Marcio
Baraldi - Entrevista

Marcio
Baraldi é uma máquina de fazer quadrinhos movido a muito
Rock´n Roll. Com uma invejável carreira que começou
aos 16 anos, ele praticamente construiu sua vida como um cartunista
profissional e vive do desenho até hoje. Até porque,
considerando a quantidade de trabalho que o cara faz... não
sobra tempo para fazer outra coisa mesmo.
Aliás,
se engana quem pensa que Baraldi se limita ao rock. Na verdade, a
maior parte do trabalho do artista, desde o início de sua carreira,
é para a imprensa sindical, produzindo charges e HQs para vários
sindicatos. Como se não bastasse, ele ainda arranja tempo para
produzir quadrinhos para tudo que é publicação,
desde revistas pornô até trabalhos institucionais ligados
a Direitos Humanos.
Muita
coisa? Que nada, ele faz também camisetas, jogos para computador,
bonecos e mais um monte de outras coisas ligadas aos seus personagens.
Mesmo assim ele arranjou um tempo para dar essa entrevista para a
gente, então aproveitem para conhecer um pouco mais desse cartunista
sangue-bom e descobrir o que ele pensa de quadrinhos, política,
da vida, do universo e tudo mais.
Pop:
Para começar, vale dizer que a gente já tem um desenho
seu no Pop Balões. O Moacir Torres
é colega nosso e mandou uma galeria de imagens em homenagem
ao Gabi e tem o seu desenho lá.
Marcio
Baraldi: Ele colocou lá? Legal. Eu sou fã do
Moacir há tantos anos, porque eu sou de Santo André,
saca? Eu nasci lá e o Moacir era de Santo André. Por
uma coisa do destino, o Moacir foi um dos primeiros quadrinhistas
que eu conheci na minha vida. Eu até tenho uma história
engraçada para contar, você pode até colocar com
exclusividade isso. Véio, quando eu tinha 14 anos, era pirralho
ainda, nem estava na profissão, mas já desenhava. Eu
descolei o telefone do Moacir Torres, porque ele colaborava em um
jornal que chamava "Jornal da Taturana".
Ele
fazia um suplemento, era ele e o Cláudio Feldman, que é
um escritor conhecido, fazia muitos livros didáticos, paradidáticos
e infato-juvenil. Ele é filho do Aaron Feldman, que era um
cineasta cult, independente, muito conhecido lá no ABC, também
de Santo André, morava no mesmo bairro que eu, a Vila Bastos.
Ele também é irmão da Ida Feldman, uma vidoemaker
muito louca daqui de São Paulo. Eles eram todos uma família
muito louca, uma família judia muito doida. O pai era cineasta,
e um cineasta muito doido, andava com um chapéu preto e um
capote preto, um cara alto, era um doido e tu conversava com ele e
ele era muito viajão, viajava pra cacete nas idéias,
hoje ele é falecido. A Ida é completamente xaropinha
e o Cláudio era muito doido também. Uma família
de artistas mesmo!
Aí
o Moacir era parceirão do Cláudio e eles faziam o Jornal
da Taturana, então eu catei no expediente o telefone do Moacir,
liguei e falei: "Ô, Moacir, meu nome é Márcio
eu sou um garoto e gosto de desenhar e pá pá pá...",
o Moacir já era profissional e aquela velha história:"Pô,
deixa eu mostrar o meu trabalho para você". E o cara me
recebeu super bem, lembro até hoje, tinha 14 anos, ele me deu
o endereço dele, fui com os meus desenhos de baixo do braço
e cheguei lá e dei de cara com mais um menino que queria mostrar
os desenhos para ele. "O que você veio fazer aqui (risos)
?". "Eu vim mostrar os meus desenhos para o Moacir."Aí
mostramos juntos, o outro menino e eu.
Então
o cara era super assim, ele era tipo um padrinho da molecada que estava
começando a desenhar. E foi muito legal, o cara recebeu a gente
super bem, deu uns toques para a gente, ele já tinha a Turma
do Gabi, já fazia as revistas dele. A gente era tudo cabaço,
não tinha publicado porra nenhuma, ainda estava na fase dos
desenhos no caderno, saca? Mas eu levei cadernos e mais cadernos.
E
aí foi, foi muito legal, ele foi o primeiro com quem eu tive
contato profissional, ele e o Mastroti, tá ligado? O que hoje
tem a editora Virgo. O Mastroti publica no Diarinho, suplemento
do Diário do Grande ABC, e eu era criança,
estava no primário e lia e via uns desenhos lindos que ele
fazia e, quem diria, anos depois fiquei brother do Mastroti!
