A
garotinha ruiva
Existe uma para cada um de nós*
Por
Eduardo Nasi
A
importância de Charles M. Schulz para o mundo ainda está
para ser mensurada e, sinceramente, me parece improvável
que se possa medir o efeito de pílulas de melancolia
distribuídas diariamente para milhões de pessoas
ao redor do mundo pelos jornais. Ou ainda exibidas nas noites
de domingo do SBT, antes do programa do Trem da Alegria. Essa
análise tem sido realizada por infindáveis artigos
e teses em disciplinas diversas (1). Por hoje, vamos nos ater
à garotinha ruiva.
A garotinha ruiva é o amor de Charlie Brown (2) e uma
das personagens mais marcantes de toda a série Peanuts.
Apesar disso, teve uma única aparição,
no especial de TV "It's Your First Kiss, Charlie Brown",
de 1977 - ainda por cima, contra a vontade de Schulz. Nesse
especial, ela ganha um nome – Heather - e uma personificação.
Contudo, na tira de jornal, a garotinha ruiva nunca apareceu.
É apenas mencionada, vista e admirada de longe por Charlie
Brown, que fica atrás de uma mureta e comenta com Linus:
“Não tem nome: é a garotinha ruiva”.
As conseqüências de um amor distante, idílico
e enigmático podem ser decifradas pelo leitor sem esforço.
É o medo de "chegar", mais uma frustração
da vasta coleção que Charlie Brown montou a partir
de sentimentos ocidentais. Os sofrimentos do jovem Charlie são
muito próximos dos de um certo Werther.
Ocultar
personagens é uma prática comum em Peanuts
(referência ao apelido de Charlie Brown; no Brasil, Minduin).
Os adultos são retratados apenas por suas pernas, como
se seu mundo fosse alto, inalcançável. Esse recurso,
já utilizado em animações como Tom
& Jerry, revigora-se com a inclusão de uma fala
enrolada, incompreensível, na versão animada.
A imagem é semelhante à do Deus hebraico, que
não pode ser visto por humanos em sua grandiosidade e
usa o anjo Metatron para intermediar a comunicação.
Mas, para Schulz, os adultos não são inatingíveis,
apenas enfadonhos e desinteressantes. Quem cresce não
vale a pena se não forem vistos pelos olhos dos pequenos
intermediários.
Pode-se
pensar que, se os personagens entendem a voz dos adultos e nós
não, nós somos diferentes deles. Os adultos emitem
uma mensagem que é decodificada pelos personagens de
Schulz, que retransmitem a nós de uma forma que podemos
compreender. Schulz esboça, enfim, uma parábola
sobre a função da arte para Aristóteles.
A arte é simulação e imitação,
e os personagens nos imitam e simplificam para que possamos
depreender como é a vida dos adultos. De certa forma,
um leitor dos Peanuts nunca será realmente um adulto
(naquele sentido pai de família sério e responsável
do american way of life). Schulz é nosso tradutor (3).
Como
todo grande ficcionista norte-americano, Schulz parece saber
que a maturidade é falsa. Mas, diferentemente dos colegas
que escrevem grandes romances para quebrar os cristais da sala,
Schulz não precisa mostrar o mundo dos adultos. No fim
das contas, é porque ele não existe. O mesmo acontece
com sua garotinha ruiva invisível. O amor perfeito e
idílico, inalcançável, não é
uma realidade para Schulz. Nem para nós, criados à
sua sombra.
NOTAS PERTINENTES: (*) Uma primeira versão deste artigo
foi publicada em uma série de textos que analisaram personagens
de quadrinhos no extinto site Fraude.org. O singelo subtítulo
é do editor do site, Bruno Galera, hoje autor do blog
Big Muff (www.big-muff.org/blog).
(1)
Do jeito que vai, todo o esforço de Schulz parece invalidado
aqui no Brasil por uma banda de rock que, ao se propôr
herdeira de Charlie Brown, faz-se de filho rebelde e lamentavelmente
vai contra tudo o que o pai construiu. Também vale recomendar
aqui a bela leitura que os psicanalistas Mario e Diana Corso
fazem dos personagens - e da garotinha ruiva em si - no livro
Fadas no Divã, lançado no começo deste
ano pela editora Artmed.
(2)
Alguns chamariam esse amor de "platônico", mas
hoje sabe-se que o amor de Platão, tal qual deve caber
a um bom grego, jamais seria dirigido a garotinhas ruivas. Por
que vocês acham que essa grandiosa civilização
acabou?
(3)
Mas convém lembrar que “tradutor” e “traidor”
são palavras com a mesma raiz.