Artistas

Entrevista: Fábio Moon & Gabriel Bá

Quanto mais admiramos o trabalho de um determinado artista, mais nos interessamos, como fãs e também como artistas iniciantes, pelas suas opiniões sobre a arte e o mundo de suas criações. Poucos satisfazem essa curiosidade com boa vontade e demonstram prazer nessa conversa. Nós encontramos isso ao entrevistar Fábio Moon e Gabriel Bá, na linda casa onde cresceram e hoje lhes serve de estúdio.

Quase dez anos depois de começar sua carreira com o fanzine 10 Pãezinhos, hoje os gêmeos da Vila Madalena dão mostras de que atingiram a maturidade artística mas não abandonaram o entusiasmo do fã e do artista independente. Eles discutem com prazer sobre seu trabalho, o mercado e as experiências ao longo da carreira e demonstram muita sensibilidade para refletir sobre tudo isso sem cair no lugar comum. E eles fazem isso todos os dias no blog, nos quadrinhos, nos seus cursos e palestras, porque eles são contadores de histórias em tempo integral.

Nesta entrevista, Moon e Bá dão uma explicação muito interessante sobre o que é ser independente no Brasil e como os elementos da nacionalidade podem ser transportados para seus quadrinhos.

 

Pop: Vamos começar falando sobre desenho. Vocês já disseram em entrevistas que começaram lendo Superaventuras Marvel, que tinha um desenho mais clássico e acadêmico. Geralmente o pessoal que começa fazendo fanzine busca seguir esse desenho tradicional, mas vocês não. Quando começaram, já tinham um traço diferente, um estilo. Por que isso?

Fábio: Eu acho que pode ser culpa da Mad. Você pega a revista Mad e tem todos esses tipos de desenhista na mesma revista. Não era exatamente super-herói e a gente conheceu a Mad antes de conhecer super-herói. E a gente meio que copiava todos esses estilos. A gente fazia versões da gente, que nem o Don Martin, ou fazia aqueles desenhinhos de borda de página que nem o Aragonés e ficava fazendo Spy Vs. Spy branco Vs. Spy Preto Vs. Spy Roxo Vs. Spy vermelho.

Eu acho que por começar a desenhar mais nessa época que a gente estava conhecendo Mad a gente começou a desenhar em todos os estilos possíveis. Disso a gente pulou para a Chiclete com Banana, Piratas do Tietê e Geraldão. E o Glauco desenha diferente do Angeli que desenha diferente do Laerte, também eram todos estilos diferentes. Então a gente começou a desenhar muito mais influenciado por isso do que pelos Super-heróis que a gente estava lendo. A gente lia os super-heróis mas não desenhava os super-heróis. A gente desenhava mais essas coisas assim, que era onde tinha as pessoas normais.

Pop: Por que tem essa tendência de se começar pelo desenho acadêmico?

Gabriel: Eu acho que ele é meio que a base. Você tem que começar e entender a base clássica, uma construção de anatomia e de profundidade, para depois poder escolher estilizar. Porque aí você vai ter mais ferramentas e conceitos na hora de estilizar e isso vai ser uma escolha. Se você começa às vezes muito estilizado, você salta esses conceitos e parte de algo que já chegou em você pronto. Então eu acho que é legal você estudar um pouco da base para depois poder estilizar. Porque no final, talvez não fique visível, mas vai fazer diferença. Quem tem a base faz diferença na hora de fazer um desenho mais estilizado.

Pop: Vocês têm um estilo próprio e, ao mesmo tempo que falam que o desenhista tem que buscar seu estilo, falam que ele tem que aceitar vários tipos de trabalho para ganhar dinheiro. Vocês, por exemplo, estão sempre fazendo ilustrações para a Folha de S. Paulo. Como é isso de ter um estilo e ter que vender o trabalho?

Fábio: Na verdade, nos trabalhos que a gente faz que não são quadrinhos, de certo modo, a gente tem que desencanar de certos aspectos do nosso estilo. Porque tem muitas coisas que em quadrinhos podem ficar subjetivas que talvez em ilustração não possam, têm que ficar mais objetivas. Então para isso a gente tem que mudar o desenho, fazer alguma coisa que funcione mais para jornal, se for uma revista para criança tem que dar uma infantilizada no traço. Os trabalhos que não são de quadrinhos, são de ilustração, a gente tenta buscar o que é melhor para o trabalho, para o veículo em que o desenho vai sair.

