Artistas
Entrevista:
Fábio Moon & Gabriel Bá
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Pop:
Por que quadrinhos?
Gabriel:
Acho que porque a gente gostava de desenhar. Porque a gente sempre
gostou de histórias, de contar histórias. Não
sei se foi a melhor história que eu já li, mas a
que mais me marcou foi Capitães de Areia (romance
de Jorge Amado). Porque eu gostei daquele negócio, daqueles
moleques em salvador. Não era aquela coisa da Bahia que
a gente via nas novelas, era uma gangue de moleques, bandidinhos
e Pedro Bala estupra uma menina na praia. Me marcou, sei lá,
tinha quatorze anos.
A
gente sempre gostou de contar histórias e a gente sempre
gostou de desenhar. Então uma coisa sempre caminhou junto
com a outra. E a gente foi fazendo quadrinhos, quadrinhos e nunca
parou para pensar: "vamos fazer outra coisa".
Fábio:
Nessa época em que a gente leu Capitães de Areia,
foi mais ou menos a época em que a gente começou
a ler super-heróis, justamente quando começaram
a sair os "super-heróis sérios". Foi quando
saiu Watchmen, Cavaleiro das Trevas, que a gente,
descobriu Will Eisner, então você
estava lendo umas histórias sérias nos livros e
estava lendo umas histórias um pouco mais sérias
nos quadrinhos. Aí você via que essas histórias
sérias podiam ser contadas em quadrinhos. Você conta
em quadrinhos e as imagens ficam na sua cabeça. Sabe, por
mais que adore Capitães de Areia, eu lembro muito
mais das imagens do Watchmen, de Cavaleiro das Trevas,
do Edifício, do que de Capitães de
Areia. Quadrinhos também convidam quem lê a
ler de novo. Você lê muito mais a mesma história
em quadrinhos que você gostou do que o livro que você
gostou. Você vai ler de novo, inteiro, você não
vai ler só aquela parte que você gostou.
Então
esse grude que uma boa história em quadrinhos dá
em você, acho que deu na gente a vontade de fazer quadrinhos.
E meio que foi por isso que a gente resolveu fazer quadrinhos,
para contar histórias que grudem. E não é
o fato de ter super-heróis. Eram outras coisas, coisas
que a gente lia nos livros que grudavam na gente e a gente queira
fazer aquilo.
Demorou
para a gente perceber que era aquilo que a gente queria fazer
nas histórias, porque a gente lia tudo de quadrinhos. Então
a gente lia quadrinhos de super-heróis e queria desenhar
quadrinhos de super-heróis, mas desenhando quadrinhos de
super-heróis a gente não conseguia fazer aquilo.
Grudar. E quando a gente conseguiu contar uma história
com pessoas, com drama, que tinha emoções, que as
pessoas se relacionavam com os personagens, aí começou
a grudar. Aí a gente percebeu... "Ah, era aquilo que
eu queria fazer!". Foi aí que a gente decidiu que
ia fazer quadrinhos, quando grudou. Eu acho que isso que é
legal em quadrinhos. E por isso que a gente faz quadrinhos.
Por
causa dessa parte de grudar, de criar a imagem, mas não
todas as imagens, não é um filme ou um desenho animado.
Você cria algumas imagens, usa algumas palavras. Mesmo assim
você deixa algumas coisas para os leitores montarem um quebra-cabeça.
Isso cria uma interatividade com o leitor, que é por isso
que eles gostam de quadrinhos. Porque eles estão lá,
tendo que resolver os quebra-cabeças. Você está
lendo, imaginando, pensando o que vai acontecer no próximo
capítulo, aí chega o próximo capítulo
e acontece uma coisa que você não estava esperando
e esse tipo de coisa, esse tipo de história, dá
para montar em quadrinhos muito bem e a gente queria fazer isso.
