
FANTASMA: OS 70 ANOS DE UM ESPÍRITO VINGADOR
O
herói clássico de Lee Falk
ainda exerce fascínio nos leitores do século XXI
Adriano
de Avance Moreno(*)
Ele pode estar sumido nos últimos tempos das bancas nacionais,
mas é sempre lembrado por todos aqueles que cultuam quadrinhos
como um dos ícones dos super-heróis clássicos,
e mostra força suficiente para acabar de fazer nada menos do
que 70 anos de sua criação. Trata-se do imortal Fantasma,
mais conhecido como “O Espírito que Anda”. E como
anda: desde que foi criado, e publicado pela primeira vez, em 17 de
fevereiro de 1936, por Leon “Lee”
Falk, então um jovem de apenas 25 anos, o Fantasma
já correu o mundo inteiro, literalmente, seja em suas aventuras,
seja no número de países que já publicaram histórias
do personagem, com raras exceções.
Ele foi o primeiro “super-herói” uniformizado de
que se tem notícia. Mesmo o mágico Mandrake, outro “super-herói”
criado também por Falk, antes mesmo do defensor de bengala,
não usava uniforme, apenas vestia sempre seu elegante terno,
gravata e cartola, como todo distinto cavalheiro que era. O Super-Homem
surgiria em 1938, sendo seguido depois por Batman, Capitão
América, e toda a sorte de heróis que conhecemos até
hoje. Pode-se dizer que foi o pioneirismo do Fantasma que abriu as
portas para todos eles.
Não demorou para o personagem obter fama com suas histórias,
tendo chegado ao Brasil ainda naquela década, sendo publicado
em suplementos de jornais, como o extinto A Gazeta,
e na antiga revista Gibi. A partir do início
dos anos 1950, agora com revista própria, o personagem seria
publicado regularmente até o início dos anos 1990, na
antiga Rio Gráfica e Editora (RGE, atual Editora
Globo). Depois que a Globo cancelou praticamente todas as
suas revistas de super-heróis, iniciou-se uma fase de aparições
irregulares de personagem que dura até os dias atuais, sendo
que as últimas edições nacionais do personagem
saíram já faz quase 5 anos, e de lá para cá
praticamente nada se fez para reeditar o Fantasma no Brasil.
Mas,
se em nosso país os leitores estão órfãos
do personagem, nos Estados Unidos o Fantasma vem ganhando recentemente
um bom tratamento da editora Moonstone, que tem editado uma revista
regular do personagem, além de oferecer as sagas em formato
encadernado para os leitores mais exigentes. Indagados sobre quais
foram os quesitos necessários para se conseguir os direitos
de publicação do herói de Lee Falk, Joe Gentile,
da Moonstone Comics, apenas resumiu numa palavra:
persistência.
Segundo Gentile, as histórias publicadas pela Moonstone não
tem nenhuma seqüência de continuidade com as tiras diárias
do personagem, produzidas pela King Features Syndicate,
proprietária do personagem, e responsável pelo material
que é distribuído para publicação em jornais
do mundo inteiro. A editora ainda publica compilações
das tiras dominicais em edições especiais, permitindo
que os leitores possam apreciar também este tipo de material.
Segundo Gentile, não há como planejar nada conjunto
com o time que cuida das tiras de jornal, razão pela qual não
foi feito nada especial que fizesse coincidir qualquer lançamento
visando o aniversário do personagem nas tiras de jornal.
Chuck Dixon, roteirista do título regular na Moonstone, define
o Fantasma como um conto de múltiplas gerações
de um vigilante misterioso, mascarado que protege as selvas de Bangala,
e cujo título é passado de pai para filho. É
aventura clássica no melhor sentido da palavra, e para Dixon,
isso é o que atrai os fãs do personagem há tantos
anos, classificando a criação de Lee
Falk de verdadeiramente “imortal”. Já Mike
Bullock, que está assumindo a função de Dixon,
considera o personagem o super-herói mais antigo a aparecer
nos quadrinhos oficialmente, com identidade secreta e tudo: “Ele
não ter nenhum poder; apenas confia na sua imaginação,
habilidade e força de vontade para superar os inimigos. E tem
feito isso durante setenta anos, com carisma, valores e motivações
infinitas, e sendo tão atraente hoje como nos antigos anos
1930...”
Para Rafael Nieves, que também roteiriza as edições
do herói, o Fantasma começou com um homem à beira
de morte, que foi poupado, e renasceu como um símbolo de justiça
e proteção, jurando defender as pessoas que o salvaram
e o criaram. Embora baseado na África, ele se tornou um justiceiro
mundial. A característica mais interessante dele é a
idéia que é um ser imortal, com centenas de anos; um
fantasma, um espírito de, se não vingança, de
justiça. O que faz com que sua fama atravesse o tempo e as
gerações. O Fantasma não é o super-herói
habitual, que faz uso de seus poderes para trazer justiça ou
respeito. Ele é um herói profundamente humano, com limites
e contradições. A sua benevolência e determinação
são poderosos, junto com os atributos particulares que o fazem
misterioso. O herói é na verdade uma linhagem inteira
dedicada a combater o crime. Assim como Clark Kent é a identidade
secreta do Super-homem, Kit Walker é o disfarce do Fantasma.
