Jorge
Zugliani (Jozz)
Jorge
Zugliani ainda não é um artista brasileiro muito conhecido,
contudo, se ele é uma amostra da nova safra de quadrinhistas
que teremos daqui para frente, com certeza o Brasil tem tudo para
crescer e formar um mercado nacional de artes gráficas muito
rico e com todo o destaque que merece com o público em geral,
não ficando só restrito à chamada "mídia
especializada".
O
que nos chamou atenção em Jorge, ou Jozz como ele assina,
é que não só ele é um excelente artista,
mas é um cara extremamente preocupado em ter uma formação
acadêmica sólida, tanto que seu trabalho de conclusão
de curso em Desenho Industrial, o Circo de Lucca, ganhou uma boa divulgação,
e uma grande torcida para que uma editora publique o material.
Jozz
é exatamente o tipo de artista que precisamos. Inteligente,
talentoso, que busca fazer um trabalho relevante e, acima de tudo,
é preocupado com o mercado como um todo e não só
com o próprio trabalho.
Além
disso, ele é nosso conterrâneo. Como eu e o Diego, ele
nasceu e foi criado no interior de São Paulo em Jaú
(Capital do Calçado Feminino). Aproveitando essas coincidências
chamamos ele para um dedo de prosa e confirmamos que ele realmente
tem muito o que falar e o faz com muita propriedade.
Zé
Oliboni
P
- Qual foi a idéia do Circo de Lucca?
Jozz
-Eu fui fazer o trabalho da minha graduação em Desenho
Industrial, no Mackenzie. Poderia ser estritamente um trabalho de
design gráfico, mas eu estava pensando lá na frente
que eu queria continuar fazendo ilustrações e quadrinhos,
que não deixa de ser design gráfico. Só que tem
muita gente na faculdade que já faz história em quadrinhos,
mas faz uma historinha e acabou. E eu sentia uma necessidade de discutir
quadrinhos na graduação, porque a gente tem trabalhos
legais pra caramba em doutorados e mestrados, mas não tem uma
pesquisa acadêmica forte em graduação. Então
eu achei que era a hora.
Fiz
a pesquisa e tudo. Tenho essa intenção de lecionar e
ser pesquisador. Eu juntei tudo em uma coisa só: o que eu queria
fazer de quadrinhos, o que eu sentia necessidade em quadrinhos, o
que faltava... Pesquisei e fiz o Circo de Lucca, que é uma
metalinguagem, o personagem aprende quadrinhos e o leitor também.
P
- Quando você começou sua pesquisa para o Circo, já
de cara você pegou o Scott McLoud ou foi conhecer ele depois?
J-
Eu já tinha lido ele antes de decidir fazer isso. É
que a idéia do Circo de Lucca não veio pelo McLoud,
veio por outra vertente.
P-
Mas inevitavelmente você vai ser comparado com ele.
J-
Sim. Eu não evito a comparação porque eu pesquisei
o cara e cito, ele é uma das fontes de referências. A
minha maior crítica, se é que tem uma crítica,
é que a maior parte do que a gente tem por aí é
material americano. Os trabalhos nacionais que a gente tem são
teóricos. O DJota lançou um livro legal agora: A educação
está no Gibi. É um livro teórico muito legal
que mostra como levar quadrinhos para a sala de aula dividido por
temáticas. Mas a gente está ensinando o quê? A
gente está fazendo a criança ler quadrinhos para aprender
outras coisas, mas a gente não está ensinando ela a
ler quadrinhos, a gostar de quadrinhos. O DJota tem um pouco disso.
Todo
esse pessoal está escrevendo, fazendo teses, está falando
sobre quadrinhos por um lado teórico. Eu queria colocar o meu
trabalho na prática. Ele não é muito infantil,
ele é mais jovem, colegial e faculdade, e é uma coisa
de educação para se ler quadrinhos, entender como funciona
para respeitar.