De certa forma é bom, porque é um lugar em que a gente pode desenhar de um outro jeito. Se a gente tem vontade de fazer um desenho infantil, não vamos fazer uma história em quadrinhos infantil, mas fazer uma ilustração para um revista infantil já supre essa necessidade. Depende mais de ter que contar umas coisas do jeito que as revistas pedem, que o jornal pede e como não é quadrinhos, não é o que a gente faz...

Gabriel: Não vai ser um sacrifício.

Fábio: Não vai ser um sacrifício. Pelo contrário. Não estou sacrificando minha visão de quadrinhos porque o meu desenho tem que ser fofinho em uma revista de crianças... é uma revista de crianças, o desenho tem que ser fofinho.

Pop: E vocês gostam desses trabalhos mais direcionados?

Fábio: Alguns sim, alguns não. Porque às vezes o ruim não é nem tanto ter que mudar o estilo na hora de fazer o trabalho, é o tanto de liberdade que se tem na hora que criar o trabalho, o quanto parece que aquela ilustração é a nossa opinião sobre o assunto ou se é só para preencher espaço, para ilustrar de uma maneira didática e chata o que está escrito. Aí quanto mais didático e chato, pior para fazer.

Pop: Vocês começaram a publicar nos EUA o seu material autoral e agora estão ilustrando histórias dos outros. Como é isso de ilustrar o trabalho dos outros? O que é melhor?

Gabriel: Melhor seria fazer só as nossas histórias, mas é o mais difícil, é o que demora mais, é o que tem menos abertura, então para possibilitar isso a gente também pega para ilustrar história dos outros. Para continuar trabalhando, o que é bom. Porque se você não está trabalhando, não está produzindo sempre, meio que empaca o seu estilo, acaba se estagnando. E também para chamar atenção para as suas histórias. Se você está sempre trabalhando, fazendo alguma coisa, você está aparecendo na mídia, no mercado, sendo falado. Daí, quando a gente tem a oportunidade de fazer as nossas histórias, já tem a atenção deles. É meio por isso que a gente reveza.

Pop: Existe uma imagem do artista brasileiro? Algo do gênero: Se você é brasileiro vai fazer esse tipo de história?

Gabriel: Não. Não, porque ninguém sabe muito quem é brasileiro.

Fábio: Os brasileiros que desenham super-heróis, muita gente não sabe que eles são brasileiros. Muita gente não sabe que Roger Cruz é brasileiro, que o Deotado é brasileiro. Que ...

Gabriel: Luke Ross

Fábio: Luke Ross, Joe Benett...

Gabriel: Ed Benes...

Fábio: Ed Benes, Ed Barrows, ninguém sabe que eles são brasileiros.

Gabriel: Não é isso que exploram lá. Porque a gente tem uma visão muito maior disso, a gente é muito ufanista. E não é como por exemplo... Ronaldo. Ronaldo, fenômeno, jogador brasileiro, Ronaldinho Gaúcho. No futebol é um negócio muito explícito, as pessoas sabem que apesar de jogar em clubes do exterior, o jogador é brasileiro.

Nos quadrinhos não acontece isso. Ainda mais porque todos esses desenhistas estão fazendo a mesma coisa que todos os outros fazem, estão desenhando o X-Men, o Homem-Aranha, o Super-Homem. No nosso caso é um pouco diferente, porque a gente não está fazendo nada disso. A gente está fazendo as nossas histórias que se passam em São Paulo. Então...

Fábio: Então lá nos EUA as pessoas sabem que a gente é do Brasil. Entra até no exótico. "São artistas brasileiros, contam histórias do Brasil".

Gabriel: “Têm um estilo diferente”.

Fábio: Junta tudo. Mas dos outros eles nem sabem.

Pop: Vocês têm uma coisa diferente. Vocês falaram de ufanismo, de fazer histórias do Brasil, mas vocês têm um instinto de nacionalidade, mas sem ser exatamente exótico. Suas histórias podem acontecer em qualquer lugar.

Gabriel: É, a gente conta histórias que podiam se passam em qualquer lugar porque a gente não quer limitar. Mesmo contando histórias que se passam na Vila Madalena eu quero que alguém de qualquer lugar possa entender, que alguém que more fora também possa entender. No caso, a Vila Madalena vai dar uns elementos a mais para a história, mas ela tem que sobreviver sem isso, tem que sobreviver em qualquer lugar. O importante são os personagens, com o que eles estão lidando. A gente tenta fazer isso, não uma história ultra-regionalista, que só vai ser entendida aqui, em um lugar específico.

