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Artistas
A
arte de Frank Cho: porque beleza sem charme não é nada

Aqueles que leram as (poucas) obras ilustradas por Frank Cho no Brasil,
certamente o marcaram como um jovem talento capaz de desenhar mulheres
voluptuosas em situações realmente sensuais. Não
que isso seja ruim, nem que o próprio não goste de ser
reconhecido por isso (pelo menos foi o que ele declarou todas às
vezes que lhe fizeram esta pergunta...). Porém, há muito
mais na arte de Frank Cho do que uma releitura de pin-ups na forma de
páginas de quadrinhos.
No texto que fizemos sobre quadrinhos
eróticos já dissemos como anatomia e padrões
de beleza podem se relacionar de maneiras diferentes quando representadas
artisticamente, especialmente no caso dos quadrinhos. Naquele texto,
comparamos os quadrinhos eróticos de mestres como Milo Manara
e Guido Crepax com a representação dos corpos nos quadrinhos
de super-heróis, mostrando como são duas coisas diamentralmente
opostas. Pois uma das qualidades especiais de Frank Cho é justamente
mesclar ambos os estilos com harmonia.
Na verdade, o que ele faz é trazer a concepção
de beleza dos quadrinhos europeus para o gênero de super-heróis,
como pode ser observado nas edições que desenhou de Homem-Aranha
do selo Marvel Knights e na minisséire Shanna,
da linha MAX. O enredo, a ação e os personagens são
todos típicos dos quadrinhos da Marvel, mas o estilo sensual
do artista é um elemento que transforma completamente o resultado
final do trabalho.
Cho não é o único a fundir elementos de outras
"tradições" dos quadrinhos ao mercado norte-
americano. Desde Frank Miller, que bebeu também dos artistas
europeus e dos mangás, até John Romita Jr, que desenvolveu
um estilo pessoal completamente livre dos padrões do mainstream,
muitos outros artistas inovaram e contribuiram com obras realmente interessantes.
Mas convém notar que a leveza e a elegância que caracterizam
as mulheres sob o traço de Frank Cho estão presentes em
outros elementos das suas histórias pouco lembrados pela crítica
e pelo publico. A começar pela expressão dos personagens.
Em Shanna, em meio ao terror que domina a história dos soldados
na Terra Selvagem, é possível sentir o medo e o suspense
expressos nas faces e nos gestos dos personagens. O artista capta estes
sentimentos com a mesma técnica que cria caras e bocas insinuantes.
Além disso, sem recorrer ao hiper-realismo fotográfico,
todos os personagens, os masculinos e nada atraentes, inclusive, têm
detalhes de aparência, pele, vestimentas e acessórios bem
retratados visualmente, dando a cada um existência mais forte
na narrativa. Basta olhar o elenco de apoio composto apenas de barbados
desta mesma série e ver como qualquer um deles parece mais bem
definido visualmente do que muitos personagens de outras revistas.
Sem contar que Cho ainda deu conta de fazer uma história de ação
alucinante com monstros muito bem caracterizados e uma narrativa visual
muito competente.
Vendo alguns dos outros trabalhos que o desenhista está para
lançar nos EUA fica mais fácil apreciar este outro lado
menos perceptível de sua arte. Ele colaborou com a Marvel na
retomada de sua linha de quadrinhos românticos para o público
feminino (que existiam na década de 60) e vai estar ao lado de
Brian Bendis na nova revista Mighty Avengers, que deve ser lançada
no começo de 2007.
Ao lado de Bendis, principalmente, a habilidade de Cho para captar gestos
e expressões carregadas de sutilezas deve ser explorada a fundo,
tendo por base os roteiros que estamos acostumados a ver em séries
como Demolidor, Alias, Homem-Aranha Millenium e Novos
Vingadores. Então, quem sabe, ele poderá fixar seu
nome como o grande artista que é, superando os preconceitos de
quem lê.
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