Pop:
Você falou em grudar no leitor. Você acha que ainda
funcionam personagens como o Batman ou o Homem-Aranha, que estão
aí há mais de sessenta anos em uma história
meio que sem fim?
Fábio:
Eu acho que não. Eu acho que existe até hoje meio
que pelo vício. As pessoas têm essa coisa do capítulo
de continuar, continuar, continuar, que as pessoas se viciam,
se acostumam. Aquilo elas já conhecem e querem que continue
assim. Acho que quadrinhos de super-heróis hoje em dia
existem para dar dinheiro para as editoras. As editoras sabem
que vão ganhar dinheiro nesse vício dos leitores,
então os personagens continuam por causa disso. Porque,
se não, eles iam acabar e as histórias iam acabar
e eles iam criar outros personagens que também iam acabar.
Só que isso é mais difícil do que continuar
na fórmula que você sabe que dá certo. Então
eles continuam com esses personagens do mesmo jeito. Então,
de vez em quando sai uma história legal do Batman ou do
Homem-Aranha. Mas não
é sempre, a maioria é assim, vamos continuar só
com a mesma fórmula, só para continuar. Só
porque criou esse vício, esse costume. Não é
porque a história é legal. O problema que eu vejo
nos super-heróis é que não é mais
um gibi criado para contar histórias, é um gibi
para vender revistas. A história ficou meio que no segundo
plano e eu acho isso ruim.
Sabe,
eu gosto de histórias que continuam. Eu gosto de Sherlock
Holmes, de ter o próximo livro do Sherlock Holmes,
só que uma hora acaba. Eu adoro Bone, mas depois
de dez anos acaba. História precisa acabar, para as pessoas
terem a sensação de que eu acompanhei essa jornada
e essa jornada acabou. Para ter um porquê. Meio que não
tem mais um porquê, o X-Men já lutaram com
todo mundo. Não tem mais porque continuar com X-Men.
E as histórias vão se repetindo e os personagens
cometem os mesmos erros, sabe, não aprendem nada, esquecem
tudo. Não dá, não é assim. A gente
tem que aprender com a vida.
Pop:
Nos EUA tem se solidificado esse mercado indie. Essa cara da nova
Image, que é mais ou menos onde vocês tem se encaixado.
Vocês acham que esse material faz falta no Brasil? Teria
espaço para isso aqui?
Gabriel:
Olha, nos EUA é um negócio um pouco diferente, pelo
que a Image era quando surgiu e o que ela é hoje, esse
lugar que meio que banca uns projetos independentes. Só
que independente bonito, não independente sujo, underground.
Tem que ser independente bonito, limpinho. Mas ela banca uns projetos,
então ela não é aquela Image que nasceu na
década de 90.
Agora,
foi o que eu falei, aqui tudo é quadrinho independente
e lá nos EUA tem vários núcleos de tipos
de quadrinhos. Então esse negócio de quadrinhos
independentes é um mercado grande, dentro do mercado enorme
que é o americano. E aqui não, o mercado é
um só e é pequeno. Aqui, meio que cada coisinha
é representada por um ou dois caras no máximo. É
que nem os quadrinhos de zumbi nos EUA hoje em dia. Então
você pode fazer um monte de quadrinhos de zumbi, vai ter
melhores ou piores, mas vai ter mercado para isso, vai ter um
monte de leitor que gosta de quadrinhos de zumbi. Quadrinhos medievais,
tem um monte de gente que gosta de quadrinhos medievais, que gosta
de RPG, Senhor dos Anéis. Então tem um mercado para
isso. Aqui por mais que exista um mercado de RPG legal, não
tem mercado para quadrinhos de RPG, não é uma garantia
de venda. Se você fizer um quadrinho de futebol aqui, não
vai vender. É um mercado que existe, mas não para
isso. Eles querem ver jogo, comprar figurinha, comprar Placar.
E lá não, lá tem vários pequenos mercados
que sobrevivem, que crescem, que se sustentam.