Dsse
tipo de material eu sentia falta no Brasil. Senti a necessidade disso
quando eu fui desenhar minha história, então tentei
fazer algo assim. Aliás, minha história mudou quando
eu comecei a produzir, porque seria uma história sobre quadrinhos
por cima, mas eu percebi que faltava um trabalho acadêmico de
graduação que discutisse quadrinhos, então comecei
a inserir metalinguagem. Aí ele virou essa coisa meio didática,
mas na prática diluída no enredo, diferente do McLoud.
P-
Você não acha que é meio tarde para o cara que
está na faculdade pegar gosto pelos quadrinhos?
J-
Não, não é pegar gosto. A idéia é
o cara aprender a respeitar e saber a comparação, a
ligação dela com a literatura, com o cinema. Se você
falar isso para uma criança isso não faz sentido. Se
você tentar falar que quadrinhos é uma história
complexa, que você pode passar uma puta de uma mensagem... a
criança não alcança. Essa não é
minha função agora. Então vamos pegar o cara
do colegial para cima, o cara que já está se ligando
com literatura por causa do vestibular, que está ligado com
cinema. Nesse ponto que o Circo de Lucca entra.
Ele
passa pelo story board. A todo momento ele está falando sobre
escrever uma história boa, ou seja, pra escrever uma história
boa ele tem que saber o que contar e isso está muito ligado
à literatura.
P-
O que é uma história boa?
J-
Uma história boa é uma história que a princípio
quem está escrevendo acha relevante, que para ele mude alguma
coisa e, em segundo momento, atinja o público e consiga mudar
realmente alguma coisa.
O
que eu coloquei de missão para mim é que para fazer
quadrinhos existem duas coisas : o que deve ser feito e o que eu quero
fazer. O que deve ser feito é pesquisar, ler, estudar, ter
uma formação, porque quadrinhos não pode ser
banal, sem conteúdo. Num segundo momento vem o que eu tenho
de meu. Gosto de por minha ideologia, criticar, falar de costumes,
sociedade. Eu espero atingir um público também. Agora
se nada disso der certo, eu não sei se eu dou certo para fazer
quadrinhos. Eu não vou fazer quadrinhos só por fazer
ou porque alguém quer que eu faça de um jeito.
P-
O que você lê de quadrinhos?
J-
O que eu tenho lido no momento é fumetti, muito fumetti. Eu
acho fantástico. Outro dia me perguntaram isso e me perguntaram
o que o fumetti tem de tão relevante. Eu estou falando do fumetti
no sentido de uma história bem construída. Quando eu
for contar minha história eu vou ter condições,
com essa escola que eu tive.
Super-heróis
faz mais de um ano que eu não leio. Não por não
gostar mais, mas por estar direcionando mais minhas compras.
Um
que eu gostei muito recentemente foi Blacksad, que tem um desenho
genial, com uma história muito boa, muita bem construída,
em cima do fato dos personagens serem animais.
Nacional
eu tenho comprado também. Comprei o do Spacca (Santô
e os Pais da Aviação), comprei Destino Oeste, que é
de um cara (Nota dos Editores: o desenhista Ricardo Leite) que melhorou
muito. Ele colocou a primeira história do lado da segunda e
o desenho dele melhorou muito, ficou lindo, além de ser extremamente
pertinente o que ele fez de falar sobre a política e história
local.
É
esse tipo de coisa que eu tenho buscado.
P-
Quais as histórias mais importantes na sua formação?
J-
Eu comecei com super-herói, mas antes teve Mônica e Ziraldo.
Eu fui educado com Ziraldo, o meu ícone, "Rosebud",
foi o livro O menino Quadradinho do Ziraldo. Aquilo é
fantástico, é uma criança que o mundo dela são
formas geométricas e cores até que entra o texto na
vida dela e num primeiro momento isso é chato, mas ele vai
dialogando com as letras, aprende, no final ele cresce. Eu fiz isso
com o Lucca, crescer aprendendo, é uma história autobiográfica.
Então
teve o Ziraldo, Maurício de Sousa, super-heróis, mas
eu logo parei as mensais e fui só pegando especiais como Watchmen,
Cavaleiro das Trevas e depois comecei a comprar europeus. Me viciei
em Moebius. Enfim, acho que é um caminho bem comum. Mas hoje
eu parei no fumetti, me fascinam tanto aquelas histórias do
Mágico Vento... Dilan Dog eu acho genial.