Pop: O Meu coração não sei porque tem muitos elementos nacionais. As citações do Guimarães Rosa, o próprio nome, que é uma música do Pixinguinha. Como foi transferir isso para outros países?

Fábio: Você vê que o nome mudou porque não fazia sentido em inglês. Aí pegou mais, como era uma história mais lúdica...

Gabriel: De amor...

Fábio: De amor, então colocou Ursula, para atrair o público feminino, atrair esse tipo de gente. Mas as citações traduzidas funcionam como citações. Perde a brincadeira com a língua, mas funcionam. Então eu achei que funcionou. Mas tem isso também, quando você vai muito em uma referência nacional, como o título, você tem que acabar mudando.

Pop: E foram vocês mesmos que fizeram a preparação do material, a tradução?

Fábio: A gente fez a tradução da versão em inglês de quase tudo e eles deram uma revisada. Em inglês dá para fazer isso, mas depois fizeram Ursula em italiano e a gente não tem nada a ver com a versão italiana, porque a gente não fala italiano.

Pop: Vocês estão tendo todo esse sucesso lá fora, então por que continuar como independentes no Brasil? Porque continuar com os Dez Pãezinhos?

Fábio: Ué, por que como é que as pessoas aqui vão ler o que a gente faz? A gente faz as histórias para as pessoas lerem. Não adianta virar o artista obscuro que ganha dinheiro publicando fora. Eu não faço história para ganhar dinheiro, eu faço histórias para as pessoas lerem. Se puder ganhar dinheiro com as histórias poderia fazer só isso, o que é bom.

Não adianta também só conseguir publicar nos EUA se a maioria das pessoas que já acreditaram no nosso trabalho quando a gente começou aqui não vai poder ler. E aí o mercado brasileiro tem essa realidade. Se você faz um trabalho fininho, tem que ser uma revista, não dá para ir para a livraria. Só que as editoras que publicam material nacional não publicam revistas, elas publicam os livros que vão para as livrarias, para a Comix, as lojas especializadas.

Então vale mais a pena a gente se auto-publicar. A cada vez que temos 20 páginas, fazemos uma revista. Não dá para fazer um livro, faz uma revista. Porque as pessoas que lêem o nosso trabalho vão achar, vão ter acesso. Se não tem que esperar três anos para que essas 20 páginas se juntem com outras 20 e outras 20 para fazer um livro. Então a gente continua publicando aqui porque a gente quer que as pessoas aqui leiam. Minha mãe não fala inglês, mas ela lê quadrinhos. Eu continuo comprando gibi de super-herói em português para minha mãe ler. Eu continuo publicando em português para minha mãe ler, para que todas as pessoas que lêem continuem lendo.

Gabriel: A idéia não é migrar e desaparecer daqui.

Pop: Mas o que acontece no mercado nacional? Não tem espaço? É mais fácil ser independente?

Gabriel: Todo mundo é independente no mercado nacional...

Fábio: Até quem publica em uma editora.

Gabriel: Não é porque você publica em uma editora. Todo mundo é independente. Independente é o que não depende de nada para fazer. Você faz porque você quer, porque você gosta. Aí você tem um contato com uma editora ou leva o trabalho para uma editora que vai publicar. Mas, o que você vai ganhar com a venda dos livros não vai ser nada. Então ninguém faz por dinheiro também.

É um grande mercado independente aqui. Mesmo sendo com editora. A editora da uma infra-estrutura de distribuição, divulgação. Ela arranjar umas palestras e viagens de vez em quando, participa de feira do livro. Mas a questão de venda do material que você monta é tudo igual. Por isso que às vezes a gente lança as revistas. Porque não é um livro e é mais fácil para gente lançar nos mesmos, vale mais a pena e a gente não vai deixar de lançar por causa disso. Mas, cada projeto grande a gente tem que mandar para as editoras, porque é o jeito de publicar histórias grandes aqui. Mas, no fundo, é a mesma coisa.

Pop: E a questão de se ter uma publicação organizada. Ter a obra preservada em uma biblioteca. Vocês acham mais importante estar soltando as revistas ou ter o material registrado para a posteridade?

Fábio: Eu acho que as duas coisas são importantes. Mas não dá para esperar ter um material para ter livro e só. Senão você desaparece do mercado. E nem tudo funciona melhor em livros. Elas funcionam em pequenos formatos. E aí, se elas sobreviverem ao tempo, elas podem entrar em uma coletânea posterior, que vai em um livro posterior e aí sobrevive na biblioteca.

