Infelizmente, Lourenço Mutarelli é um ilustre desconhecido dos quadrinhos nacionais. Por mais que seu nome sempre figure em sites e revistas especializadas como um dos maiores expoentes das HQs no Brasil, poucos leitores de fato tiveram contato com sua obra. Os mesmos veículos que o colocam em meio a outros nomes mais manjados do mercado nacional não lhe dão espaço para expressar tudo que ele pensa dos quadrinhos como arte e como profissão.

Talvez porque para Mutarelli faz questão de manter uma postura independente de quem coloca sua arte e seu ganha-pão acima do interesse de terceiros. Poucos autores têm a coragem que Mutarelli tem de fazer críticas tão fortes a trabalhos que fez para editoras que ainda publicam seu material. Menos ainda são os que conseguem ser coerentes quando afirmam que não trabalham de graça mas não se tornaram mercenários. Mutarelli demonstra que compreende muito bem a distinção entre trabalho e prazer quando fala de sua arte.

Extremamente sincero, nesta entrevista ele fala de como deixou de ser um autor de quadrinhos para mostrar suas obras em outros meios, como a literatura, o cinema e o teatro. Em todos eles, o caráter pessoal das histórias que ele conta se mostra a principal característica do autor. Quem esperava ver o típico desenhista veterano reclamando da vida dura e clamando por mais espaço para seu trabalho vai se surpreender. Sem demagogia, Mutarelli afirma – e prova – que encontrou seu espaço para se expressar e discute sobre o underground e o mercado de álbuns de luxo que vem se formando no Brasil.

Confiram a seguir a primeira parte desta entrevista com este paulistano de 42 anos que tem um histórico de raridades em fanzines e revistas independentes como Over-12, Solúvel e Animal.

Pop: Você disse em cursos e entrevistas que parou de fazer quadrinhos e hoje se dedica exclusivamente à literatura. Como ocorreu essa mudança?

Lourenço: Eu acho que a forma mais simples de entender isso é que eu nunca levei mais do que quinze dias para escrever um livro, que é mais ou menos o tempo que eu levava para escrever o roteiro de um álbum de cem páginas e depois eu passava de dez meses a um ano desenhando isso. Então eu pulo esse trabalho e só por isso já seria interessante.

Eu estou muito cansado de desenhar. Acho que o meu desenho chegou no limite, não tenho tido prazer em desenhar. E o meio dos quadrinhos é bastante desagradável. Então eu me livrei de muita coisa e passei a ganhar dinheiro com meus textos. Não existe amor que resiste a tanto contrário. É mais ou menos isso que me fez perder a graça.

P: A gente acompanha o seu trabalho desde o começo e o seu traço mudou bastante. Por um tempo você inclusive fez ilustrações para os livros de RPG da Devir, como Lobisomem: O Apocalipse, e o seu desenho era bem diferente. Isso acontecia por que era um trabalho encomendado?

L: Eu não conseguia fazer meu traço (característico) porque eram coisas de que eu não gostava nem um pouco e eu tinha que produzir muito para ganhar alguma coisa. Então esses trabalhos são coisas muito “matadas” e totalmente despersonalizadas. Eu tenho certeza que aquilo não influenciou meu traço, mas talvez tenha me ajudado a agilizar algumas coisas ou a ver como pode ficar ruim um trabalho.

P: Você não costuma trabalhar em parceria. Você não pensar em voltar para quadrinhos nem fazendo roteiro para outras pessoas desenharem?

L: Não, fiz muito pouca parceria. Eu tenho muito ciúme das minhas histórias para serem quadrinizadas. Eu fiz um texto para um pessoal que vai fazer quase uma fotonovela. Eles trabalham graficamente (o material) e depois fica parecido com desenho. Eu achei legal o projeto deles e fiz um texto. Mas os meus textos mesmo eu não tenho muita vontade de ver quadrinizados por outras pessoas. Talvez porque não tenha ninguém que tenha um traço que eu acho que caiba com as minhas histórias. Tem gente de quem eu acho o trabalho muito legal, mas eu não sei se ficaria bem com o meu texto. Não sei, acho que eu sou ciumento mesmo.

P: Tem uma declaração do Maurício de Souza dizendo que o Angeli faz um underground brasileiro que é melhor que o do Crumb e dos outros americanos. A gente queria saber o que você acha do underground brasileiro.

L: É uma pergunta bem difícil, porque essa história de underground é uma coisa bem complicada. Geralmente o cara que é underground é um cara que não consegue um espaço maior.

P: Você é underground?

L: Não, acho que não. Nunca tive, pelo menos, essa ideologia underground. Acho que o Macarti tem isso. Eu sempre fiz o meu trabalho e nunca tive o objetivo de enquadrá-lo assim. Era underground porque não tinha espaço e eu só queria fazer o meu trabalho.

P: Seu traço no começo tinha grande influência do Crumb.

L: Tinha bastante influência do underground americano. Do Crumb e de outros, como o Ritch Griffin. Tinha muita influência do underground americano, mas não especificamente do Crumb. Era uma época em que eu bebia muito no underground americano, então, mesmo sem querer, era uma coisa que me influenciava bastante.

