Entrevista: J. J. Marreiro

Como prometido, eis aqui a entrevista com J.J. Marreiro, editor do fanzine Manicomics. A melhor coisa desta entrevista é que ele foi feita por e-mail mas não é massante como geralmente acontece com este tipo de entrevista. Isso porque o Marreiro é tão simpático e tão disposto a conversar que topou trocar vários e-mails, inclusive nos permitindo voltar a comentários feitos páginas antes e fazer uma réplica ao que ele disse. Por isso a entrevista tem mesmo uma cara de bate-papo, como de fato foi.

Pare quem não o conhece, ele já publicou ilustrações e charges nas revistas Sci-Fi News, Dragão Brasil, Wizard Brasil (da Panini) e nos jornais Diário do Nordeste e O Povo (ambos do Ceará), Jornal Metropole (São Vicente-SP), Jornal do Centro(SP); os sites Universo HQ e Hyperfan; e o livro 100 respostas sobre super-heróis (Abril). Publicou quadrinhos nas revistas Capitão Rapadura, Capitão Tocha (institucional), Rivista.

Além disso, fez também roteiros para teatro e rádio-dramas baseados em personagens de quadrinhos cearenses.

Atualmente, sem chamar a atenção da mídia nacional, está desenhando para o mercado norte-americano, assim como seus colegas do Manicomics. Ele já fez design de personagens e desenhos para a editora Gross-Saunders e arte-final para o Fantasma, da Moonstone.


Antes de mais nada, a pergunta básica pra começar: como você começou a desenhar e como decidiu viver disso?

J: Comecei como qualquer criança que desenha por diversão, por que é natural para as crianças se envolver com desenhos na infância. O que ocorre com os desenhistas é que à medida que crescem, continuam a desenhar e não se deixam desmotivar pelas críticas negativas. A parte sobre viver de desenho é delicada, pois nosso país não tem tradição de respeitar e remunerar condignamente os artistas do traço.

Daquilo que você lia, o que te motivou a contar histórias (de que tipo) e o que te influenciou artisticamente?

J: Contar histórias é uma das maneiras que usamos para transmitir conhecimento, valores e percepções. Quando lia as HQs do Dick Sprang ou do CC Beck, eu simplesmente me divertia. Esse era o motivo maior pra se ler quadrinhos antigamente. Hoje os quadrinhos estão metidos a besta, feitos por intelectuais ou por escritores que estão mais interessados em se mostrarem geniais do que simplesmente fazerem um bom trabalho, coeso e objetivo. Existem poucos quadrinhos coesos e objetivos por aí. E por mais que eu goste dos mangas, eles são uma forte influência para a perda de objetividade dos contadores de histórias em quadrinhos de amanhã.

Você acha que a "pretensão literária" dos quadrinhos criou este problema? Ao tentar chegar ao público adulto os quadrinhos confundiram sofisticação com complexidade?

J: Eu diria que autores pretensiosos, artistas intelectualóides e editores elitistas criaram essa barreira. Francamente... Pra quê eu quero um quadrinho lindo, numa edição de luxo se a história é incompreensível? É a síndrome do Final Fantasy VII: todo mundo adora a computação gráfica, mas tem vergonha de dizer não entendeu a história.

Antes de ser infantil, infanto-juvenil, adulto ou geriátrico, quadrinho tem que ser legível, compreensível. O Buda, do Ozamu Tezuka, é publicado numa edição visivelmente voltada para o público adulto, mas é uma obra tão bem escrita que uma criança leria sem problemas de compreensão. Um leitor não-iniciado também leria sem problemas. Os quadrinhos dependem dos leitores não-iniciados para crescer. Se uma obra atinge esse público, então está atingindo o melhor público pra se atingir. Concordo quando o Angeli fala que “quadrinho tem que ser feito para quem não gosta de quadrinho”, quer dizer, para o público em geral e não só para os fanboys.

A pergunta que o Libone adora: por que fazer quadrinhos?

J: Porque não fazer? Os quadrinhos são um meio de contar histórias tão bom quanto qualquer outro e ainda possuem algumas vantagens criativas. Desde que você tenha um traço razoável, pode fazer tudo acontecer numa página de quadrinhos. Sinto que as novas tecnologias chamam muito a atenção das pessoas e há uma super-valorização dos recursos tecnológicos, se algo é feito à mão é recebido com desdém pela maioria das pessoas. E isso não é culpa delas, as corporações empresariais lavam-lhes o cérebro com propaganda 24 horas por dia e uma pessoa desavisada não tem barreiras para se defender desse tipo de invasão. Veja o telemarketing: eles ligam pra sua casa no domingo pra te oferecer produtos que você não tem o menor interesse em adquirir e isso ocorre impunemente. Os bons quadrinhos pra mim são que nem o Rock’n Roll, mexem com a pessoa.

Sempre se fala do talento nato do cearense para o humor, principalmente para comediantes de televisão. Essa regra se aplica aos quadrinhos? Existe um humor cearense nos quadrinhos?

J: Pois é... Existe. Mas acho que o humor do quadrinho cearense de hoje é meio punk, não seria abraçado pela grande mídia facilmente... O Luís Sá (criador do Reco-reco, Bolão e Azeitona) era cearense; o Mino, que publicou no Pasquim (o original) também, mas eles são clássicos. A turma de hoje é muito ácida, difícil da mídia engolir.

Como foi se tornar um editor independente de quadrinhos? O que você teve que aprender que a profissão de desenhista não ensina?


