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Os Supremos e a ideologia vigente

Chegou ao fim o segundo volume da revolucionária série do universo Ultimate, Os Supremos. E por mais que a Marvel invista em mais dois volumes da série e garanta que a qualidade permanecerá a mesma, fica difícil acreditar nisso sem a participação do roteirista Mark Millar e do desenhista Brian Hich.

Os Supremos foi uma aventura muito bem sucedida da Marvel para oferecer uma nova perspectiva sobre os super-heróis. A combinação do estilo pessoal destes dois autores, somada ao "caldo cultural" que tínhamos no período de sua publicação fizeram esta série tão contundente quanto foi. Agora, não apenas Millar e Hitch foram substituídos por Jeph Loeb e Joe Madureira, uma dupla de criadores com referências que vão no sentido oposto da anterior, como também os ânimos do povo americanos sobre as questões sócio-políticas está muito diferente de cinco anos atrás.

Entre o volume um e dois da série é possível ver um movimento de mudança que fez delas o complemento uma da outra. No primeiro volume, parecia haver uma maior harmonia entre os propósitos da equipe e o status quo que predominava no universo Ultimate, em que o heroísmo altruísta de personagens como o Homem-Aranha era a exceção e não a regra.

No segundo volume, quando a opinião pública dos EUA já questionava todas as atitudes tomadas pelo seu governo em nome da "Guerra contra o terror", Os Supremos se viram tomados por conflitos internos e tornaram-se alvos de uma investida contra o poderio militar norte-americano, representado pelos super-seres coordenados pela S.H.I.E.L.D.

No primeiro volume, o Capitão América lança bravatas dizendo que em sua testa não está a inicial da França e por isso não fugiria de uma luta. Já no segundo, a Viúva Negra quase convence Nick Fury de que o Capitão era um traidor e o responsável pelo assassinato da família do Gavião Arqueiro. O desgaste da equipe é praticamente inevitável, e é mostrado como uma conseqüência da própria política da S.H.I.E.L.D.

No final, toda a trajetória leva a equipe a se tornar muito próxima de sua versão original, os Vingadores. Desvinculando-se da agência que os reuniu, sediados numa mansão de Tony Stark e com o objetivo de agir de maneira livre para melhor servir à população mundial. Para alguns pode parecer frustrante, mas encerra muito bem a leitura que Millar fez da primeira fase da Era Bush.

O universo Ultimate deu grande destaque à S.H.I.E.L.D., como representante do poder e da ideologia do Estado, fazendo esta agência estar sempre de prontidão para qualquer ocorrência envolvendo super-seres. No universo tradicional, os super-seres surgiam e tornavam-se heróis por livre iniciativa, uma expressão do liberalismo e do mais tradicional estilo de vida americano.

Os Supremos mostrou como este estilo de vida pode ser revogado pela ideologia oficial em momentos de crise, como o vivido após os atentados de 11 de setembro de 2001. A S.H.I.E.L.D. está monitorando o surgimento de pessoas com habilidades sobre-humanas e antecipando-se às mudanças elas podem causar na sociedade. Numa das histórias do Homem-Aranha da linha Ultimate, Nick Fury diz ao herói que ele apenas não está trabalhando para o governo porque ainda é um adolescente, e que isso vai mudar quando Peter fizer dezoito anos.

Aliás, essa questão é tão relevante que agora se alstrou por todo o Universo Marvel tradicional com a Guerra Civil, tambem escria por Millar. Afinal, nesta série também se questiona o direito da livre iniciativa das pessoas com superpoderes usarem seus dons para fazer valer seu próprio senso de justiça.

Ainda nos Supremos, outra leitura interessante é sobre o papel do Thor. A primeiro momento ele serve como base da linha de ação desse volume, já que o inimigo principal é, na verdade, o Loki. Mas, por trás das armações e pancadarias temos o fato que Thor é um enviado de "deus" para salvar a humanidade e, suas primeiras ações, são ligadas ao ecoterrorismo.

Nisso, nota-se claramente uma precoupação com a questão ambiental, que os EUA há um bom tempo têm deixado de lado e a sacada de que a humanidade nunca entende uma boa ação e sempre vai considerar como louco aquele que a pratica.

No fim, se não fosse por Loki, ou seja, uma situação cataclísmica, extrema, ninguém aceitaria a verdade. Por baixo de todas as camadas de lutas, humor e tudo mais, Millar ainda chama atenção para o fato que só quando tudo estiver na pior situação possível conseguimos enxergar a verdade que estava lá desde sempre. Uma pequena bandeira levantada por uma pessoa solitária ofuscada por todo um sistema político e ideológico complexo.

 



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