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O vício

- Confissões de um colecionador de quadrinhos -

Por Amálio Damas Jr.

Tudo começou com uma edição de A Espada Selvagem de Conan número oito. Aquela capa, com um desenho belíssimo de duas mãos gigantes, meio fantasmagóricas, se fechando sobre um guerreiro de aspecto bárbaro, que com a espada em punho tentava defender a si mesmo e uma bela mulher que estava ao seu lado, me chamou a atenção.

Depois de ler as aventuras do cimério de bronze, fiquei apaixonado pelas histórias fantásticas de uma época longínqua, com seres místicos, bravos guerreiros e belas mulheres. Comecei a comprar mensalmente e a procurar os números anteriores nos sebos de São Paulo. Mas só aquele gibi não saciava mais a minha vontade.

Comprei então o gibi dos Novos Titãs, que na época lutavam contra Trigon, o pai da Ravena, um demônio de quatro olhos de outra dimensão que queria invadir e dominar a Terra. Mas felizmente Robin, na época Dick Grayson, e sua turma conseguiram derrotar o monstrengo. Depois fiquei conhecendo também os Vingadores com uns desenhos muito bacanas, sem saber que era o mesmo desenhista dos Titãs, e um vilão que apesar de não ser humano era um dos piores: Ultron. Aí um amigo me explicou o que era Marvel e o que era DC e que ele preferia mais a Marvel.

Bom, pra falar a verdade gostei das duas e comecei a colecionar aqueles gibizinhos com assiduidade draconiana. Passava todos os dias na banca de jornal em frente ao meu trabalho e sempre andava com um dinheirinho no bolso para não perder nenhum exemplar.

Foi então que lançaram um gibi de super-heróis diferente de todos os outros, um tal de Cavaleiro das Trevas. Era uma história do Batman que não seria mensal, mas apenas quatro edições num tal de formato americano e com um papel diferente. Como não conhecia, comprei pra experimentar e fiquei maluco! O Batman era um animal, dava porrada nos bandidos sem dó e pulava de prédio em prédio como se tivesse dezesseis anos, mas na verdade tinha cinqüenta. Daquele dia em diante não dei mais sossego pro jornaleiro, perguntava todos os dias quando chegariam as novas edições daquele gibi fantástico.

Enquanto isso, ia me contentando com os formatinhos que também tinham histórias legais. Comecei a prestar atenção nos sujeitos que desenhavam bem pra caramba, como George Pérez, John Romita, John Buscema e um que além de desenhar também inventava as histórias, um fulano chamado John Byrne. Li as outras partes do Cavaleiro das Trevas, uma melhor que a outra e guardei aquele gibi num lugar especial da minha estante, pensando que não leria nada melhor o resto da vida.

Que nada! Logo depois lançaram um tal de Watchmen, que ao invés de quatro seriam seis edições. Rapaz! Fiquei doido de novo. Era igual ou melhor que O Cavaleiro das Trevas! Comprei todas as edições e depois dessa fiquei dependente. Passava na banca e o jornaleiro, aquele velhaco, sorria pra mim como se eu fosse o filho pródigo. Quando não havia lançamentos, ficava chateado, perguntava quando iam chegar as revistas e nem dormia direito.

Daí vieram as Graphic Novels, as Graphic Marvels, os Graphic Álbuns e a abertura da conta no jornaleiro. Ela já reservava as revistas pra mim e ia anotando num caderninho e quando eu recebia, metade do meu salário ficava com ele. Depois vieram os anuais, os especiais, os encadernados e conseqüentemente a rolagem da dívida. Em alguns meses eu ficava devendo pro jornaleiro e isso me incomodava, mas o cara não parecia se importar muito não, porque sabia que assim que saíssem as férias, o décimo-terceiro salário ou as horas-extras que fazia, a dívida seria saldada.

Eu já estava totalmente dependente e sem espaço no meu quarto para guardar mais nada. Foi quando descobri os independentes, principalmente um cara chamado Lourenço Mutarelli, que tinha um desenho meio sujo e estilizado, mas que era intrigante e diferente. Depois começaram a sair revistas informativas e a gente podia saber o que ia sair com antecedência, bem como o que tinha saído lá fora, porque as revistas eram escritas no exterior e traduzidas pro português pela galera da editora (o tonto na época achava que tinha descoberto a América).