P-
Uma das coisas que se tem impressão ao ver o Circo é
que você não é um leitor de quadrinhos, mas que
está muito mais preocupado com a linguagem do que com quadrinhos
em si. O que você acha?
J-
É a primeira vez que eu ouço isso. Será que quem
pesquisa quadrinhos tem esse estereotipo? Eu senti isso a princípio
quando eu recebi o convite para ver o doutorado do Gazy Andraus, de
Santos, na USP. Ele fez um apanhado da psicologia, o foco dele é
o cérebro, esquerdo e direito, razão e emoção
e os quadrinhos nesse meio. É um trabalho muito legal, mas
eu tive impressão que ele não era um grande leitor.
Julguei errado simplesmente por não o conhecer e nem ter visto
o trabalho. Minha impressão logo mudou quando vi a apresentação,
e conversei com ele. Fiquei maravilhado com o embasamento e as citações
de quadrinhos. Ele lê quadrinhos há mais tempo que nós
e entende muito. É óbvio que só assim ele poderia
fazer um estudo daquele. Pra se meter a pesquisar, tem que manjar.
Ele fez trabalhos com o Henrique Magalhães da Marca da Fantasia
e trocava material com o Joacy Jamys. Ou seja, temos que ter cuidado
com julgamentos antes de ter lido o material, né?
P-
O que nos espantou é que um trabalho como o seu de design acabou
se focando tanto na linguagem, mais do que nos quadrinhos em si.
J-
Discutir os quadrinhos faz mais sentido pro design gráfico
do que simplesmente fazer quadrinhos, entende? Se eu fizesse uma história
qualquer eu seria mais um e acho que era o momento de fazer algo diferente.
Para faculdade é muito mais interessante que se estude a linguagem.
Quando eu entrei na faculdade vi que tinha Histórias em Quadrinhos
na grade: "Tem história em quadrinho em desenho industrial?
O que tem a ver?" Tem tudo a ver.
É
importante na faculdade discutir quadrinhos, mostrar que quadrinhos
é um projeto gráfico, uma mídia gráfica.
P-
E você conseguiu?
J-
Acho que eu consegui deixar um marquinha, mostrar para as pessoas.
P-
Como foi trabalhar com o Luiz Gê?
J-
Ele não é um cara fácil de lidar. Mas é
extremamente cabeça e foi um aprendizado enorme. Ele nunca
vai chegar para você e falar: "Faz tal coisa". Porque,
na minha opinião, ele lida da seguinte maneira com as pessoas:
ele aceita trabalhar com você e vê o que você é
capaz de fazer. Você começa a falar com ele e vira qualquer
assunto, daí ele solta algo: Então tenta isso. Geralmente
é algo acima do que você é capaz e se você
conseguir superar isso ele propõe outro desafio. Ou seja, ele
não coloca nada programado, o que eu acho ótimo porque
cada um dos alunos dele vai para um lado, ninguém é
um robozinho, ninguém copiou o Luiz Gê.
P-
Você fala em dar aula, mas dar aula para quem?
J-
Eu não sei. Eu acho importante ensinar, mas tudo que eu fiz
até agora foram palestras, então eu não sei como
eu lidaria com outro públicos. Não sei se eu teria instrumental
para trabalhar com crianças. Eu vou participar de uma ONG agora,
em São José dos Campos, e vou ensinar quadrinhos, desenho...
é uma experiência, vamos ver o que vai dar isso.
Mas
quando eu falo em ensinar quadrinhos eu ainda estou me definindo,
porque já tem muita gente ensinado quadrinhos e muito bem.
Talvez o que eu precise é definir público, ou o que
exatamente eu quero ensinar com quadrinhos, porque ensinar quadrinhos
eu acho que já tem gente fazendo. Então quando eu digo
ensinar quadrinhos eu quero dizer que eu estou estudando o caso.
P-
Nossa pergunta tradicional: Por que Quadrinhos?
