Warren Ellis

Por Chico Castro Jr.*

GARÇOM, EU QUERO UM IGUAL AO DAQUELE INGLÊS MALUCO ALI!

Com Planetary e Authority, Warren Ellis atingiu o ápice de sua criatividade e perigou ficar ombro a ombro com Alan Moore

O escritor britânico de HQ Warren Ellis é um homem de extremos. Toda vez que ele se dispõe a criar uma nova série, ou mesmo assume um personagem tradicional da Marvel ou DC, você pode ter certeza de uma coisa: o homem não costuma deixar pedra sobre pedra, sempre conduzindo os personagens a novos patamares antes inconcebíveis ou mesmo disparando conceitos totalmente absurdos e engenhosos a cada quadrinho. Suas duas obras mais significativas - e qualquer fã de seu trabalho deve concordar com isso - são duas séries de autoria própria para a Wildstorm, a editora do (péssimo e adorado) desenhista Jim Lee, outrora parte da Image Comics, hoje uma subsidiária da DC.

Em Authority e Planetary, Ellis soltou a franga - criativamente falando - de tal forma, que até hoje a primeira, alguns anos após o cancelamento, tropeça em consecutivos relançamentos em busca da antiga glória, sob a batuta de escritores menos capazes. E a segunda, Planetary, planejada para um determinado número de edições (como Preacher e Sandman), até hoje não foi concluída, pois Ellis só lança no máximo quatro números por ano, às vezes menos. Contando com a mesma equipe criativa desde o primeiro número (Ellis e John "Surpreendentes X-Men" Cassaday nos desenhos), cada edição de Planetary é um evento sofregamente aguardado pelos fãs ao redor do mundo.

Mas vamos conhecer um pouco mais de cada série em si.

Se fosse para descrever em um clichê de apenas três palavras, Planetary seria “um poço de referências”, como aliás, foi posto na orelha do seu primeiro encadernado lançado no Brasil pela Devir Editora, "Mundo Estranho". Pense numa referência da cultura pop. Qualquer uma. Filmes de monstros japoneses? Os quadrinhos da Vertigo? Literatura pulp dos anos 30? Filmes de gangster chineses estilo John Woo (pré-Hollywood)? Os heróis da era de ouro da Marvel? Filmes americanos de ficção científica dos anos 50? Acredite, tudo isso e muito mais entra no liquidificador de referências que Planetary oferece ao leitor.

A cada edição, a equipe formada pelos invocados e enigmáticos Elijah Snow, Jakita Wagner e O Baterista, Os Arqueólogos do Impossível, como também são chamados, mergulham numa missão para desvendar a história secreta do século XX, sempre relacionada com alguma dessas referências. E o que poderia ficar só na homenagem babona, toma, muitas vezes, trejeitos de tratados - permeados pela visão crítica do escritor.

Na história da edição número 7, "Na Inglaterra durante o verão", o autor desanca sem dó nem piedade os personagens da Vertigo, o proverbial selo de quadrinhos adultos da DC Comics que ele mesmo ajudou a fazer a fama, com sua série Transmetropolitan e escrevendo edições de Hellblazer, entre outros trabalhos. Nela, vemos o trio de protagonistas indo ao enterro de um genérico de John Constantine, ao qual também comparecem versões de diversos outros personagens da Vertigo. "Eu não sei, talvez sejam os dez anos entre o agora e a cultura que os produziu, mas... eles não são totalmente ridículos?", pergunta Elijah Snow, diante dos personagens que nos embalaram nos anos 80 e 90, como o Monstro do Pântano, Homem Animal, Patrulha do Destino e Sandman, entre outros. Cruel, não?

Uma das coisas mais legais de Planetary é que, apesar de cada história se sustentar sozinha, independente de você ter lido ou não a edição anterior, existe toda uma sub-trama de conspiração que se desenvolve - e se complica - com absoluta maestria a cada missão. Mas o grande barato de Planetary - além dos desenhos majestosos de Cassaday, do desenvolvimento perfeito dos personagens, da conspiração (ênfase na "piração"), do ritmo de filme de espionagem e diálogos fantásticos – é mesmo o grande número de conceitos a primeira vista disparatados, mas absolutamente criativos e viajantes, que Warren Ellis espalha com a mão de um chef de cozinha ao longo de toda a série.

Para dar uma idéia ao leitor leigo, vou aproveitar um deles, já destacado pelo editor Leandro Luigi Del Manto no pósfácio do volume dois, "O Quarto Homem": "Tem uma equipe de técnicos da ex-União Soviética hibernando aqui perto. Ligados à mesma equipe de pesquisa que definiu que a alma humana é um campo eletromagnético. Dizem que descobriram para onde as almas vão. Que o Céu e o Inferno não são nada além de locomotivas sitiadas em um cabo de guerra uma contra a outra, e as almas fornecem o carvão. Este é o lugar onde a pós-vida é enganada. Você sabe... Campos eletromagnéticos são definitivamente rompidos por explosões nucleares. Eles tomaram seu último drinque e tiraram a última foto aqui, para então, serem amarrados a um mecanismo de teste nuclear no subsolo. Para a morte triunfante". Fala sério, é de pirar o cabeção um negócio desses. Garçom, seja lá o que esse inglês maluco está tomando, eu quero um igual.

