Uniforme tradicional

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Capitão América: estudo de caso

Os uniformes são um elemento muito importante para os quadrinhos de super-heróis, uma das bases mais fortes deste gênero de histórias. São parte do que faz destes personagens verdadeiros mitos modernos que habitam o imaginário de pessoas do mundo todo. Os uniformes mais famosos dos quadrinhos têm um apelo simbólico muito forte e são capazes de representar a totalidade de valores que um herói preza e defende, de modo que o uniforme praticamente sozinho substitui o herói.

Para apresentar uma nova idéia de como seriam os super-humanos no século XXI, os autores da linha Ultimate da Marvel Comics introduziram conceitos que podem ser notados até mesmo na concepção dos uniformes. É principalmente este aspecto mítico do super-herói que é questionado na série Os Supremos, de Mark Millar e Brian Hitch.

O uniforme clássico do Capitão Américo é um exemplo típico de uniforme de super-herói: uma fantasia com uma função mais icônica do que prática. Uma malha que se sobrepõe e se confunde com a pele do personagem, na maioria das vezes desenhada sem detalhes de textura ou volume; botas e luvas coloridas e máscara.

Note-se que independentemente do estilo do desenhista, mais ou menos “realista”, esta é uma concepção de uniforme que acompanha o personagem como parte constitutiva de sua versão original no Universo Marvel. Esta é uma visão clássica, idealizada e, de certa forma, romântica de como são os super-heróis em geral. O uniforme é a representação dos valores do herói e os deixa à mostra como parte integrante de sua aparência e de sua identidade.

Para mostrar um mundo onde tal idealização dos super-heróis não existe, o roteirista Mark Millar e o desenhista Brian Hitch nos apresentam novas formas de retratar estes personagens, a começar pelo visual. Não cabe discutir a adequação do termo “realismo” neste caso, muito menos se as histórias da linha Ultimate são de fato mais ou menos realistas do que as do Universo Marvel tradicional, já que estes termos são fortes demais e a discussão iria muito longe.

Contudo, a idéia é mostrar que as novas concepções de uniforme, aliadas a alguns elementos da narrativa visual, ajudam a perceber alguns elementos de destaque no enredo e na forma de abordar os super-heróis na linha Ultimate.

À primeira vista no uniforme da versão Ultimate do Capitão América nota-se a substituição de alguns elementos, como as luvas e as botas, por modelos mais funcionais e que além disso seriam utilizados por outros soldados comuns do exército dos EUA. Os coturnos e as luvas de couro, inclusive por fugir ao padrão de cores da bandeira norte-americana, já indicam uma quebra com a figura idealizada do herói nacional que se confunde com o próprio conceito de nação e espírito coletivo. A analogia com a bandeira norte-americana é subvertida por um novo elemento que remete ao conjunto de signos que representa o exército.

De maneira semelhante, a máscara é substituída por um capacete, que embora mantenha os adornos tradicionais que fazem dele um símbolo, também evidencia detalhes funcionais, com fivelas e presilhas. A percepção do volume e a da rigidez deste capecete sugerem que ele tem uma função mais do que simbólica e que o personagem já não é tão invencível quanto sua versão clássica, pois necessita de maior proteção.

Outros acessórios militares também são freqüentemente adicionados, como calças e jaquetas camufladas, medalhas e patentes, mochilas, cintos de equipamentos e óculos. Tudo isso desconfigura e humaniza a imagem do super-herói, aproximando-o de um soldado.

O que a narrativa visual de Hitch faz é dar continuidade a esse processo de reconfiguração, inserindo este personagem em ações ao lado de grupos do exército e utilizando equipamentos das forças armadas americanas. O contexto destas ações é muito bem determinado, centrado em um lugar que é um tema muito forte na cultura norte-americana e mundial atualmente, invasão do Iraque e os demais conflitos outros países do Oriente Médio.

A maneira como esta ação é mostrada, pelos enquadramentos e pelo ritmo, reforçam a idéia de uma operação militar verossímil, em oposição à atuação de um grupo de super-heróis tradicionais. Assim, o Capitão América está inteiramente inserido em um contexto diferente daquele de suas histórias clássicas, agora agindo como um soldado do exército americano que deve operar em conjunto com os demais combatentes.

A seqüência de ação do primeiro número do volume dois de Os Supremos mostra Steve Rogers agindo sob a monitoração de um grupo de superiores da SHIELD, que neste universo supervisiona as ações do grupo de super-humanos. O Capitão América já não é capaz de agir sozinho em nome do “modo de vida americano” e passa a fazer parte do “sistema”.

Tudo isso constitui a problematização inicial que Mark Millar lança sobre o Capitão América. Ao longo da série, ele e os outros personagens serão forçados a mostrar como se comportam num cenário completamente diferente do Universo Marvel tradicional, onde a SHIELD controla todos os super-humanos dos EUA e os usa para atender aos fins do governo.

Os quadrinhos permitem este diálogo sofisticado entre roteiro e arte, com um complementando as idéias do outro, atribuindo ao todo um dinamismo e uma complexidade muito grande. Analisar as minúcias desta verdadeira dança entre signos diferentes ajudará muito a compreender melhor a riqueza da nona arte.

Uniforme Ultimate

 



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