Pop: E os fãs brasileiros e os fãs lá fora? Têm diferenças? Onde vocês se sentem bem acolhidos?

Fábio: A gente se sente bem acolhido aqui. Aqui a gente tem muito mais fã do que lá fora. Fãs, sei lá, verbais. Porque se for ver as vendas, De: Tales vendeu mais do que nossos livros aqui. Então a gente pode ter mais fãs lá fora, mais gente comprou nossos livros lá fora do que comprou aqui. Mas aqui eles gostam do nosso trabalho, eles comentam o nosso trabalho, pedem mais coisas.

Gabriel: Aqui a gente publica há mais tempo. Tem uma base maior de fãs. As pessoas conhecem melhor o trabalho, já viram mais histórias. Mas os mercados são diferentes. Lá o mercado é maior, então, sei lá, os fãs, eles tem mais... receptividade para algo novo, que é o que a gente é. Mas é mais ou menos o que acontecia quando a gente começou a publicar aqui. A gente era novo e as pessoas falavam, tinha uma boa receptividade, a gente recebia carta, e-mail. Só que aqui a gente já tem os fãs que acompanham o trabalho há alguns anos e isso é mais legal do que as pessoas que só acompanham porque é uma novidade. Isso é legal, os fãs que ficam.

Pop: Nesses anos de trabalho o que mudou na produção das histórias?

Gabriel: Acho que a seriedade. A gente ficou mais sério. O que complica um pouco as coisas, porque a gente não faz mais só por fazer ou de qualquer jeito. A gente pensa muito em o que vale a pena ser feito. O que não vai ser só mais uma história, só mais um livro. Porque como demora muito, a gente tenta afunilar, escolher melhor os projetos que a gente quer fazer. Por outro lado, a gente tem produzido mais, cada vez mais, com esses trabalhos que a gente faz para fora. E isso é bom, nosso estilo está melhorando, está ficando mais rápido, mais profissional.

Acho que é mais isso. Acho que é um processo de profissionalização. O jeito que a gente encara o trabalho. O jeito que a gente leva o trabalho todos os dias, tem prazo, tem que entregar. É muito mais do que só o lado legal de estar fazendo quadrinhos e é o que eu gosto de fazer e é tudo uma festa. Não é uma festa. É legal, mas é um trabalho, nosso trabalho. E é algo que a gente tem que lutar para continuar fazendo e é isso que a gente tem que continuar a fazer.

Pop: Os dois primeiros álbuns, O girassol e a lua e o Meu coração não sei porque eram bem mais lúdicos, mais metafóricos. Os trabalhos atuais são mais cotidianos, prosaicos. Porque essa mudança?

Gabriel: Então, O girassol e a lua e o Meu coração não sei porque são as nossas histórias mais surreais, talvez. Eles são essas histórias que podem acontecer em qualquer lugar, sem uma cidade específica, com os personagens com uns nomes estranhos. Depois do Meu coração não sei porque a gente quis meio que investir nisso que a gente falava que a gente fazia, que era meio que contar histórias de pessoas reais, do dia-a-dia. Então, sem um elemento estranho. Não falar que a gente faz isso e ficar contando histórias de serial-killers, de fadas, de reis. Então a gente tentou contar umas histórias mais cotidianas, com personagens mais reais, mais pés-no-chão. Porque essas histórias surreais são mais longas, elas têm elementos para virar uma história maior e a gente estava produzindo umas histórias curtas. Então a gente tinha que colocar mais os pés no chão e focar no que a gente queria contar em cada história curta.

Mas... eu não sei também, a gente está amadurecendo. A gente não pode mais contar uma história só por contar uma história. Então, mesmo quando a gente olha para O girassol e a lua e Meu coração não sei porque, pensar em recontar essas histórias, ou fazer uma seqüência, ou pensar uma história que tem os mesmos personagens é muito mais complexo, teria muito mais elementos hoje em dia do que teve dez anos atrás. Porque a gente não consegue mais fazer umas coisas tão simples, tão ... é isso, só por isso. O que não desmerece aquelas histórias. Foram feitas do jeito certo na hora certa.



Como a conversa está muito boa... a entrevista continua aqui, onde os irmãos falam das histórias que os marcaram, o que eles acham de quadrinhos de heróis, para onde vai o mercado, além de música e muito mais...

 

 

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