Comecei a trocar idéias com uma galera que também curtia quadrinhos e prestar mais atenção em coisas como perspectiva, narrativa, estilo e técnica. Não bastava ser o John Byrne, tinha que ser uma história do Byrne que representasse alguma coisa ou que respeitasse a continuidade. Aí li uma coletânea de autores norte-americanos chamada “Comic Book – O Novo Quadrinho Americano” e fiquei conhecendo outro tipo de quadrinho mais adulto e focado na realidade, muito parecidos com os lançados pelo Mutarelli. Aí começaram a surgir outras editoras com outros materiais, uma diversidade nunca antes experimentada. Aí pela primeira vez fiquei desempregado!

A grana durou uns tempos, mas eu já era casado e tinha outras obrigações e tive que fazer o impensável: DEIXAR DE COMPRAR ALGUMAS RESVISTAS! Fiquei deprimido, ficava fazendo listas do que tinha perdido e cálculos de quanto precisaria para tapar o buraco. Foram dois meses de angústia e desespero. Então, consegui um novo emprego, cobri os buracos que faltavam e abri conta em outra banca. Tudo voltou ao normal e minha coleção ia de vento em popa, apesar de eu comprar alguns gibis que tinham lindos desenhos, mas roteiros com mais buracos do que um queijo suíço.

Três anos depois o fato se repetiu, perdi o emprego e a abstinência bateu novamente e pra piorar tive uma oferta de emprego em outra cidade e tive que me mudar. Desespero total! Além de ficar com outro buraco na coleção, ainda mudei para um lugar onde muitas das revistas que comprava não chegavam. Assim, tive que me adaptar aos novos tempos e comprar pela Internet.

Um dia olhei para aquele monte de gibis amontoados, pilhas e pilhas de papel, acumuladas durante vinte anos. Refleti durante semanas sobre o porque de não conseguir parar de comprar aquelas revistas e cheguei a seguinte questão: porque tenho tantos gibis, se leio apenas uma vez a esmagadora maioria e depois acabo esquecendo até da história? A conclusão foi meio chocante: eu era um viciado! Um verme! Quase um imbecil! Não importava o que era lançado, eu comprava e depois decidia se era bom ou não.

Então tomei uma decisão drástica: daquele dia em diante só iria comprar o que fosse realmente relevante! Comecei a olhar as revistas e decidir: Cavaleiro das Trevas fica, Hulk do Al Milgron vaza, Watchmen fica, Saga do Clone vaza, Quarteto Fantástico do John Byrne fica, Liga da Justiça do Dan Vado vaza e assim por diante. Vendi tudo que não valia a pena pela Internet. Sempre que é lançada alguma versão mais atualizada de uma obra importante, como os gibis da linha maiores clássicos da Panini, vendo ou troco as edições antigas e fico com a nova.

Leio muitas resenhas na Internet, (o Zé e o Diego já me ajudaram, sem saber, a decidir muitas compras) para ponderar se compro ou não compro aquele gibi. Também não estresso mais se a revista não chegou na “minha” banca ou na “minha” cidade. Hoje, com esse vício controlado, vivo bem melhor e gostaria de deixar meu testemunho para todos aqueles que como eu são viciados. De vez em quando tenho uma recaída, dirijo-me até um sebo e compro, por exemplo, todas as edições da revista Marvel Knights. Quando chego em casa olho no espelho e me remoendo de culpa pergunto: por que você fez esta besteira?

Apesar de tudo na maior parte do tempo posso ser considerado um cara normal. Agora se vocês me dão licença, tenho que acessar a loja virtual mais próxima e verificar se já saiu o novo número da última saga mutante que redefinirá para sempre o universo Marvel.


Amálio Damas Jr. é tão viciado em quadrinhos que passou a colaborar para o Pop Balões. Caso você tenha se identificado mande seu depoimento para ele: amaliojr@zipmail.com.br

 


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