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Ler a Primeira Parte

E como o Mutarelli é muito bom de conversa... a entrevista continua:

Pop: Todo mundo diz que ser artista no Brasil é algo inviável, não dá para sobreviver. O que você acha?

Mutarelli: Olha, eu não era artista. Eu me considerava artesão. Trabalhava muito e não ganhava nada. Depois de um tempo, eu falei "Eu vou ser artista", porque artista tem um monte de regalia, artista pode um monte de coisa. Hoje chegou uma mulher em quem eu dei um puta cano e ela falou: "Não, você pode". Então eu assumi que sou artista. Assim você não trabalha tanto, pode ter crise, passar a tarde jogando vídeo game e falar: "Aí ... não deu".

Então, ser artista em qualquer lugar não é fácil, mas eu dei sorte. Sei lá, eu tenho dado sorte. Minha vida foi muito desgraçada, mas de um tempo para cá ela está muito boa. Então eu estou aproveitando a maré enquanto dá. Por enquanto eu estou na minha melhor fase. É um enorme privilégio que eu lutei para conseguir de acordar e dormir fazendo o que eu quero, o meu trabalho, e isso é uma coisa incrível. Não pego trânsito. Por outro lado eu não tenho comprovação de renda, não tenho nada em meu nome. Tudo tem um preço. Sei lá, essa coisa de artista é bom, é bom fingir que é artista. Eu acho que eu finjo.

P: Saiu uma declaração sua na Folha de São Paulo dizendo que você vai votar nulo.

M: Foi um susto isso, porque eu não sei quando eu falei isso. Eu fui no mercadinho aqui perto e o cara falou: "Você vai votar nulo, Lourenço?". Eu disse que sim e perguntei como ele sabia e descobri que saiu no jornal. Eu vou votar nulo, mas não sabia que tinha dito isso. Deve ter sido em Parati (no Festival Internacional de Literatura de Parati), eu dei tanta entrevista picada que nem lembro de ter falado isso. Mas é verdade, eu voto nulo há muito tempo.

P: Mas por que você vai votar nulo? Você acha que a política brasileira não vale a pena?

M: Não vale. É divertido o horário político. Dá para rir, dá para chorar. Eu não acredito em ninguém, muito menos em político, ainda mais os que tem por aí. Peroba neles! É uma coisa surreal, você vê que os caras, todos eles, mamam legal, depois tomam um Dreyer a mais para gravar e parecem um boneco falando. Eu não vou votar nesses caras, sou responsável, minimamente responsável.

E é bom anular. É um sinal de que não tem ninguém aí. E acho que para mim nunca teria ninguém. Eu não acredito em político. Eu acho que se um cara é integro ele vai ser taxista, ascensorista, porteiro, quadrinhista. Ele não vai querer ser deputado, vereador. Isso não é coisa de gente séria. Eu não confio.

P: Qual a melhor obra que você já fez? Qual a obra da sua vida?

M: Pra mim é o Natimorto, é o que mais gosto de tudo que já fiz. Não sei porque, mas eu gosto muito do Natimorto. Talvez porque tenha sido feito com uma editora que fez um trabalho bem cuidado e eu não tive que fazer nada, peguei o livro pronto e ficou bem legal. Também porque eu gosto da história.

Das minhas histórias em quadrinhos, a que eu mais gosto é uma que saiu no Seqüelas, que se chama Resignação.

P: Você tem um tema constante?

M: Tenho algumas coisas que são recorrentes, mas quando eu escrevo nunca quero passar uma mensagem, nunca tenho um dogma ou coisa assim. Eu quero dividir coisas que eu penso que me afligem ou uma história que surge. E tem coisas que são recorrentes, mas porque são recorrentes na minha vida, então são coisas que aparecem e desaparecem, mas sem um objetivo. É porque elas voltaram.

P: Como você mesmo disse, você tem um público fiel. O que você acha disso, ter uma pessoa que admira o seu trabalho?

M: É muito legal, porque é o que mantém o meu trabalho. É muito constrangedor ao mesmo tempo, porque eu não sei nada deles, porque eu não os conheço. Às vezes eles me vêem e eu não sei quem são e isso é uma coisa muito estranha. Mas a gente sempre tem muita gratidão porque é o que mantém o meu trabalho, o que me permitiu seguir.

Quando eu faço uma história eu não faço pensando em ninguém, eu faço para mim. Mas isso é mais legal ainda, saber que alguém gostou daquilo. É uma sensação boa, uma sensação de amparo.

P: Em literatura quais são as suas influências?

M: De certa forma, as influências minhas na literatura são muito semelhantes às dos quadrinhos. Não sei nem se são influências, mas as pessoas que me marcaram muito na minha tenra idade, como Dostoiesvisk, Kafka, Borges, mais recentemente Dionfante, Elroy. Muita gente boa, que marca mesmo. Ionesco, Becket. Difícil dizer uma influência. São muitas, a gente sempre se intoxica das coisas que a gente gosta e isso fica muito invisível. É difícil para o autor dizer uma influência, a não ser o cara que siga mesmo uma linha.

