Artistas

Will Conrad

Vilmar Conrado nasceu e cresceu em Belo Horizonte, Minas Gerais. Começou desenhar ainda criança e aos 10 anos já criava pequenas histórias na sala de aula, sonhando que algum dia conseguiria ser um quadrinhista. As primeiras lições de desenho foram através de vários livros de arte, além de muita observação de quadrinhos e fotografias. “Todo tipo de informação a que eu pudesse ter acesso, eu não perdia a chance de adquirir e estudar”.

Os primeiros trabalhos como ilustrador profissional foram para livros didáticos e infantis, jornais de empresas, matérias para a internet, etc. Enquanto isso, continuava estudando para trabalhar com quadrinhos, sempre preocupado em ter uma narrativa visual bem desenvolvido. Logo, começou a fazer testes para as editoras dos EUA e aos poucos as coisas foram acontecendo.

Hoje, aos 34 anos, Will Conrad, como ficou conhecido após desenhar várias revistas para as grandes editoras norte-americanas, demonstra ainda o entusiasmo de um garoto que ainda sonha em aprimorar cada vez mais sua arte. Isso fica claro na maneira como recorda de passagens nem sempre felizes de sua carreira, mas que nunca deixaram ele perder o ânimo para perseguir seu sonho. 

Nessa entrevista exclusiva concedida por e-mail ao Pop Balões, Will fala desse começo suado e da sensação boa de colher os frutos do trabalho ao lado de nomes como Joss Whedon (Buffy, Surpreedentes X-Men), com quem fez a consagrada série Serenity.

Pop: Você tem feito muito sucesso nos EUA, alguns sites já estão te chamando de superstar dos quadrinhos, mas aqui no Brasil você é pouco conhecido e muitos nem sabem que você é brasileiro. A que você atribui isso? É aquela história de que mineiro é quietinho?

Will: Acho que é um conjunto de coisas. O fato de terem mudado o meu nome é um deles. Outro fator é que eu me comunico com um agente americano, ou diretamente com os editores, sem o contato com agentes no Brasil. Com isso, eu acabo tendo pouco contato com os desenhistas que trabalham através dos agentes brasileiros. Além disso, como normalmente estou sempre lotado de trabalho, acaba sobrando pouco tempo para participar de eventos aqui, ou para trocar idéias com o pessoal da área, etc.. E, é claro, tem a história de que mineiro é come quieto... Eu não sou muito de ficar fazendo alarme (risos).

Pop: Você tem duas histórias bem notáveis do início de sua carreira. A primeira foi um encontro com um dos maiores, se não o maior, mestre dos quadrinhos: Will Eisner. Você ganhou um concurso de desenho que lhe concedia 5 minutos com Eisner. Como foi essa conversa? Recebeu algum conselho valioso?

Will: Bom, essa história foi mal interpretada. Na verdade, o prêmio do concurso não era falar com o Eisner, e eu nem cheguei a ganhar o tal concurso. (Um jornalista lá do Tio Sam me entrevistou e eu disse que tinha PARTICIPADO de um concurso na ocasião em que o Will Eisner esteve aqui, e ele considerou que eu tinha ganhado o concurso). O caso é que o Eisner esteve realmente em uma bienal aqui e eu consegui, depois de algum custo, um tempinho para falar com ele – penei, porque meu inglês na época era ainda bem fraco – e neste tempo ele viu algumas coisas minhas e me deu algumas dicas valiosas.

Mas o que marcou mesmo foi ele ter falado que meu trabalho em termos de narrativa visual já estava bem maduro e que eu tinha um grande futuro pela frente, se eu investisse em desenvolver pequenas coisas na arte. Isso, vindo de um dos maiores nomes do quadrinho mundial, foi um combustível fabuloso para o ânimo e me ajudou a nunca desistir de entrar para o mercado americano.

Pop: A sua segunda aventura foi um tanto trágica. Em uma viagem de ônibus para São Paulo, justamente quando você estava trazendo seu portifólio para ser avaliado pelo estúdio Art & Comics, o ônibus sofreu um grave acidente e felizmente você saiu ileso e ainda salvou o seu portifólio. Na verdade, isso é o mais impressionante. O que passou na sua cabeça na hora do acidente para não abandonar o portifólio?

Will: Puxa, esse caso é bem macabro... Eu estava no ônibus e teve um acidente horroroso com um caminhão que vinha em sentido contrário na chuva. Bem, tudo foi muito rápido e quando a adrenalina começou a baixar, eu me vi no meio de um punhado de gente ferida, alguns muito gravemente... Tava lá ajudando a socorrer da melhor forma possível, mas de alguma forma eu consegui me agarrar ao portifólio. Não sei bem o que passou pela minha cabeça, acho que não pensamos muito nestas horas e agimos mais por instinto. Imagino que o meu instinto era não desistir de jeito nenhum, nem que estivesse no meio daquela calamidade – e meu portifólio e uma mochila eram tudo o que eu tinha.

