Artistas

Alex Ross

Alex Ross é uma figura muito peculiar no mundo dos quadrinhos. Ele combina o perfil de um criador de obras autorais com uma carreira ligada quase exclusivamente com os super-heróis de maior renome, de propriedade das editoras Marvel e DC. Ross é um artista no sentido mais amplo do termo, pois não se limita a ilustrar belamente histórias em quadrinhos, mas tem grande participação na elaboração dos roteiros da maioria destas obras.

Esse lado criador de Ross é o que o coloca entre os grandes nomes dos quadrinhos contemporâneos. Ele é um dos principais responsáveis pela confirmação da “tendência retrô” que se formou em meados dos anos 90, sendo responsável por duas das principais obras deste gênero, Marvels e Reino do Amanhã.

O amor de Alex Ross pelos super-heróis é conhecido de todos os que acompanham quadrinhos. Ele foi um dos principais militantes pela volta de Hal Jordan como Lanterna Verde, a ponto de declarar “Vencemos” na época do lançamento da minissérie “Renascimento”,  e ainda defende o retorno do Flash Barry Allen, talvez a morte mais bem aceita de um super-herói de todos os tempos.

Seu profundo interesse pelos super-heróis não se resume a questões fúteis sobre cronologia, mas parece ser uma forma de buscar a essência de cada personagem, a sua melhor definição apreensível de toda sua publicação. Todas as histórias em quadrinhos criadas por Ross, com seus vários parceiros, exploram essa essência, às vezes como tema central da obra, como em Reino do Amanhã.

Esta busca parece ser o “grande plano” de Ross como artista de quadrinhos, a sua forma de mostrar todo o potencial da nona arte usando os mesmos personagens que circulam por aí há décadas e sem promover desconstruções na sua caracterização. Aliás, o que Ross faz em suas obras pode ser considerado o oposta da desconstrução promovida nos anos 80 por obras como Watchmen e Cavaleiro das Trevas, pois ele recompõe a figura clássica do super-herói com toda sua integridade e idealismo.

O ponto crucial da carreira de Ross foi justamente Reino do Amanhã, de 1996. Antes ele havia ilustrado Marvels, com roteiro de Kurt Busiek, mas esta graphic novel não demonstrava todo potencial da visão de Ross sobre os super-heróis, e parecia “apenas” uma bela declaração de amor aos primórdios da Casa das Idéias.  Mas com Reino do Amanhã ele e o roteirista Mark Waid mostraram como era possível projetor aquela visão nostálgica para o futuro  e assim criar uma sofisticada alegoria sobre o papel dos super-heróis no mundo.

Ao transpor essa concepção de herói para suas pinturas, Ross também faz algo muito sofisticado. O artista combina efeitos de realismo com referências aos artistas das Eras de Ouro e de Prata, criando figuras muito intrigantes, capazes que prender a atenção do leitor por longos períodos.

O exemplo mais claro é o Capitão Marvel de Reino do Amanhã, calcada no estilo de seu criador C.C. Beck, com as características marcadas da face, como os olhos miúdos, a sobrancelha grossa e o sorriso caricato. Seu físico também é completamente exagerado, como em qualquer quadrinho clássico de super-heróis. Porém, o tratamento da luminosidade, os volumes, as texturas e os tons de pele passam a impressão de realismo.

Por isso Ross não tem imitadores à altura na pintura de HQs. Porque seu estilo de pintar está completamente ligado à sua abordagem específica dos quadrinhos de super-heróis, numa releitura de referências clássicas para tornar estes personagens ainda maiores do que já são. Sem retirar os elementos que fizeram destes personagens, Ross lhes dá uma nova dimensão, aproximando-os do leitor pelo efeito de realismo, de modo que este possa novamente, depois de todas as desconstruções dos anos 80 e 90, se identificar novamente com seus heróis. 

 



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