Aqui
cada tipo diferente de quadrinho é meio representado por
uma pessoa só. Então não tem ali nenhum grupo
de artistas que pode se unir e batalhar por aquele tipo de histórias
de que eles gostam, nem público suficiente para isso. Então
vira meio todo mundo independente e cada um por si. O que une
é que todo mundo faz quadrinhos. Porque cada um está
fazendo meio que uma coisa diferente. O que a gente faz é
diferente do Allan Sieber, que é diferente do Mutarelli,
que é diferente do Lellis, que é diferente do Samuel
Casal, que é diferente do pessoal da Ragú, que é
diferente das tiras que saem na Folha. É tudo diferente.
E não tem várias pessoas em cada um desses grupos.
Não tem várias pessoas que fazem o que a gente faz,
que fazem o que o Allan faz. O que mais tem aqui é humor.
Então juntar as pessoas em um grupo: "Esses fazem
humor", é natural, é o maior grupo que tem,
mas não se mantêm.
Pop:
E porque você acha que o humor predomina?
Gabriel:
Humor predomina em tudo. Predomina na TV, no cinema, nos quadrinhos.
Essa... meio ...
Fábio:
... luta...
Gabriel:
... luta com...
Fábio:
... a tragédia... rir para não chorar.
Gabriel: Rir para não chorar. A história
do Brasil é o rir para não chorar.
Fábio:
Era uma coisa mais irônica, sei lá, Nelson Rodrigues
era mais irônico. Mas aí chegou a Ditadura, as pessoas
tinham que ser mais escrachadas porque a ironia era censurada.
Então as pessoas começaram a ser engraçadas,
fazer piada e aí ficou. Tradição de tirar
sarro dos problemas.
Gabriel:
É o que vende. Ninguém quer ver gibi de tragédia,
ninguém quer ver novela onde só tem coisas tristes.
As pessoas vivem coisas tristes. Eles querem ver as pessoas se
casando, rindo e felizes. Então no final da novela das
oito, que é a mais "séria", todo mundo
tem que ficar feliz e casando e o mal vai se dar mal. É
impensável fazer uma novela que as coisas dão errado,
dão errado e terminam mal. Não é o que as
pessoas querem. Elas querem que as coisas acabem bem.
Então
o que mais vende é o humor, que é engraçado,
tirar sarro da tragédia, da tristeza. É por isso
que é o que mais tem, eu acho.
Pop:
O que vocês acham que faz uma boa história?
Fábio:
Acho que tem que ter bons personagens e ter um bom fim. Tem que
ter fim. Se não tem fim não é boa.
Pop:
E é isso que as pessoas querem?
Fábio:
Elas querem, porque querem saber como acabam as coisas para elas.
Como eu vou resolver isso? Para onde que minha vida vai? Que que
eu vou fazer? Como acaba? Acaba bem? Elas querem que acabem bem.
Ou, mesmo quando acaba mal... acabou mal por causa disso, disso,
disso, então se eu quiser que acabe bem eu posso fazer
de outro jeito. É isso que as pessoas querem, respostas,
soluções. Por isso as histórias precisam
acabar.
Bons
personagens é isso também. Personagens que tenham
estofo, conteúdo...
Gabriel:
Têm que tomar decisões que pode acabar bem ou acabar
mal.
Pop:
Vocês tiveram uma formação tanto acadêmica,
em faculdade, quando em cursos livres de desenho que eram mais
no estilo de oficinas, com vocês lá desenhando, e
hoje vocês dão aula. Como são as aulas de
vocês?
Fábio:
Quando a gente dá aula, a gente tenta evitar uma aproximação
mais assim: "Desenho é assim, história é
assim, roteiro se escreve é assim e essa é a fórmula".
Fazemos mais: "Pense no que você está fazendo".