J-Pois
é... é a mesma coisa que perguntar para um cineasta
por que cinema. Primeiro tem que gostar. Eu não vou me meter
a fazer outra coisa, mas também não é por falta
de opção. É porque eu acho que HQ é o
primeiro ponto de encontro da nossa mídia hoje. Se a gente
pensar que a comunicação da civilização
começou com a imagem, foi saindo da linguagem pictórica,
pictográfica e chegou à escrita, a gente tem nos quadrinhos,
hoje, um encontro feliz da imagem e a escrita, sem contar todas as
coisas agregadas que a gente discute sobre os quadrinhos há
anos como ligação com cinema e literatura. Eu estou
achando que hoje ela é a mídia mais poderosa.
Então
eu gosto, aprendi a fazer, acho que aprendi, vou me desenvolver nela.
Ela tem todos esses argumentos que eu posso usar e muitos dos pesquisadores
ainda acharam outros argumentos como o Gazy Andraus, que diz que quadrinhos
é uma das mídias que mais faz raciocinar hoje. Então,
vamos desenvolvendo sem querer criar aquela barreira com a literatura.
Sempre vão dizer que com o livro sua imaginação
vai mais além. Mas desenvolver no sentido da perfeita junção
que o quadrinista faz de texto e imagem e a torna uma mídia
muito poderosa.
P-Você
acha que a forma impressa ainda é o melhor caminho?
J-
Isso aí tem gente que diz que basta ler, não precisa
ser papel. Tem gente que diz que no real, no papel, funciona melhor,
mas... tem um valor incrível você pegar e folhear. Se
morrer um dia, não vai ser agora, vai demorar anos e anos.
Esse simples detalhe da página virar e a gente mover o olho
pela página muito mais rápido que pela tela, isso faz
um deslocamento na nossa mente, um aprendizado muito maior. Isso quebra
essa barreira, isso bem usado pode ajudar na educação
e ainda tem muito o que se explorar.
P-E
a queda absurda das tiragens das publicações?
J-
O problema não é só das editoras, é, também,
da quantidade de produção que a gente tem, a qualidade
dessa produção, os leitores, a qualidade dos leitores,
a indústria do papel atrás das editoras. Eu evito dar
soluções, ou reclamar, mas eu vou falar a minha posição:
eu vou produzir o meu material, o que eu acho que é bom, o
que eu acho que está faltando. Como leitor de quadrinhos eu
vou comprar o que acho que vale a pena, não vou comprar qualquer
porcaria.
P-
Você acha que o mercado ainda cresce? Que tem formação
de público?
J-
Acho que sim. Sabe aquele público que deu um boom, que cresceu
do Sandman? Eu acho que está acontecendo isso hoje com quadrinhos
adultos. Acho que os caras tão vendo que esses negócio
de quadrinhos ser para criança não tem mais tanto a
ver hoje.
P-
Mas você acha que o adulto chega, sem nunca ter sido leitor,
e do nada vai decidir comprar um quadrinho?
J-
Sim, eu acho que as produções estão focando para
isso. Está tudo caminhando para o encadernado, as editoras
estão se esforçando para baratear, para colocar em livrarias,
porque estão vendo que gibizinho nas bancas não funciona
tanto, porque não é isso que o adulto compra hoje.
Mas
eu acho que está aí também nossa função
de ensinar as crianças a ler quadrinhos. Porque quem vai nas
bancas de jornais é o público jovem, mas eles estavam
lendo quadrinhos ontem? Não sei, acho que não. Pelo
menos na escola a educação que a gente teve de quadrinhos
foi mínima.
Então
se a coisa continuar como está agora, o que vai vender são
quadrinhos adultos. Se for feito um trabalho legal com as crianças,
não fazer algo bobo e sim pensando na formação
de opinião, a gente vai ter compradores jovens no futuro.
Agradeçemos
a visita de Jorge e estamos na torcida para que o trabalho dele seja
editado o quanto antes.
Para
entrar em contato com ele visitem www.jozz.com.br
http://fotolog.terra.com.br/jorgezugliani
e escrevam para jozz@uol.com.br.