristas) passam a fazer parte do equipamento dos personagens, o que além de indicar uma mudança ideológica de concepção de heróis, produz uma representação estética diferente daquela que mostrava o super-poder vindo do próprio herói, como parte constitutiva de sua natureza.

            Para McLoud (2005), esta mudança é sinal de uma pequena mudança na faixa etária da maioria dos leitores, que deixaram de ser crianças para se tornarem adolescentes. Por isso, além das questões ideológicas que o momento histórico trouxe dos anos 80 em diante (como a violência entre jovens e os elementos da vida moderna nas cidades a que os jovens são associados), os quadrinhos passaram a refletir o tipo de experiência rápida e intensa que se vivencia na adolescência. As páginas de quadrinhos passaram a ser compostas de menos quadros (cinco ou seis, em média), ângulos ousados de enquadramento, mais representação de movimento e desenhos cheios de hachuras.

            Os quadrinhos retrô, opondo-se a esta estética, propuseram um retorno de diversos elementos que seus autores consideravam perdidos. Junto com esses elementos estéticos, o discurso dos autores de quadrinhos retrô resgatava a memória do trabalho de grandes autores das décadas de 40, 50 e 60, os períodos que a mídia especializada e os fãs chamam de Era de Ouro e Era de Prata dos quadrinhos. Estes termos, inclusive, dariam título a duas das primeiras histórias em quadrinhos retrô, escritas por James Robinson. Essas histórias mostravam personagens daquele período que não eram mais publicados sendo inseridos numa proposta de reformulação na continuidade da editora DC Comics, como se fossem pioneiros que agiram antes dos heróis que continuam sendo publicados hoje. 

Assim, os autores de agora estabeleciam um elo entre si e os autores que consideravam importantes para a consolidação do gênero em suas décadas iniciais e que estariam sendo esquecidos pelo mercado naquele momento. Além disso, esta prática contribui para a tentativa de se afirmar os quadrinhos como uma arte mais sofisticada, à semelhança da literatura e do cinema, mostrando que existem relações de intertextualidade que dariam um ar de seriedade ao gênero. Pregando este discurso em entrevistas, editoriais, propagandas e outros textos que aparecem também em revistas em quadrinhos e sobre eles, este grupo de autores ajudou a criar uma escrita da história das histórias em quadrinhos, uma espécie de cânone com textos e autores fundadores dos diversos gêneros de histórias em quadrinhos, bem como as grandes mudanças ao longo do tempo.

A novidade dos quadrinhos retrô estava na proposta de atender ao anseio de “humanizar” os super-heróis de uma forma diferente da que era feita nas revistas mensais em geral, que eles consideravam amoral e abusiva. De fato, parecia predominar naquelas revistas uma abordagem muito cínica do que seria esta humanidade, enfatizando falhas de caráter e comportamentos que seriam considerados obscenos na estética tradicional do gênero.  Os quadrinhos retrô optaram por explorar a fundo os homens e mulheres por trás das fantasias de combate ao crime na tentativa de definir o caráter destes personagens e tornar sua vida civil tão interessante quanto a de seu alter-ego. É comum ver um ar mais dramático nestas histórias, com situações que fogem do roteiro tradicional de combate a super-vilões e apresentam diversos outros conflitos entre os personagens, como a relação com familiares que não sabem da dupla identidade do herói, as primeiras experiências como vigilante, o ponto de vista do vilão sobre o herói e a reação da sociedade aos atos de super-seres.

 

Continua...

 



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