J: Você se torna um editor independente quando quer publicar e não tem onde. Então arregaça a manga e faz você mesmo, cria o próprio espaço. O processo é importante, é um aprendizado intenso onde há o retorno dos leitores e de profissionais que recebem seu material e dão dicas, te abrem o olho pra saber onde melhorar. A gente acaba aprendendo a ouvir e depurar o que é construtivo do que é destrutivo. Ouvir é muito, mas muito mais importante do que falar.

Como é editar os trabalhos de terceiros?

J: Editar o trabalho de terceiros num fanzine como o Manicomics é realmente editar, diferente do que fazem as editoras brasileiras. Explico: Os roteiros são avaliados e discutidos antes de serem produzidos, em alguns casos balões ou desenhos são refeitos, páginas cortadas ou inseridas, tudo pensando no entendimento do leitor. A parte fácil é quando você pega autores que tem uma habilidade tão natural de contar histórias que elas não precisam ser mexidas, caso de E.C.Nickel, Jean Okada, Lene e Daniel Brandão, pra deixar a lista curta.

Na sua opinião, quais as diferenças de se ter um trabalho publicado como fanzine e como revista independente?

J: Para responder essa pergunta é preciso definir as duas coisas. Na minha concepção o Fanzine não tem fins lucrativos, é feito de uma matéria prima não material, chame de raça, força de vontade, etc. O fanzine tem caráter amador não por ser mau feito, mas por ser feito com o coração. Uma revista independente é uma produção que envolve uma perspectiva de lucro, seu objetivo é levar a produção até o público e receber algum retorno material. Minha opinião sobre publicar em um ou outro meio é a seguinte: O importante é publicar! Saber que há pessoas lendo seu material e enviando algum tipo de feedback. Um contador de histórias precisa ver suas histórias sendo contadas, seja no mais humilde dos fanzines, seja na mais luxuosa das graphic novels.

Pela sua resposta parece que a postura do artista e do editor é praticamente a mesma para os dois casos, ambos são igualmente profissionais. O mercado independente no Brasil está maduro artisticamente? O que falta são só as condições materiais para os artistas viverem de sua arte?

J: No meio independente de vez em quando você encontra pérolas incomparáveis. Veja o Ultrax, do E.C. Nickel. É um personagem perfeito com HQs redondíssimas, pronto para qualquer editora, mas onde você encontra o personagem? No meio independente. Seja na web seja em fanzines como o Manicomics. O Nickel tá no mercado há um tempão, assim como o Watson e outros. Eles recorrem ao meio independente porque não há como escoar sua criatividade nas editoras tradicionais. Tem muita gente ainda verde no meio independente, afinal ele é como uma escola, mas tem gente que conseguiu se dar bem nessa escola e tá pronto para as próximas etapas. Puxando brasa pra minha sardinha, isso aconteceu com o pessoal do Manicomics. Daniel Brandão, Allan Goldman, Geraldo Borges, Cristiano Lopes e eu estamos publicando fora do Brasil e muito se deve graças ao aprendizado no meio independente. E infelizmente estamos produzindo para o mercado externo também por falta das condições materiais de se publicar aqui no Brasil. Mas o impossível é apenas uma barreira pronta pra ser transposta.

O Marcelo Naranjo, do UHQ, quer saber: você é mesmo o alter-ego da Mulher-Estupenda?

J: Hahaha! Que crueldade! Na verdade eu sou o alter-ego do Rapaz Assombroso hehehe. Quando eu tinha 11 anos tive uma professora loira muito gos... simpática... e dedicada. O Shima (Júlio Shimamoto) falou sobre isso no Manicomics 17, Especial da Mulher-Estupenda: que todo mundo já teve na infância uma professora que marcou na memória.

O tipo de referência à Era de Ouro que vc usa nas histórias dela não é o mesmo que se vê em HQs feitas para fanboys lerem, é uma coisa mais leve, que tem a ver com a ambientação e o jeito de contar a história. O que você acha desta releitura "erudita" da Era de Ouro em quadrinhos como A Nova Fronteira e alguns capítulos de Alias e Demolidor (de Brian Bendis)?

J: Acho isso muito perigoso. Quadrinhos para fanboys são descriminatórios, descriminam o leitor comum, esporádico. Você não pode exigir que o leitor conheça 30 anos de cronologia para entender uma história. Isso é suicídio porque você perde a oportunidade de conquistar leitores novos e entreter um leitor desavisado. Antes era muito comum alguém comprar um quadrinho para passar o tempo, fosse numa rodoviária ou a caminho do dentista. Se esse leitor esporádico comprar um título mutante qualquer ele não vai entender nada da história nem vai ter sua necessidade de entretenimento suprida. O quadrinho tem que fisgar o leitor sem a necessidade da frase “continua na próxima edição”. Se a revista for boa mesmo o leitor vai querer outros exemplares naturalmente.

O traço que você usa nestas histórias é o seu traço habitual ou há algum tipo de adaptação para o clima das aventuras da Mulher-Estupenda?

J: Rapaz, passei um tempão desenhando com traço cartum. Inclusive a Mulher-Estupenda foi criada com traço cartunizado. Um dia fiz uns desenhos menos estilizados, mais comportados, inspirados nos clássicos e funcionou tanto que nunca mais a desenhei no estilo cartum.

O que você lê e curte atualmente em quadrinhos?

J: Eu nunca largo os clássicos. Achei ótimo o lançamento do Fantasma sempre aos domingos e o relançamento do Príncipe Valente. Dos atuais acho legal o Poder Supremo. Li a primeira edição do Kin (Gary Frank pela Top Cow-Panini) e gostei. Sempre que posso leio o Tex e de vez em quando leio algo do Maurício, a revista da Tina é muito divertida. Além desses, Madman (do Michael Alred) e Nexus (Steve Rude) estão no topo da minha lista.

 

 

 

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