Pop:
O Moacir sempre foi um cara muito gentil com a gente, ele e o Cedraz.
MB:
Lá da Bahia, né? Eu gosto do Cedraz porque ele faz um
trabalho na linha do Maurício (de Souza), mas ele conseguiu
regionalizar o trabalho dele. Bem com cara de Bahia, sertão
mesmo. Ele entrou pela praia do Maurício, mas foi sair em uma
praia exclusiva dele. O Maurício não tem um personagem
bem... ele tem o Chico Bento, mas ele não tem um personagem
que é do nordeste mesmo. Ele tem um índinho para representar
o Amazonas e os indígenas, mas ele não tem uma galerinha
que nem a do Cedraz, o bahianinho com o chapeuzinho, uma coisa bem
do sertão mesmo.
Pop:
O filho do coronel...
MB:
É ... foi uma boa sacada do Cedraz. Eu acho que ele tem um
trabalho legítimo, bem pessoal, eu acho bem legal.
Pop:
Aliás, falando deles, a gente percebeu que esse pessoal mais
antigo já teve muito espaço, o Moacir teve até
um programa na tv, mas hoje eles não tem muito espaço.
O que você acha que aconteceu?
MB:
Boa pergunta (risos), você vai ter que perguntar para eles.
Eu não sei o que acontece, porque hoje em dia... talvez seja
porque as TVs de hoje em dia estão muito enjoadas, está
virando o "Império do jabá", tem muito jabá.
Tem esses negócios de grupos religiosos que foram comprando
espaço em emissoras, então entra muito grana. É
lógico que a emissora vai preferir alguém que tenha
muita grana para pagar pelo espaço do que alguém que
não tenha grana, apenas talento!
Mas
em compensação o que tem surgido de lá pra cá
é muita web tv, que é um espaço ultra-democrático.
Eu acho que o futuro vai ser isso, muita web tv, neguinho invadindo
a internet. Eu mesmo já fiz um programa que chamava "Domingo
Show", na All TV, eu ficava lá desenhando e fazendo charge
dos convidados que iam lá, por um tempo eu também apresentei
o programa, era bem legal. Então assim, eu acho que as coisas
estão rumando mais para esse caminho. As grandes rádios,
grandes emissoras, grandes gravadoras, eu não sei qual vai
ser o destino delas. Porque você vê esse negócio
de cd não está vendendo mais porra nenhuma, então
as grandes gravadoras vão durar até quando!!? Lembra
o tempo que se falava que o Roberto Carlos vendeu um milhão
de exemplares? Quanto o Roberto vende hoje?
Pop:
Esses dias as gente estava falando de você ter recebido o disco
de Ouro pelo jogo do Roko Loko e lembrando de quando os cantores iam
no Faustão receber os discos de Ouro, Platina ...
MB:
Mas naquela época era um milhão. Quando rolou essa parada
do disco do Roko Loko, foi o editor da revista MP3 Magazine, o
Alessandro Treguer, quem me ligou: "Ô, cara, você
ganhou um disco de ouro!" E eu: "Como assim?" Eu tinha
encartado na revista dele e a revista vendeu mais de 50 mil exemplares.
Eu pensava que disco de ouro era 500 mil cópias, mas ele falou
que hoje em dia era 50. "Então se for assim pode me dar,
eu aceito (risos)." Mas eu nunca imaginei. Então, mas
hoje em dia tudo é assim. São novos parâmetros!
Olha
como as coisas mudaram. Outro dia eu estava lendo uma resenha de um
gibi da Mônica, era um especial de 70 anos do Maurício
e eu estava lendo o release e tinha lá: Tiragem 30 mil exemplares.
30 mil exemplares?!? No meu tempo de moleque no anos 70 aquele gibi
vendia o que? 500 mil cópias no mínimo, um milhão
se bobeasse.
Pop:
Hoje em dia as tiragem são bem pequenas, o que funciona para
material como o seu, que sai dois mil exemplares.
MB:
É e a gente não coloca na banca porque se colocar o
livro na banca ele fica 30 dias, não vai vender porra nenhuma
e vai encalhar. Hoje em dia tenho que fazer dois mil, colocar na livraria
e em um ano eu vendo tudo. Isso aí já está comprovado,
tanto que eu estou no sexto livro. Todos os meus livros eu fiz dois
mil, quase esgotei tudo em um ano, só a rapinha eu deixo escondida
até eu imprimir de novo. Então dessa forma tá
dando certo hoje em dia. Agora banca? O cara tem que fazer o que?