Em seu reino, ele é visto como algo mítico, porque ele
é “O Homem que não morre”. Durante séculos,
houve sempre um Fantasma, assim, parece como se ele tivesse realmente
vivido centenas de anos, quando na realidade, o Fantasma já
são 20 gerações de filhos do original. Sua
existência inteira é focalizada em ser um instrumento
de justiça, e ele é tanto venerados quanto temido. Sua
mística de imortalidade é algo único entre os
super-heróis e, muitas vezes, o temor que o Fantasma incute
em seus inimigos é muito pior para eles do que enfrentar o
próprio Fantasma.
Segundo a Moonstone, o maior desafio é como manter o personagem
atraente para o público atual, o que se consegue mantendo o
foco do personagem fiel à sua verdadeira essência como
conceito de personagem, ao mesmo tempo em que o colocam em novas situações,
sempre com boas histórias. Caso contrário, corre-se
o risco de estagnar o personagem, o que pode ser fatal para a publicação
do título. Para a editora, o fato do Fantasma não desfrutar
de maior popularidade hoje, frente a personagens como Batman, X-Men
e outros, deriva em parte do péssimo trabalho anterior de algumas
editoras, que não fizeram direito a sua lição
de casa com o personagem, erros que garantem que a Moonstone não
repetirá. A editora está comemorando o aniversário
do personagem com o arco Legado, que deverá mostrar
a “origem” completa do Fantasma, em uma história
que é planejada para agradar a fãs de todas as gerações
do herói, algo que muitos nunca viram a fundo até hoje.
Outra publicação especial será Lei da Selva
(Law of Jungle, no original), uma edição especial
em forma de romance gráfico, isto é, não se trata
de um gibi, mas de um livro, contando uma aventura do Espírito-que
Anda, com ilustrações gráficas, onde o personagem
deverá ser observado do ponto de um dos sujeitos “ruins”,
o que deve dar uma perspectiva inteiramente nova, bem como um final
surpreendente, garante Joe Gentile. Para o romance gráfico,
o artista Paul Guinan empregou uma técnica que mistura fotografia,
pintura e desenho, de modo que as gravuras ficassem mais naturais
e realistas possíveis. Não chega a ser um “Alex
Ross”, mas o resultado deve agradar bastante aos leitores.
Outros planos da Moonstone são de aumentar o número
de histórias enfocando justamente o “primeiro”
Fantasma, algo parecido como Batman – Ano 1, em que
o novo justiceiro deverá agir para firmar os primeiros passos
do que seria a lenda do Espírito-que-Anda, pois segundo a equipe
de produção do título regular, poucas histórias
enfocam principalmente este personagem, e muita coisa há para
ser contada, especialmente como a lenda do justiceiro “imortal”
foi criada naqueles tempos selvagens do século XVI. Um filão
para muitas histórias potencialmente boas...
E a editora americana avisa que virão por aí muitas
outras histórias, possíveis novos romances gráficos,
e está sendo até estudado um novo tipo de publicação,
do qual não adiantam detalhes, apenas dizem que os fãs
do Fantasma não perdem por esperar. Àqueles que ainda
lançam dúvidas sobre a força do personagem, a
resposta vem em um dos famosos “ditados da selva” sobre
o personagem: “O Fantasma não falha, ele não é
encontrado, ele encontra as pessoas”, afirmando que, mais cedo
ou mais tarde, os leitores serão “encontrados”
pelo herói de Lee Falk.
Apesar de não freqüentar as bancas nacionais há
algum tempo, a Opera Graphica, editora que detém
os direitos do personagem, planeja sim comemorar os 70 anos do Fantasma.
Foram programados os lançamentos de duas obras especiais visando
ao “aniversário” do “Espírito-que-Anda”:
O primeiro deles é o álbum O Fantasma - Sempre aos
Domingos, publicação que terá o formato
consagrado das publicações feitas com O Príncipe
Valente (26 x 35,5 cm) e que irá publicar as primeiras
páginas dominicais de O Fantasma, nunca antes reunidas em um
único volume no Brasil, com exceção de uma ou
outra, em capítulos, nas décadas de 1930 e 1940. Já
o outro especial será O Fantasma - Biografia Oficial
e, como o nome diz, será uma verdadeira “biografia”
do personagem, contando com uma edição volumosa, coordenada
por Franco de Rosa e com edição de Roberto Guedes, a
partir de pesquisa de Marco Aurélio Lucchetti, também
seu principal redator. A edição desse livro ainda contará
com a colaboração de diversos convidados, como Gonçalo
Junior, Nobuyoshi Chinen, Luiz Sampaio, Iramir Ribeiro, Marcelo Naranjo,
J.J. Marreiro, Marcus Ramone, entre outros. Ainda publicará
depoimentos de Julio Shimamoto, Airon, Oscar Kern, Verde, Primaggio
Mantovi, Rodolfo Zalla, Sidney Gusman e outras feras especializadas
em quadrinhos. O único empecilho é que a editora ainda
não anunciou quando as duas publicações saem,
o que já deveria ter acontecido, uma vez que a data comemorativa
foi no mês de fevereiro 2006.
(*)
Adriano de Avance Moreno
é colaborador autônomo de jornais e revistas especializadas
na área de quadrinhos, animação e afins.