Que é o que a gente aprendeu com o Taki (Domingos
Takeshita), quando a gente estava fazendo o curso, quando
a gente estava no colegial, que foi também o que a gente
aprendeu na faculdade, que eu acho que faz mais diferença
do que uma aula técnica. Essas razões por trás
do desenho são o que a gente acha que faz mais diferença,
é o que a gente dá mais valor, que a gente acha
mais legal passar para as pessoas. Porque no final, a parte técnica,
cada um vai escolher a sua, não tem o nosso jeito.
Mesmo
quando eu dei o curso de preto-e-branco era muito mais pensar
o porquê daquele preto ali, daquele branco ali. Você
vai fazer uma luz e sombra, o que quer dizer, no que vai ajudar?
O que acontece quando duas áreas pretas se unem, o que
o contorno faz. Era muito mais o porquê por trás
do que só a técnica. Isso torna a aula mais difícil
e por isso que a gente dá tão poucos cursos. Porque
a gente tem que pensar muito para o que a gente fala fazer sentido
para pessoas que estão em diversas etapas de um caminho
de aprendizado. O público que pede por aulas é muito
heterogêneo, muito diferente. Então gente quer tentar
passar algo que cada um possa entender.
Gabriel:
Sei lá, a gente é meio ambicioso nesse sentido,
querer agradar a todos.
Pop:
Tem uma tira do Gabriel no blog de você desenhando e ouvindo
música. Então, o que vocês ouvem?
Gabriel:
A gente ouve rock, desde Beatles, Rolling Stones, Led Zepellin.
Rock mais antigo e coisas mais atuais como Strokes,Franz Ferdinand,
Artic Monkeys, Clap Your Hands and Say Yes, mais essa linha hoje
em dia do rock mais alternativo britânico. E sei lá,
samba, Cartola...
Fábio:
Chico Buarque, Zeca Pagodinho... samba.
Gabriel:
Meio que muita coisa. A gente gosta de música clássica,
trilha sonora de filme, música que dá um clima.
Fábio:
A gente gosta muito de ritmo e de harmonia. Então se tem
um bom ritmo e uma harmonia, tem uma chance de agradar, se não
tem isso é muito difícil da gente gostar.
Gabriel:
Dificilmente a gente vai gostar só pela letra. Não
é uma poesia, não estou lendo, estou escutando.
Por isso que não gosto de Arnaldo Antunes, não é
poesia concreta, é música.
Fábio:
Hoje não tenho paciência para vários rocks,
a coisa fica meio barulhenta. Gosto de coisas mais melódicas,
gosto de jazz das Big Bands, gosto de tangos, mas não tenho
muitos cd's. Gosto muito de músicas cantadas por mulheres,
só que mulher tem que cantar bem. Eu tenho uma queda por
isso e às vezes isso desvia para umas coisas meio pop.
Eu acho voz de mulher boa para cantar músicas. Eu presto
muito pouca atenção nas letras, posso até
gostar da letra, mas eu me prendo mais na melodia. Por isso se
a música é muito barulhenta, muito gritada, eu não
consigo prestar atenção. Por isso eu não
gosto muito de Rap, hip hop, só se o hip hop for mais melódico.
Pop:
Vocês estão tendo tempo para ler alguma coisa?
Fábio:
Mais ou menos, eu consigo ler uns dois livros por ano, mas essa
segunda metade do ano eu não estou conseguindo ler nada.
Por que eu estou adaptando o Alienista do Machado de Assis, então
eu tenho que ler o Alienista de novo e de novo para fazer o roteiro.
E ficar lendo para encaixar as coisas, isso tem que monopolizar
minha mente.
Pop:
Vocês participaram daquele concurso Literatura para Todos
e não teve ganhador de quadrinhos. Por que?
Fábio:
É que quadrinhos... eu acho que quadrinhos, eles pensavam:
"Existe quadrinhos? Existe, mas ninguém lê".