P: Seqüelas foi uma coleção de pequenas histórias. Você tem vontade de lançar alguma história sua que esteja pronta e não saiu?

M: Eu não tenho nada inédito. As únicas que tenho inéditas são histórias póstumas, que eu costumo dizer que se eu publicar eu morro. Tenho coisas que se perderam, coisas que saíram em fanzines da Porrada, que era um material que se chamava "Histórias impublicáveis", mas eu nem sei mais onde estão esses originais e eram coisas muito ruins. O Seqüelas eu já me senti meio constrangido em publicar, mas os leitores que não conheciam meu trabalho avulso pediam, então eu resolvi publicar. Tenho coisas começadas, mas que provavelmente nunca vou terminar.

P: Você não faz o famoso fundo de gaveta?

M: Não tenho. Eu sempre consegui escoar tudo. Eu também não sou daqueles que ficam produzindo por produzir. Eu não tenho scketchbook. Isso também é uma coisa do desenho que é saturado para mim. Nunca mais eu desenhei por desenhar, sabe, ficar no telefone rabiscando alguma coisa. Nem Imagem e Ação (jogo de mímica e desenho) eu jogo porque não desenho de graça. Virou uma coisa muito de trabalho. É sério, o pessoal jogava e eu falava "De graça nem fodendo". Virou uma coisa assim, só para bandas de rock mesmo. Mas eu nunca deixo falarem o preço que me pagaram e isso criou umas lendas. "Quanto você tem?". "Eu tenho trinta, cinqüenta". "Tá, então me dá aí e fala que você pagou mais, fala seis mil". Se não eu me queimo, porque tem gente de quem eu cobro caro.

P: E para escrever? Você não escreve algo mais solto, uns "rabiscos"?

M: Escrevendo eu faço isso. Mas é uma coisa meio espiritual, é como se eu fosse tomado. No momento eu estou escrevendo dois livros e uma peça de teatro. Não podia, mas eu vou alternando. De vez em quando eu começo algo e isso não se desenvolve, então eu aproveito aquela idéia em outro lugar. Eu comecei fazendo um livro de contos, daí eu fui vendo que eu estava trabalhando dois livros e fui seguindo. É bom porque um é muito difícil, pesado e o outro divertido. É mais ou menos como quando eu trabalhava no Diomedes e fazia as histórias para o CiberComix, eu dosava dois esquemas que eram legais.

A literatura é bom porque é um mergulho bem profundo, bem intenso e você sai rápido. Daí você precisa de um tempo para observar aquilo. Absorver, ler, isso é importante para não se repetir demais.

P: Você tem alguma estética, poética, coisa que você sempre tenta seguir?

M: Eu diria que eu tenho um padrão de qualidade. Por mais experimental que seja, eu tenho um limite. Eu tento fazer da melhor forma possível, porque eu poderia publicar um monte de lixo, mas isso eu não acho legal.

Eu tenho tido a experiência agora de trabalhar argumento para outras pessoas e isso é um pouco mais difícil, porque nem sempre fica com o mesmo peso que uma história minha. Mas é legal, porque o valor desses textos é justamente quando eu me despersonifico. Isso às vezes é o grande mérito desses textos, deixar de ser eu, ser minimamente eu e mais a coisa que a pessoa quer. Isso é um desafio, mas que nem sempre o resultado me agrada. Me agrada o acordo que eu fiz com a pessoa, se agradei a pessoa, mas não como uma obra minha. E eu pretendo publicar alguma dessas coisas.

P: Você já falou de roteiros que você faz atendendo pedidos dos mais estranhos. Você ainda faz esse tipo de coisa?

M: Faço, faço porque esse tipo de coisa dá muito dinheiro e eu sou muito prostituto nesse sentido. Faço e continuou fazendo, a não ser que não paguem. Porque para mim é fácil. Eu estou conversando com eles, eles estão falando a idéia e é como quando eu era ilustrador. Se eu visualizava o que a pessoa quer, tranqüilo, mas se eu não visualizava era mais complicado.

P: O que você acha que faz um bom livro, um bom quadrinho? O que faz uma boa história?

M: Acho que tem algumas coisas que são básicas que as pessoas esquecem. Uma boa história não precisa ser uma coisa totalmente inédita, revolucionária, ou inovadora. Acho que o que é essencial em uma história de qualquer natureza é que ela seja bem contada. Que ela tenha uma estrutura, que ela flua. Acho que basicamente uma boa história é uma história bem contada. Você conta e não é sofrido para quem lê, não precisa de explicação.



Agradecemos ao Lourenço, Lucimar e aos gatos Naquim, Mia e a Mentira, que nos receberam muito bem e fizeram a gentileza de conceder essa entrevista e os autógrafos.

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