Os
vários mitos do Superman na Era Moderna dos super-heróis
Por
Diego Figueira
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a Parte 3
Parte 4
Retorno à Era de Prata (1999-2003)
Depois de muito tempo uma nova equipe criativa assumiu as rédeas das três revistas mensais do Superman nos EUA. Na linha de frente estavam os roteiristas Joe Kelly e Jeph Loeb, que dialogava com Mark Waid, roteirista da graphic novel Reino do Amanhã, e Grant Morrison, escritor da revista da Liga da Justiça. Estes três autores declaravam sua admiração pela versão da Era de Prata do Superman e em seus trabalhos com o Homem de Aço encontraram formas de trazer de volta alguns elementos desta fase numa roupagem moderna.
Seu sucesso se deve à fama que estes escritores já tinham por estarem produzindo obras de qualidade com um marca pessoal muito forte há bastante tempo. Graças a eles, em grande parte, se consolidou o gênero dos quadrinhos retrô de super-heróis, com um novo olhar sobre os quadrinhos antigos que se apoiou em uma leitura daquelas histórias com um série a ser estudada e interpretada.
Ainda em 1997, em meio aos enredos absurdos criados para os heróis separadamente, Morrison reformulou a Liga da Justiça com base em um conceito: reunir os maiores e mais poderosos heróis da DC. Assim, Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Ajax (Caçador de Marte), Flash, Lanterna Verde e Aquaman estavam todos juntos na equipe como nunca havia acontecido antes, de acordo com a nova cronologia definida após Crise nas Infinias Terras.
Nas histórias, Morrison deixou todos estes heróis muito mais poderosos, não apenas fisicamente, mas fez da Liga um máquina que funciona em sincronia perfeita, numa escala quase inatingível para outros heróis (como seria mostrado no encontro da LJA com os Vingadores, da Marvel Comics, um dos encontros mais esperados da história das histórias em quadrinhos).
A proposta de Loeb e Kelly era incorporar à personalidade mais humana de Clark Kent estabelecida por John Byrne a magia e a grandeza do Superman da Era de Prata. O Superman, desde então, se consolidou como o herói modelo de todo o universo DC, fato reforçado pelo fato dele liderar esta reformulação da Liga da Justiça.
Nas primeiras histórias desta fase, o Superman é procurado pelo filho de seu antigo inimigo Mongul, que vem lhe alertar sobre uma ameaça cósmica muito mais perigosa que qualquer outra que os heróis da Terra já tenham enfrentado, a criatura chamada Imperiex. Mongul diz que o Superman precisará usar ao máximo suas habilidades para impedir que Imperiex destrua todo o universo e o faz perceber que seus limites estão muito além do que ele imaginava e seria muito próximo das características do personagem na Era de Prata.
Além da força, da invulnerabilidade e da velocidade terem sido aumentadas de forma exponencial, Mongul revela que o Superman pode enxergar os confins da galáxia com sua visão telescópica e de raios-x, ao contrário do que o herói imaginava (ele pensava que a atmosfera o impedia de ver o espaço).
Em outras histórias posteriores, o Superman podia espiar qualquer parte do globo terrestre combinando a visão telescópica e raios-x para ignorar a curvatura da Terra que limita o horizonte. Esta mudança produz, inclusive, uma nova imagem interessante: o Superman não precisa mais se elevar acima do mundo para procurar alguma coisa, ele pode fazer isso do chão.
Na história Retorno a Krypton, o herói encontrou seus pais numa viagem interdimensional e descobriu que a imagem do planeta estéril que foi descrita por John Byrne era um plano para que Kal-El não sentisse pesar por ser o último de sua raça e aceitasse sua vida na Terra. Este Krypton verdadeiro era igual ao mostrado nas histórias da Era de Ouro e de Prata, o paraíso científico muito mais avançado que a Terra.
A trama em si também sofre com a falta de explicação para muitos acontecimentos centrais e termina com um sinal de que existiria um tipo de salvaguarda para retomar a versão de Byrne caso a história não fosse bem recebida pelos leitores (os pais de Kal-El aparecem em trajes que combinam o visual das duas versões de Krypton).
Em seguida, vieram o retorno de Krypto, o Supercão e várias tentativas de se reformular a Supergirl para deixá-la mais próxima do Homem de Aço.
O Legado das Estrelas (2003)
O projeto de se fundir elementos das versões anteriores ao Superman pós-Crise foi adiante e se consolidou com a minissérie O Legado das Estrelas (Birthright no original), escrita por Mark Waid e desenhada por Lenil Francis Yu. Segunda os editores nos EUA, esta seria oficialmente uma nova origem para o herói a ser seguida a partir de então. Na prática, ainda há mais controvérsias, já que os escritores dos títulos mensais têm sido muito cautelosos ao abordar elementos que são diferentes nas várias versões, preferindo evitar o problema e deixar que os leitores preencham a lacuna buscando resposta implícitas do discurso das editoras (declarações em editoriais, entrevistas, textos informativos na internet etc), que funciona como um "hipertexto" para a leitura das revistas.
A minissérie parte da lacuna deixada por Byrne sobre os anos em que Clark viajou pelo mundo a fim de aprender sobre seus superpoderes e que uso fazer deles. A isso Waid combinou elementos do seriado televisivo Smallville, que mostrava a adolescência de Clark, que estava descobrindo aos poucos suas habilidades. Assim, O Legado das Estrelas tinha os elementos que atraiam o grande público na televisão e uma proposta de uma origem nos quadrinhos mais próximas das que foram mostradas em outras adaptações para tv e cinema, como os filmes com Cristopher Reeve.
As mudanças feitas por Waid envolviam dar uma repaginada definitiva nas características de Krypton e seus habitantes, acrescentando um ar arrojado de aventura espacial e ficção científica à sua história, combinado com um novo visual, agora realmente futurista para os atuais padrões, desenvolvido pelo desenhista Lenil Yu. Entre estes elementos visuais encontra-se a insígnia do Superman como um brasão da família El, que assim como nos filmes, está na capa que cobre o bebê Kal-El quando este chega à Terra no foguete. Nesta versão, Kal nasceu em Krypton como qualquer outro cidadão daquele planeta, e não veio à Terra como um feto.
Em Pequenópolis, além de uma série de mudanças no comportamento de todos os personagens que os deixaram mais "modernos" (na verdade apenas algumas diálogos picantes e cínicos que não se via antes), dois elementos chamam a atenção: a caracterização dos pais de Clark, mais jovens e com muitas semelhanças com os atores do seriado Smallville, e a amizade de Clark e Lex Luthor, ainda jovens, nesta cidade. Esta última remete tanto ao seriado quanto à antiga origem de Luthor nas revistas do herói.
No entanto, há uma distinção com relação à Era de Ouro e de Prata que faz com que esta releitura tenha seu grau de autonomia na evolução do personagem pela maneira como Waid modificou a relação Clark Kent/ Superman, desconstruindo ainda mais a dicotomia desta relação. Segundo Waid, existe um jogo muito mais complexo entre a verdadeira personalidade de Clark, praticamente idêntica à descrita em Man of Steel, o disfarce heróico de Superman e um outro disfarce que é o Clark Kent de Metrópolis, o repórter dissimulado que precisa ocultar sua identidade. A esses elementos poderíamos incluir ainda a personalidade de Kal-El, que surge nos momentos em que o Superman pensa, aprende e reflete sobre sua origem alienígena.
Desta forma, não existem mais dois pólos opostos na caracterização do personagem, mas um jogo mais dinâmico de papéis que ele assume em momentos diversos.
Continua...