Então eles colocaram junto em outra categoria com peças
de teatro , esquetes de TV e sei lá, um monte de coisas
juntas e ai ganhou uma peça de teatro. Mas a história
está aí, vai sair pela Devir, uma história
de 48 páginas. Quando a gente tem uma história de
48 páginas dá para fazer um livro, então
equilibra essas coisas. Não importa que a gente não
ganhou o concurso, a história está pronta, só
falta terminar de editar e encaixar no cronograma de lançamento
da Devir. Deve sair ainda esse ano.
Pop:
Vocês freqüentam fóruns de discussão
na internet, como o MBB?
Fábio
e Gabriel: Não.
Gabriel:
Mas isso é engraçado, o Fábio participa de
fóruns americanos, porque você (falando para o irmão)
não participa desse? É a mesma coisa. É igual.
Fábio:
Eu sei que é igual. Mas eu acho que eu tenho coisas para
descobrir sobre como funciona o mercado americano e não
é minha preocupação aqui. Aqui eu já
estou dentro do mercado, minha preocupação aqui
não é saber como o mercado funciona é contar
uma boa história. Por isso que eu não fico em fórum
aqui e fico lá, para entender coisas que eu não
sei.
Pop:
Uma vez eu usei vocês como um exemplo em uma discussão
em um desses fóruns sobre como começar em quadrinhos,
mas daí as pessoas não aceitavam. Vocês viraram
carta fora do baralho. Para eles vocês não estão
mais lutando, já venceram. Vocês sentem isso?
Fábio:
Não. Pode parecer que sim. Para quem vê de fora pode
parecer que "vencemos na vida dos quadrinhos", mas não.
É muito mais difícil do que parece.
Gabriel:
Continua tudo meio igual, só é muito mais difícil
produzir hoje em dia, porque a gente se cobra mais, as pessoas
cobram mais da gente. Mas as dificuldades são as mesmas.
Fábio:
Não é porque a gente tem 3 ou 4 livros publicados
aqui que a gente sobrevive de quadrinhos. A gente continua fazendo
story board e ilustração para ganhar dinheiro,
porque os quadrinhos ainda não dão dinheiro.
Gabriel:
Não é porque a gente publicou um livro nos EUA que
a gente é autor consagrado e certeza de venda.
Fábio:
Nada garante que a gente vai publicar outro. Para a gente publicar
outro livro a gente tem que convencer os editores a publicar outro
livro.
Gabriel:
Não é só fazer e publicar.
Fábio:
A gente tem que fazer, mostrar para eles e eles têm que
gostar.
Gabriel:
Porque eles levam a parte do negócio a sério. Para
eles é um negócio. Se não valer a pena publicar
por um motivo, ou econômico ou outro, eles não vão
publicar. Então tem que fazer esse esforço de ter
que fazer valer a pena e isso continua tão difícil
quanto era antes.
Pop:
Vocês têm uma proximidade com o Laerte. O que vocês
acham do que ele está fazendo hoje nas tiras diárias
na Folha?
Fábio
e Gabriel: Genial
Fábio:
Ele está revolucionando todo o trabalho anterior de tiras
dele, todo o trabalho de quadrinhos. Fazendo coisas que ninguém
faz. É porque é o Laerte que eles continuam publicando,
porque ninguém entende. Se fosse outra pessoa chegando
com essas tiras, ninguém ia publicar, mas como é
o Laerte, eles publicam. E por isso a gente pode ver que já
faz quase dois anos que ele está nessa linha e o quão
revolucionário é esse trabalho em tira. E eu acho
muito bom, por mais que não seja engraçado, por
mais que não seja piada, por mais que seja surreal, mas
às vezes é genial. São coisas que alguém
vê todo o dia, mas ninguém nunca falou, ninguém
nunca falou desse jeito, ninguém nunca mostrou desse jeito,
ninguém nunca montou desse jeito em três tiras diferentes
coisas que não fazem nenhum sentido. E é muito bom
ter alguma coisa diferente em tiras.
