
Atualizações:
o caso Smallville
Os
personagens da DC estão entre os seres de ficção
mais antigos que ainda têm histórias novas sendo continuamente
publicadas. Contudo, estas inúmeras décadas com várias
revistas mensais vão desgastando os personagens e esgotando
as idéias para os criadores trabalharem. Uma alternativa para
esses lapsos criativos são as atualizações dos
personagens.
É
inevitável que ao transcorrer dos anos o mundo mude e os quadrinhos,
que percebem o tempo de forma muito mais lenta, acabem virando relíquias.
Eles acumulam uma cronologia complexa, conceitos ultrapassados e uma
verossimilhança que fica cada vez mais prejudicada. Para ajeitar
a casa, as editoras recorrem ao recurso de recontar a origem do personagem,
reiniciar sua cronologia e trazê-lo para tempos mais atuais
ganhando novos nuances, possibilidades e uma sobrevida indeterminada.
O
Superman é um exemplo clássico disso.
Ele surgiu nas tiras de jornais, foi agregando poderes e sendo transformado
nos quadrinhos e depois de muitos anos teve que ser reformulado em
uma nova e mais realista perspectiva, no caso a de Byrne. Essa nova
visão eliminava diversas distorções e conceitos
que os leitores pararam de achar aceitáveis e que dificultavam
o trabalho dos roteiristas em contar histórias que eles consideravam
mais interessantes para a época.
Para
Byrne, o que valia ser realçado no personagem era seu caráter,
um sinal de sua humanidade que os Kent lhe deram. Assim, ao reduzir
os poderes do Superman, Byrne o tirou do status de divindade que a
versão anterior possuía e que já era vista até
mesmo por acadêmicos como Umberto Eco como
uma analogia para o pobre cidadão mediano que espera em algum
momento revelar-se alguém especial. Certamente essa interpretação
um pouco reducionista não agradava a Byrne e a muitos leitores
que se viram taxados de ingênuos.
Por
isso, na versão de Byrne vemos – e isto está dito
na edição em que Clark descobre sua origem krytoniana
- que apesar da fantasia, o herói é Clark Kent. Tanto
que mesmo como repórter ele é um homem de sucesso, vencedor
do prêmio Pulitzer e capaz de salvar o dia de formas
que o Superman não poderia. Vários outros elementos
da nova origem conduzem a uma visão mais humana do personagem.
Curioso
é que mesmo aqueles que preferem uma abordagem que enfoque
mais o “alienígena” e o “super” do
personagem lidaram bem com o trabalho de Byrne. Apesar de não
fazer as coisas mirabolantes que as suas versões pré-Crise
podiam, a versão moderna tinha uma aura de grandeza e poder,
derivada justamente deste elemento moral que Byrne deu ao herói.
Com isso, evidenciou-se ainda mais a importância do personagem
para a DC e os quadrinhos em geral, de modo que o Superman sempre
foi mostrado como o maior herói de todos, um modelo insuperável.
Uma
vez consolidada esta idéia, os escritores puderam novamente
elevar o nível de poder do personagem, aproximando esta versão
das anteriores. Isso se deu de uma maneira gradual durante a última
década e contou com a colaboração de Jeph Loeb,
Grant Morrison, Mark Millar e culminou em Liga da Justiça e
Vingadores, onde Kurt Busiek mostrou sem rodeios que mesmo esta versão
do Superman é maior que qualquer outro herói. Esta foi
a porta de entrada para a minissérie Superman: O Legado das
Estrelas, onde se propõe uma nova origem do Homem-Aço
que funde todas as idéias que orbitam o nome do personagem.
Além
dessa virada nos quadrinhos, houve uma cristalização
de uma nova versão com novos elementos: a cinematográfica,
encarnada por Christopher Reeve. Nela o herói foi apresentado
um pouco diferente, também atualizado para a época e
ironizando conceitos antigos. Um exemplo claro disso no primeiro filme
dessa nova série é quando Clark procura uma cabine telefônica
para vestir seu uniforme e a cidade tem apenas orelhões.
Quando
Smallville chegou à TV, muito se comentou sobre que tipo de
atualizações teriam sido feitas. Qual Superman veríamos
toda semana? Esperava-se uma forte utilização dos conceitos
atuais dos quadrinhos, simplesmente trazendo o personagem para os
dias de hoje e dando uma adaptada para funcionar semanalmente. Cogitava-se
até uma abordagem mais inovadora que, funcionando bem na TV,
poderia ser trazida para as HQ's.
Qual
não foi a surpresa dos espectadores e dos fãs quando
se depararam com o Superman clássico da Era de Ouro vivendo
no nosso presente. Assim como Alan Moore tinha feito quando publicou
as duas últimas histórias do personagem antes de sua
reformulação por Byrne, os produtores e roteiristas
do seriado mostraram que o Superman original há muito enterrado
poderia funcionar e ter boas histórias, bastava ter um pouco
de criatividade.
Muitos
dos conceitos da Era de Ouro que foram ridicularizados e tidos como
péssimas idéias retornaram e surpreenderam as pessoas
que se apaixonaram pela série. Vemos novamente Clark e Lex
amigos de juventude em Smallville, diversas cores de kriptonita com
vários efeitos interessantes, o Superman que não pode
voar, apenas dando grandes saltos, uma espécie de Kripto, o
supercão, entre outras coisas.
Depois
de trazer essas idéias de volta à tona e mostrar como
elas funcionam hoje, foi a vez de aproximar o roteiro dos filmes.
Uma grande estratégia da Warner que acabou consolidando e revitalizando
a franquia. Nas últimas temporadas vimos a Fortaleza da Solidão
idêntica à dos filmes, o enfarte e a morte de Jonathan
Kent, a chegada que dois Kriptonianos que tentam trazer Zod de volta
mas acabam presos com ele na Zona Fantasma e um Jor-el, que mesmo
sendo apenas uma narração em off se faz extremamente
presente. Isso trouxe novamente os filmes para o imaginário
das pessoas. A própria presença Reeve no programa colaborou
com isso.
Ironicamente,
Lex Luthor passou em Smallville pelo mesmo movimento de transformação
pelo qual Clark passou nos quadrinhos. Se por um lado seu relacionamento
com Clark em Pequenópolis remonta à Era de Ouro dos
gibis, sua caracterização está muito mais próxima
da versão presidencial que estava nos quadrinhos até
pouco tempo. Essa caracterização de Luthor, por sua
vez, já era uma releitura da versão de Byrne.
Smallville
se tornou uma ponte. Ligou os quadrinhos originais ao filme, atualizou
os dois acrescentando novos conceitos e pavimentou o lançamento
de um novo filme, Superman Returns, que promete continuar
de onde a série anterior parou. Dessa forma esse seriado foi
um caso onde olhando para trás se pôde ir para frente.
Mostrando que por mais inocentes e ultrapassados que sejam algumas
idéias, elas podem funcionar em uma história bem contada.
