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PERSONAGENS
Druuna:
Vagina Dentata, Armada com Metralhadoras*
Por
Eduardo Nasi
O
espaguete serviu para designar faroestes paupérrimos produzidos
na Itália. Nos quadrinhos eróticos, porém, a
massa em tiras trazida do Oriente por Marco Polo serviu de alimento
para Druuna, uma moça de libido desenfreada criada pelo veneziano
Paolo Eleuteri Serpieri.
Serpieri
nasceu na terra em que a Renascença atingiu seu esplendor de
cores, mas mudou-se para Roma em 1944, onde estudou. O criador se
envolveu com faroestes espaguete, contando sagas de heróis
pra lá de facínoras como o Genocida, quer dizer, General
Custer (1). Foi então que, nos anos 80, o artista anunciou
aos amigos: criaria um personagem que o faria rico. E foi assim que,
em dezembro de 1985, surgiu Druuna, uma garota generosamente macarrônica
e minimamente vestida, que tenta sobreviver em um mundo de ficção
científica entre cientistas loucos tarados, monstros lascivos,
lésbicas calientes e soldados... bem, você já
deve ter ouvido falar de como são os soldados.
Druuna
é um desses quadrinhos que se folheia com uma mão só
- se você gosta de garotas e já teve um exemplar em mãos
entre quatro paredes, sabe do que estou falando. Mas há algo
de peculiar na moça: quem tira uma lasquinha da heroína,
seja bacana ou bandidão, morre logo depois do coito. É
como se Druuna fosse, sem explicação alguma, amaldiçoada.
Ou uma viúva negra de uma série de homicídios
culposos.
Não
tem como não evocar o mito da vagina dentata. Explica-se: arquetipicamente,
as vaginas são bocas. Uma vez que bocas têm dentes, vaginas
também teriam dentes. Só a homarada que não vê.
Mas, lá no fundo, no inconsciente, cada cara é capaz
de imaginar. Introduzir o pênis num buraco escuro, portanto,
carrega toda aquela carga sígnica de poder do falo etc e tal.
Mas só em um primeiro plano. O macho arrombador teme que por
trás do hímen se escondam dentes tão afiados,
numerosos e perigosos quanto os de uma piranha. Homens que gostam
da coisa acreditam que vale a pena arriscar, e isso até reforça
a macheza do indivíduo.
(Por
isso que o anedotário é recorrente na idéia de
que, por via das dúvidas, é melhor não arriscar
com qualquer tribufu. Nunca se sabe quando é que se vai virar
um Farinelli tardio.)
Druuna
tem todos os atributos para que o intercurso derradeiro valha a pena.
Em uma terra desolada, pós-apocalíptica, habitada por
monstros, mutantes, aberrações e mendigos, ela é
o que é, tem as curvas que tem, faz sexo com grande desenvoltura,
beija na boca, manobra de p... e b...(2) e não exige camisinha.
Num ambiente de ficção científica e aventura,
Druuna não salva mundos. Também não procria.
Portanto, não chega nem mesmo a ser uma mulher plena. Sua existência
é a exaltação ao sexo pelo prazer – contrastando
com seu entorno, incapaz de deleitar alguém. Druuna não
é nada além da concretização, ainda que
ficcional, de um velho dito masculino: "Depois que eu comer essa
daí, posso morrer".
Notas
pertinentes:
*
Este artigo teve uma primeira versão publicada no extinto site
Fraude.org, editado por Bruno Galera, dentro de uma série que
analisou personagens de uma forma mais aberta e irresponsável,
a partir de fluxos de consciência. Esses textos estão
sendo republicados no Pop Balões juntamente com ensaios inéditos
que seguem o mesmo modelo.
1.
Por sinal, essa é uma característica do western:
há uma certa lentidão em se rever conceitos. O faroeste
dos quadrinhos geralmente é uma terra idílica em que
índios e caubóis são amigos. Há exceções,
claro, como Ken Parker. Mas ainda são exceções.
2.
Referência ao nada clássico longa-metragem Manobras de
P... e B..., espécie de versão pornô do seriado
mexicano Chaves.
Corra atrás
Druuna
foi editado no Brasil pela Heavy Metal em quatro álbuns especiais
e em um pôster caça-níqueis. Algumas histórias
saíram isoladamente em edições esparsas de Heavy
Metal Brasil. Cate nos sebos.
Edições
estrangeiras podem ser adquiridas na sua livraria virtual preferida.
O
site oficial é www.druuna.net.
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