Gabriel:
Não sempre a mesma coisa.
Pop:
Vocês estão na sua melhor fase de quadrinhos. O que
vem daqui para frente, o que vocês esperam?
Fábio:
A gente espera fazer mais quadrinhos, espera poder, sei lá,
publicar quadrinhos com mais freqüência. Poder ter
uma regularidade de publicação, tanto aqui quanto
lá fora. E desenhar projetos de outras pessoas lá
fora ajuda nesse sentido. A gente ganha uma visibilidade e as
pessoas se acostumam com o nosso trabalho, procuram por ele e
as editoras percebem isso e chamam a gente para outros projetos.
Aí não precisa ser só projetos de outras
pessoas, se a gente tem um projeto, se conseguir pensar um projeto
legal e conseguir propor para editora nesse momento que ela quer
uma coisa nova da gente, a gente pode começar produzir
a pedidos. Não só material pronto. "Olha quer
publicar? Está pronto”. Produzir especialmente para
lá.
Pop:
Para onde vocês acham que caminha o mercado brasileiro,
levando mais material para a livraria, se falando de leis de incentivo?
Para onde vocês acham que vai?
Gabriel:
Olha, eu acho duas coisas. Eu acho que quadrinho nacional deu
uma revitalizada a partir de 2000, começou a surgir um
monte de gente nova, gente que gosta de quadrinhos, gente que
tem outra visão de quadrinhos. Ao mesmo tempo as editoras
pipocaram, foram se profissionalizando um pouco, levando mais
a sério os livros, investindo nessas publicações
de luxo, porque os quadrinhos nacionais estão indo para
a livraria para ver se atinge um outro público.
Mas
fica um buraco aí do básico. E os autores brasileiros
precisam do básico para chegar ao luxo. Se os autores nacionais
ficarem só no luxo, não vai ter de onde tirar. Porque
não faz muito sentido fazer um livro de luxo das tiras
do Fernando Gonzales ou do Laerte. É republicação
de tira, não tem porque ser caro. É um livro que
tem que ser básico. Não vai fazer diferença
ter uma capa melhor, só vai deixar mais caro e se for mais
caro menos gente vai comprar. Fazer uma publicação
de luxo do Tico-Tico é uma coisa, fazer uma de tiras do
Laerte é outra. Então tem que ter um espaço
para o básico e os artistas brasileiros precisam começar
do básico. Precisa das editoras que publicam coisas mais
baratas.
A
lei de incentivo não vai ajudar, só ter o dinheiro
para publicar, só ter que publicar. Não adianta.
A gente tem que ter um aprendizado dos autores para eles terem
o que oferecer. Não basta ter onde publicar. As editoras
podem publicar as coisas dos autores, as tiragens são pequenas?
Sim, mas se você tiver um projeto legal eles vão
lá e publicam, não precisa ir atrás de lei
de incentivo para isso. Mesmo com a lei de incentivo, não
tem 40 trabalhos para serem publicados, tem os mesmo dois. Então
ela vai ser obrigada a publicar e vai publicar mais coisas ruins,
não tem trabalhos bons. Quem está se esforçando
está fazendo. Tem pouca gente que está trabalhando
que não está fazendo quadrinhos. Não tem
oportunidade, não tem espaço. O espaço é
o mesmo para quem vai publicar o primeiro livro.
Não
é uma lei de incentivo, uma grana que vão colocar
na editora que vai fazer diferença. E os próprios
quadrinhistas têm que enxergar nisso. E é uma coisa
que você só vê quando publica com uma editora
pela primeira vez. Não é um sonho, não vai
mudar sua vida drasticamente, aliás, não vai mudar
seu trabalho em nada, não pode mudar. Então eu acho
que essas coisas não são exatamente favoráveis
para o mercado, nem os álbuns de luxo nem as leis de incentivo.
Tem que continuar produzindo, quer fazer, faz.