E se em Planetary Ellis nos concede sua magnífica reinvenção da ficção científica psicodélica, em Authority ele faz o mesmo com os quadrinhos de equipe de super-heróis, com resultados (quase) igualmente retumbantes. Formado a partir das cinzas de uma equipe vagabunda da Image dos anos 90, o Stormwatch, o Authority é formado por um punhado de heróis super poderosos, bad ass style, que resolveram tomar as rédeas do destino do mundo nas mãos.

Ah, tem um ditador oriental maluco incitando o terrorismo e enviando super assassinos para atuar ao redor do mundo? No problems. O Authority vai lá, invade o país, desce o sarrafo nele e resolve a questão de forma nada sutil. Tudo bem que alguns milhares de pessoas morreram no processo, mas "quantas pessoas teriam morrido se não estivéssemos aqui? Não é uma grande resposta, eu sei, mas é a melhor. Nós salvamos mais pessoas do que matamos. Isso basta para mim", justifica Jack Hawksmoor, o Rei das Cidades, um dos integrantes do grupo.

Como em Planetary, cada personagem é um enigma em si e um conceito completamente inovador. Esse Jack, por exemplo, é chamado de Rei das Cidades por que é simplesmente capaz de conversar com elas. Através dos seus pés, sempre descalços, ele diz estar "fisicamente ligado ao sistema nervoso das cidades". Se ele encostasse a mão no seu prédio, este contaria a ele cada história que presenciou.

A líder do grupo, Jenny Sparks, o Espírito do Século XX, é "um mecanismo de defesa com cem anos de duração", como ela mesma se definiu, e, compreensivelmente, domina a eletricidade. Na última edição publicada em 1999, ela morreu (seu epitáfio, inscrito na lápide: "Que se foda! Eu quero um mundo melhor!"), para renascer como o bebê Jenny Quantum, de poderes ainda desconhecidos.

Meia Noite e Apolo são genéricos de Batman e Superman, respectivamente. O detalhe sacana é que ambos são homossexuais assumidos e mantêm um tórrido affair, o que inclusive gerou problemas para os autores por conta da censura interna da DC Comics, que não gostou muito de ver seus dois maiores ícones retratados como um casal gay - e dizem as más línguas, foi uma das razões do cancelamento da revista.

A base de atuação do grupo, chamada A Balsa, é uma alternave mega gigantesca, com nada menos que 80 quilômetros de largura por 56 de altura, que se move pelas veias de Deus e pode se teletransportar instantaneamente para qualquer ponto do globo terrestre, bem como pode criar portas para fazer o mesmo com seus tripulantes, entre outros feitos estupefacientes.

Sempre combatendo ameaças em escala planetária, os heróis perversos do Authority ora combatem invasões de naves de uma Terra interdimensional, ora dão um cacete em mercenários uniformizados, genéricos dos Vingadores da Marvel. Warren Ellis, em histórica parceria com o desenhista Bryan Hitch (de Os Supremos), assinou a revista até o número 12, passando a bola a partir daí para o também britânico e beberrão Mark Millar (autor de Chosen e também de Os Supremos) e Frank Quitely (Novos X-Men e We3) nos desenhos.

Essa segunda dupla de criação aumentou ainda mais o tom e as doses de violência crua e loucura nada mansa do título. Disposto a definir o teor político da série, logo nas suas primeiras páginas, criou um diálogo hilário entre Jack Hawksmoor e o presidente americano, onde o primeiro dá uma bela chamada na chincha no segundo:

Hawksmoor: "O Authority é um grupo multicultural sem afiliação nacional e o resto do mundo sabe muito bem disso. Quaisquer represálias só podem ser dirigidas a nós e estamos confiantes de que podemos cuidar de qualquer coisa que alguém decida aprontar conosco".

Presidente americano: "Maldição, Hawksmoor! Assuntos internacionais são muito delicados para esse tipo de abordagem grosseira de vocês. Situações como essa estão fora de sua jurisdição".

Hawksmoor: "Você não está em posição de definir nossa jurisdição, senhor presidente. Nosso objetivo principal pode ser defender a Terra, mas isso não significa que vamos tolerar abusos de direitos humanos ocorrendo debaixo de nossos narizes. Não somos um supergrupo de histórias em quadrinhos, que trava combates inúteis com supercriminosos a cada mês, para preservar o status quo".

Planetary e Authority estão sendo publicados no Brasil em belos encadernados pela Devir, com ótima tradução, papel de primeira, textos analíticos dos editores brasileiros e textos de apresentação de Alan Moore, Grant Morrison, Howard Chaykin e Joss Whedon, todos dando seus preciosos e entusiasmados avais para as séries.

Volumes já publicados: Planetary: Mundo estranho, Planetary: O Quarto homem, Authority: Sem perdão e Authority: Sob nova direção. Vale a pena buscar nas livrarias ou pela internet, apesar dos preços salgados, na faixa dos R$ 45,00.

 

* Chico Castro Jr. escreve no blog Rock Loco e é uma Autoridade em nível Planetário em técnicas de hipnotizar galináceos.

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