Por fim, quando as coisas já estavam mais calmas e o socorro havia chegado com as ambulâncias e as autoridades, eu pensei “Pior não pode ficar. Agora eu vou para São Paulo de qualquer jeito...” e peguei carona com um caminhoneiro que estava ajudando o pessoal do acidente. Ele me deixou na próxima parada de ônibus e de lá eu segui viagem para São Paulo.

Pop: No final essa visita ao Art & Comics não foi tão aproveitável, não é? O que eles falaram do seu trabalho?

Will: Pelo contrário! Foi muito proveitoso ter ido lá. Eu tive meu primeiro contato com uma agência de quadrinhos e descobri que a coisa realmente podia dar certo. Apesar de não ter tido o retorno que esperava sobre minha arte, o fato de ter “visto” que o mercado americano não era só uma fantasia me encheu de um vigor novo e eu pensei: se outros artistas podem, eu também posso. E eu me empenhei ainda mais em aprimorar meu trabalho.

Pop: Um acidente de ônibus seguido de uma rejeição... muitas pessoas veriam isso como um sinal para desistir. O que te fez continuar tentando?

Will: Como eu falei antes, quando eu era mais novo e sonhava em desenhar Conan, Batman e Homem Aranha, tudo não passava de uma fantasia meio distante. A partir do momento em que eu me dei conta de que desenhistas brasileiros estavam desenhando para fora, eu me tornei obstinado em me juntar a eles, e o que antes era apenas uma fantasia distante se tornou um sonho possível, que só dependia de meu próprio esforço.

E se eu já estudava e trabalhava antes, imagine depois (risos).

Pop: No final, para entrar para o mercado americano você teve que traçar o próprio caminho lá, falando direto com a Glass House. De onde você teve essa idéia? Como você foi recebido?

Will: Bom, depois de muito tempo tentando contato com a agência brasileira, eu comecei a ficar desanimado com o retorno e principalmente com a falta de comunicação. Eu ficava tentando falar com eles por semanas, pedindo que avaliassem as últimas amostras que havia enviado, e sempre havia problemas de contato. A uma certa altura, eu descobri que a agência aqui tinha sociedade com a Glass House Graphics nos EUA – e foi neste momento que comecei a ter contato com (Mike) Deodato e acabamos nos tornando grandes amigos – e ele me passou o telefone do escritório nos EUA.

Aí eu liguei e conversei com o David Campiti, diretor da GHG, e expus minha insatisfação sobre a falta de feedback aqui. Ele me pediu que mandasse minhas amostras e a partir daí eu estabeleci contato direto com ele. Eu tinha respostas sobre amostras no mesmo dia, conversava sobre oportunidades de trabalhos e a coisa começou a fluir realmente.

Eventualmente as agências se separaram, e eu continuei trabalhando com a Glass House, através da qual eu já estava trabalhando e construindo minha carreira lá fora.

Pop: Dizem que hoje em dia não é necessário americanizar o nome para trabalhar, mas você criou o pseudônimo Will Conrad. Foi opção ou alguma exigência?

Will: Acho que hoje, como o mercado americano já está mais acostumado aos estrangeiros, não é tão necessário o uso de pseudônimos. Claro que em alguns casos eles facilitam que seu nome seja mais rapidamente reconhecido (já pensou algum americano pronunciando Deodato Taumaturgo Borges Filho?) e isso conta. No meu caso, foi um pseudônimo sugerido pelo meu agente, e eu não me incomodei. Por fim, eu já estou tão habituado com Will Conrad, que até alguns amigos e pessoas da família já me chamam de Will (risos).

Pop: Agora que você está fazendo sucesso, vivendo de quadrinhos, o que sua família acha do seu trabalho? Eles acharam muito estranho ter um filho quadrinhista?

Eu nunca senti necessidade de aprovação. Sempre procurei fazer meu melhor e pensar que, se tudo mais falhar e eu não me tornar um artista de sucesso, eu poderia chegar na velhice e dizer: “Pelo menos eu tentei”. Acho que as coisas são por aí. Pior seria ficar pensando: “Puxa, eu poderia ter dado certo...”

Quando eu comecei, as coisas não foram fáceis. Vivia duro e viver de quadrinhos nunca foi uma realidade no Brasil. Para quem se lembra, na década de 70 e 80, quando se falava de quadrinhos aqui as pessoas logo associavam a uma coisa meio underground e meio anarquista. Meus pais sempre foram pessoas mais conservadoras e me parece lógico que se preocupassem quando eu anunciei que queria ser quadrinista. Eles nunca tiveram contato com a realidade do mercado americano ou europeu e achavam que isso não tinha como dar certo.