P: Por que quadrinhos?

L: Quadrinhos porque numa época eu achei que era a melhor forma que consegui de me expressar, de me comunicar. Eu costumo dizer que sempre que eu desenhava alguma coisa eu acabava escrevendo alguma coisa num canto e quando eu escrevia sempre acabava desenhando alguma coisa na margem. E quadrinhos era uma coisa de que eu gostava muito e é mais livre de crítica, tem mais liberdade, acho que foi por isso. Meu pai gostava muito de quadrinhos e acho que foi uma forma de me aproximar dele também. Não existe uma única razão, acho que é uma série de fatores.

P: Hoje você lê alguma coisa de quadrinhos?

L: Eu não leio quadrinhos há muito tempo, há muito tempo mesmo. Acho que faz uns cinco anos que eu não consigo ler quadrinhos, mesmo das pessoas de quem eu gosto. Acho que nesse tempo a única coisa que eu li foi o Stigmata, do Matoti, e alguma coisa do Miguelanxo Prado. Mas eu não tenho tido mais tempo. Eu não tenho conseguido ler nem romance. Estou lendo só os textos mais didáticos.

P: Você fez muita ilustração ligada a rock, chegou a fazer o logo da primeira banda do Gastão Moreira. Como é essa ligação sua com o rock?

L: Até hoje eu faço capa pra banda e geralmente falo que a única condição é que eu não tenha que ouvir a música, porque é uma coisa que não me agrada, mas que já me agradou um dia. E eu acho legal. Os meninos me pedem com muita vontade e aí eu faço porque não me custa nada, em um dia de trabalho eu resolvo e se eu gosto dos meninos eu acabo fazendo.

P: E o que você ouve?

L: Eu ouço principalmente o que eles “chamam músicas com partes repetitivas”. Tem um nome mais sofisticado, “músicas com estruturas repetitivas ou minimalistas”. Eu ouço muito Philipe Glass, Arvon Part. Ouço umas coisas no mínimo exóticas, umas operas contemporâneas e tango sempre. Às vezes ouço rock com o meu filho, estou educando ele para boa música, então eu apresento ele para o que foi bom para mim um dia.

P: Você conseguiu se transportar para outras mídias como literatura, teatro, cinema (a adaptação do Cheiro de Ralo vai participar do Festival do Rio agora em Setembro e estréia nos cinemas em janeiro). Como foi essa passagem?

L: Tudo começou com o Cheiro de Ralo, mas foi meio que um acidente. Eu comecei a escrever uma história e vi que se eu colocasse desenho ia tirar muito da força da história. Então eu fiz como um livro e aí começaram a abrir um monte de portas. Em menos de um mês depois de ter lançado o livro já tinha vendido os direitos. Na época, o Heitor (Dhalia) estava fazendo o Nina e ele me convidou para fazer as animações do filme. Aí eu conheci um pessoal de teatro, gostei muito do trabalho deles e eles queriam adaptar o Cheiro de Ralo para o teatro, mas eu já tinha vendido os direitos. Então eu escrevi uma peça para eles, depois escrevi mais, dois livros e foi indo.

Daí eu virei ator também. Um menino da USP me convidou para atuar num curta dele e eu achei legal. Estava trabalhando com teatro e queria ver como era o outro lado. Só que eu adorei a brincadeira e aí vira e mexe eu estou fazendo alguma coisa.

P: De todo esse espaço que você está tendo, o que você gosta mais?

L: Acho que o que eu mais gosto é escrever mesmo. Tenho tido muito prazer em escrever. Gosto muito de atuar, brincar de atuar. Acho que o que eu mais gosto é brincar de atuar. Mas escrever é o melhor. É o mais criativo. É onde eu me entrego mais. É onde surgem coisas de que eu gosto, por que eu passei. É interessante.

P: Todo mundo reclama do mercado literário. Falam que isso não existe no Brasil. O que você acha?

L: Talvez não exista. Eu acho que não dá para viver de livro. Mas eu vendi tudo que eu escrevi de romance. Vendi os direitos para cinema e teatro e isso dá uma grana boa. Eu fui muito bem aceito pelo meio literário, me acolheram muito bem. Coisa que nunca me aconteceu no meio dos quadrinhos. Nos meio dos quadrinhos sempre me trataram como um anão ou um corcunda, ou uma aberração. E na literatura, pessoas que eu respeito profundamente me trataram com muita igualdade, muito carinho. Então para mim tem sido muito bom e é um meio em que te tratam como um adulto, uma pessoa inteligente. Nos quadrinhos eles te tratam sempre como um garoto rock´n roll, perdido ou alguma coisa assim. É um tratamento mais sério, mais adequado para minha idade. Eu prefiro ir de van do que de kombi.

P: O Eduardo Nasi, colaborador do UHQ, sempre disse que você era um dos poucos que conseguia mostrar coisas novas para ele. Como é criar um estilo próprio?