10 mil, 20 mil no mínimo!
Eu
acho que tem vários fatores. Tem a internet que dá tudo
de graça e tem o preço das coisas. Se as pessoas tivessem
dinheiro no bolso, elas gastariam mesmo, você conhece as pessoas.
Se elas tivessem em uma situação com emprego sobrando,
que olhasse no horizonte e visse o futuro garantido,enfim, nego com
dim-dim no bolso, sabe que o amanhã tá seguro, ele gasta
mesmo! Brasileiro gasta mesmo e tem que gastar! Se não tiver
consumo como é que a economia gira? Tem gente que fala que
é consumismo, mas tem que gastar. Sempre que você gasta
está ajudando alguém, está ajudando o lojista
que vende o produto, a fábrica que fez. Se você pode
gastar ... gasta, caralho (risos)!.
O
que está acontecendo hoje em dia é que as pessoas estão
gastando muito pouco porque a gente está com a economia apertada
e isso é no mundo inteiro. Falam que os EUA eram o templo do
consumo, mas até os EUA estão em crise. Por que os padrões
caíram tanto lá? Lá também tem crise,
tem desemprego e aquela besta do Bush gasta furtunas para invadir
um país. Por que não pega essa grana e investe em emprego
decente? Para melhorar a economia, dar uma força para outros
países, saca? É isso que deveria ser feito. A gente
está em uma crise econômica, as pessoas para gastar hoje
em dia pensam duas vezes, três, quatro.
Pop:
Lendo as suas entrevistas no seu site reparamos que tem muito mais
procura das revistas de rock do que de quadrinhos. Você se sente
bem quisto no meio dos quadrinhos?
MB:
Eu me sinto mais do que bem quisto, porque assim eu tenho amizade
com quase todo mundo nesse meio. É o que eu falei, de moleque
eu conheci o Moacir Torres e o Mastroti, que são dois profissionais
que bem ou mal estão vivendo de quadrinhos até hoje.
Eles não têm outra profissão durante o dia e fazem
quadrinhos a noite. Eu tenho muito respeito por eles e eles me adoram!
Outro cara que eu conheci desde moleque é o Bira
(Dantas - cartunista e chargista muito premiado em Salões de
Humor). O Bira é um brother meu, eu conheci ele quando eu tinha
18 anos e a gente ficou brother automaticamente. E o Bira também
não é um cara que não tem outra profissão,
ele é cartunista full time (o tempo todo) e foi assim
a vida inteira. E ele, na minha opinião, é um dos melhores
do Brasil. Ele está fazendo cada coisa que eu estou pirando,
ele está desenhando cada vez melhor. Ele está lançando
um livro (uma adaptação de Memórias de um Sargento
de Milícias), que eu vi umas páginas... que coisa mais
linda! Ele é um cara que eu falo: "Eu tenho orgulho de
ser seu amigo!". E ele é um cara que começou trabalhando
no estúdio do Ely Barbosa, que acabou de falecer.
Então,
é gente que está enfiada nesse mercado de quadrinhos
até o pescoço e é gente lutadora, porque você
tá ligado que esse mercado não é fácil.
Então só fica mesmo esse tempo todo esses caras que
tem talento. Moacir Torres tem talento, o Mastroti tem talento, Ely
Barbosa tinha talento. Ely Barbosa chegou a ter um bom império,
mas secou para o lado dele, quer dizer, secou para todo mundo porque
é uma crise econômica. Então eu me sinto bem quisto,
eu tô lá no Bigorna
e sou bem tratado, até por caras que não me conhecem
pessoalmente. Olha a prova aqui.
(Baraldi
mostrou uma pilha de cartas que ele recebe de fanzineiros, cartunistas,
fãs, amigos que mandam revistas, desenhos, cartões,
ou que trocam uma idéia via correio com ele, realmente é
uma quantidade bem impressionante de correspondências. Baraldi
citou vários fanzineiros com muito carinho, mas se a gente
listar aqui... o espaço acaba.)
MB:
Então, é um pessoal que me adora. Mas também
eu sou um cara que teve uma origem humilde, lutei para chegar aqui,
nunca esnobei ninguém, nunca maltratei ninguém. Hoje
eu estou em uma situação melhor, ainda bem. É
um monte de cartas, meu orkut bomba, lotado, a galerinha me adiciona
direto. "Ô, Marcião, não sei o quê,
me adiciona aí." Mas eu sou povão mesmo. Nego me
para na rua e eu falo com todo mundo!
Leia
a segunda parte >>>