Mas de qualquer maneira, eu afiei meus lápis e “corri todos os riscos”, e não me arrependo. Ainda que eu não seja rico, eu consigo viver de maneira digna, ter minha casa, meu carro, pagar as contas e criar minhas duas filhas lindas. E hoje meus pais sabem um pouco mais da minha profissão e acho que perderam alguns dos temores que tinham em ter um filho quadrinista. Eles até gostam de espalhar que o filho deles trabalha para fora e viaja todos os anos para os EUA como convidado de convenções (risos).

Pop: Dentre os vários trabalhos que você fez está Serenity, escrito por Joss Whedon e com capas feitas por grandes desenhistas. Como foi essa experiência?

Will: Excelente. Foi um dos trabalhos de que eu me orgulho, uma história bem legal e um roteiro incrível. Acho que foi uma química extremamente bem sucedida – tanto que a mini-série foi considerada a melhor compra de 2005 nos EUA pela Wizard.

Pop: Esse foi o seu melhor trabalho até agora? Se não, qual foi a revista que você mais gostou desenhar?

Will: Não sei se foi meu trabalho. Eu gosto de pensar que meu melhor trabalho ainda está por ser feito. Sempre procuro melhorar alguma coisa a cada página. Mas com certeza, o time que trabalhou em Serenity foi da melhor qualidade. Eu terminei de desenhar uma mini-série do Conan agora – Conan & The Midnight God, para a  Dark Horse – de que eu gostei muito, e estou fazendo agora uma continuação de Serenity que, a meu ver, está ainda melhor que a primeira.

Pop: Qual é o personagem ou o roteirista com quem você mais tem vontade de trabalhar no momento?

Will: Eu acabei de desenhar uma estória do Conan, que é meu personagem favorito. Eu desenhei uma história com o Batman para a DC, mas ainda gostaria de desenhar alguma coisa especial com o Morcego, talvez uma mini-série ou algo assim. E eu gosto muito do Aranha e do Wolverine... Quem sabe, muita coisa anda rolando lá fora e tenho tido umas propostas interessantes...

Pop: Com o mercado europeu pagando tão bem, muitas vezes até mais que o americano, por que você optou por desenhar para os EUA?

Will: Porque você dificilmente vai ver o Conan ou o Batman ou o Wolverine ou qualquer outro super herói detonando as páginas do quadrinho europeu, (risos)... Mas brincadeiras à parte, eu nunca tive muito contato com as editoras européias. A verdade é que hoje eu estou tão envolvido com o quadrinho americano que não me sobra muito tempo para dar uma olhada nas possibilidades além mar. Quem sabe no futuro.

Pop: Você gosta de super-heróis?

Will: Não. Gosto dos super vilões. Sério. Acho muito chato ficar desenhando personagens muito certinhos, tipo escoteiros... Gosto mais dos caras – e das mulheres – mais cheios de defeitos e mais próximos do ser humano. Acho que por isso gosto tanto do Conan, Wolvie, Aranha, Batman, etc.

Pop: O que faz uma boa história para você?

Will: Um bom conjunto de roteiro, narrativa visual e arte, cores e diálogo. Se faltar uma dessas coisas, a história perde a consistência.

Pop: Nossa pergunta tradicional: Por que quadrinhos?

Will: Tá brincando? Eu sou praticamente Deus!!!! Eu posso desenhar um dinossauro no meio de Nova York, ou posso fazer aparecer um vulcão no meio do Congresso Nacional! Eu posso colocar no papel o que vier na minha cabeça e criar coisas que, se fosse no cinema, o orçamento seria proibitivo. Eu adoro isto aqui!

Pop: Qual foi a história, artista ou personagem que mais te marcou? Por quê?

Will: Spirit, do Eisner. Um grande personagem, uma narrativa sempre impecável, desenhos soberbos e o mais completo quadrinista que o mundo já viu – sem demérito para outros grandes nomes.

Pop: O que você lê hoje em dia?

Will: O que as editoras me mandam de referência ou o que eu acho interessante quando vejo. Não costumo colecionar mais os títulos por dois motivos: não tenho tempo para ler tudo e não tenho mais espaço no armário para tantas revistas, (risos).

Pop: Você acompanha o mercado nacional? Tem algum plano de publicar algo aqui no Brasil?

Will: Acompanho pouco. Gostaria de publicar alguma coisa aqui sim, mas ainda não tenho nada planejado.

Pop: Quais os projetos daqui para frente?

Will: Continuar trabalhando e melhorando, até realizar meu plano macabro de dominar o mundo (risos).

Pop: Alguma consideração final?

Will: Sim! Vamo parar de enrolar e de volta pra prancheta!!! Abraços!!!

 


Comentários no nosso boteco ou por e-mail

Retornar a página inicial