L: Isso para mim é bem particular, porque eu costumo dizer que eu crio um estilo próprio por não saber fazer direito. Eu tento fazer dentro do que eu acho que é direito mas eu nunca consigo e aí acabam dizendo que eu tenho um estilo próprio, tanto na literatura, quanto nos quadrinhos e no teatro. Mas acho que é porque eu não sei fazer direito. Tudo que eu faço, para mim, é uma experiência, uma brincadeira. Eu não estou preocupado em ganhar prêmios, em fazer bonito. Eu estou preocupado em experimentar, então eu me entrego, me arrisco, faço o que vem, o que dá vontade, só como uma brincadeira mesmo. Talvez isso acabe refletindo. Eu sempre tive um traço pesado, talvez por nunca ter feito curso de nada, por ser autodidata.

P: Você foi autodidata, mas hoje em dia tem dado cursos e oficinas sobre roteiro. Como é isso para você?

L: É bom o resultado. Eu sempre falo que o meu curso é para desaprender. Quando o curso é longo, eu sempre tento tirar umas coisas que as pessoas mitificam e vou puxando para que elas sejam elas mesmas. É incrível como desenvolve o texto dessas pessoas. É legal acompanhar. Eu acabo fazendo mais por isso. De alguma forma eu estou ajudando elas a se expressarem.Como eu aprendi sozinho... Eu lembro uma vez que eu pedi ajuda para um desenhista quando trabalhava no estúdio do Maurício de Sousa; era uma técnica muito específica, chamada retoque americano, é uma coisa que hoje photoshop faz, e pedi para me ele me ensinar e ele disse que nunca ninguém ensinou a ele e que eu me virasse. Eu achei isso profundamente egoísta, porque quando a gente aprende é tão bom poder dividir. Eu tento fazer isso, dividir o que eu aprendi comigo mesmo e o resultado me faz bem.

P: Você começou com o Maurício. Como foi sua carreira?

L: No começo eu trabalhei na parte de animação, como intercalador e depois cenarista. Eu comecei tentando fazer quadrinhos, daí não consegui. Então apareceu uma oportunidade de trabalhar com o Maurício, fiquei lá uns três anos e meio. Aí eu saí de lá decidido a fazer quadrinhos. Fui fazer meus fanzines e tentar, tentar publicar, conseguir espaço.

Na época havia, felizmente - e não que fosse fácil - muitas revistas de banca. Então, com certa insistência você acabava conseguindo um espaço de uma página ou coisa assim e se tivesse uma aceitação eles iam te dando sempre um espaço pequeno. E eu tive essa sorte de ir conseguindo com muito custo um espaço. Depois teve a editora Mil Perigos, que criou o selo Graphic Dealer para publicar o meu álbum Transubstanciação.

Eu percebi que o melhor caminho para o meu trabalho era o de álbuns, seguindo a linha americana. Nessa época tinha a editora Vidente - começou como Vidente e depois sempre ia mudando de nome por problemas fiscais, mas era sempre o mesmo editor, o Gilberto Firmino. Ele publicava com aquelas revistas Porrada Special, que tinham sempre na capa uns adjetivos como “brutal”, “sacana” e “fantástica”. Com ele eu publiquei Desgraçado, Eu te amo, Lucimar e A Confluência da Forquilha. O que eu não sabia na época e vim saber só depois é que a ele procurava a Devir, que era a distribuidora na época e comprava antecipado quantos álbuns fossem necessários para bancar os custos de publicação.

Os meus álbuns sempre venderam pouco, mas tinham um público fiel que garantia que sempre iriam recuperar o que foi gasto em gráfica e com o meu trabalho, não dando prejuízo para a editora.

P: De lá para cá o mercado de HQ's mudou bastante, enxugou e caminha cada vez para essa linha de álbuns caros. O que você acha?

Tem uma vantagem e uma desvantagem. A vantagem é que você encontra quadrinhos em livraria, algo que é em boa parte um mérito da Devir, algo que é comum se não no mundo todo, pelo menos na Europa. Mas no Brasil são raras as pessoas que trabalham com álbuns, geralmente é uma coletânea de histórias antigas ou tiras. Mas vai se criando um mercado como o de vários países, com outros autores e esse material vai tendo uma visibilidade diferente do quadrinho de banca, que vendia muito mas era descartável. O álbum tem um formato mais durável.

O público mudou, o Angeli vendia 120 mil Chiclete com Banana e hoje deve vender em torno de três mil álbuns. As revistas de que eu participei, quando estouravam, vendiam no máximo doze, quinze mil. Trinta mil era a Animal e depois ela teve uma ascensão e uma queda.

É uma pena que saia tão caro. Eu lutei por muito tempo para tentar baixar o custo, mas é impossível porque a livraria pega 50% do preço de capa. Então se o álbum custa R$ 25,00, R$ 12,50 é da livraria. Então você ainda tem que pegar gráfica, fotolito, o meu trabalho, o trabalho da editora e acaba saindo caro mesmo. É uma pena mas é uma forma de sobreviver, de manter os quadrinhos. É a única por enquanto.


Bom essa conversa ainda vai longe... vejam aqui na segunda parte o que o Mutarelli acha sobre a vida de artista, dos fãs e até a visão política dele.

 

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