A LIÇÃO DE ASTERIX

Por Amálio Damas Jr.

Pra quem não sabe, Asterix – O Gaulês é a criação máxima dos franceses Renné Goscinny e André Uderzo. A história de Asterix e do seu povo é a seguinte: nos anos 50 antes de Cristo, o Império Romano está no auge da sua expansão, porém uma pequena aldeia na Gália (atual França) resiste ao domínio romano, tudo por que o seu Druida, Panoramix, possui uma fórmula secreta que dá força ilimitada aos gauleses. Além disso, Obelix, um enorme Gaulês, caiu no caldeirão mágico quando era criança e desde então possui força descomunal sem precisar da poção. Apesar da sua força física exagerada, Obelix não tem uma inteligência privilegiada, mas o que falta em nosso amigo corpulento, sobra no baixinho Asterix, o mais astuto dos gauleses. As histórias giram em torno da insistência dos romanos em conquistar a aldeia e da facilidade com que os gauleses conseguem derrotá-los.

Foram lançados vários álbuns de Asterix e seus amigos no Brasil na década de 70 e como eu ainda era criança nesta época e não conhecia o mundo dos quadrinhos em profundidade, fiquei sem conhecer Asterix até o início deste 2006. Obviamente já tinha ouvido falar do gaulês, através da mídia, dos fanáticos colecionadores e apreciadores e até mesmo por assistir ao primeiro filme para o cinema, mas os quadrinhos propriamente ditos, só quando o meu amigo André Canto me emprestou alguns volumes (em retribuição, lhe apresentei Poder Supremo, Alias, Planetary, Authority; já que ele é um decenauta convicto e apaixonado que só se ligava no núcleo heroístico, sem contar os gauleses, obviamente).

De todos os álbuns que me foram emprestados, o que mais me chamou atenção foi “Obelix e Companhia”, porque trata de um assunto com o qual estou familiarizado, tanto pelo trato diário, quanto pela minha formação: o marketing. Segundo Kotler (1999, p. 3) “marketing é o processo social e gerencial através do qual indivíduos e grupos obtêm aquilo que desejam e de que necessitam, criando e trocando produtos e valores uns com os outros”. Por essa razão resolvi escrever este artigo.

No começo do álbum vemos uma nova guarnição chegando à fortificação romana de Babaorum, que fica próxima da aldeia gaulesa e tem como missão combater os gauleses. Os pobres romanos já estão tão cansados de levar pancada dos gauleses que sempre avisam às guarnições recém-chegadas que permaneçam apenas esperando aqueles que irão substituí-los e que tomem muito cuidado com os gauleses. O novo comandante romano, como todo jovem, não dá ouvidos ao que o mais experiente fala e reúne seus homens para atacar os gauleses. O que ele não sabia é que naquele mesmo dia era aniversário de Obelix, o mais ingênuo e mais forte gaulês que já existiu (lembrei-me de Groo, terei errado?), e o presente de seus amigos aldeões é deixar que ele derrote toda a guarnição romana que se aproxima, afinal, outros romanos incautos aparecerão e eles terão com o que se “divertir” no futuro. Dito e feito, Obelix desintegra a guarnição romana, enquanto seus amigos cantam um esfuziante parabéns a você. Nada mais resta ao novato comandante a não ser resignar-se e esperar a próxima guarnição que irá rendê-los.

Não tarda para que a notícia chegue a Roma e um impaciente e desmoralizado César busca entre seus conselheiros soluções para a derrota desse pequeno, porém irritante, grupo de gauleses. Eis que surge Régius Velhacus, um jovem egresso dos Reformatórios de Ensino Superior (os ancestrais das universidades) que sugere a César que ocupe os gauleses com a ambição pelo ouro e com novos hábitos de consumo.

Diante da incredulidade de César diante da sua idéia, o jovem aponta para os asseclas de César que no passado o ajudaram a impulsionar o Império Romano. Nesta hora César percebe que eles não são mais aqueles jovens e destemidos líderes que o ajudaram a construir o glorioso império romano e sim velhos gordos e decadentes que só pensam em gastar suas riquezas com orgias e banquetes (alguém aí lembrou dos nossos políticos?). Percebendo então, onde o jovem queria chegar, César autoriza crédito ilimitado para que Régius Velhacus derrote os Gauleses.

1ª lição de marketing por Régius Velhacus: Criando necessidades

A primeira providência de Régius é procurar por Obelix, que derrotou sozinho o exército de César. Quando o encontra, percebe que o corpulento Gaulês carrega um menir em suas costas, o jovem romano começa então com a bajulação e...ei...espera aí, o que é um menir? O menir é um bloco de pedra que não serve para absolutamente nada. Na verdade é um monumento megalítico, que consiste num bloco de pedra levantado verticalmente, mas como diria Panoramix, nunca se sabe exatamente para que serve um menir.

Com a astúcia do melhor dos marqueteiros (ô palavrinha pejorativa, mas fazer o quê, não existe um termo melhor em português mesmo...), Régius Velhacus convence Obelix de que aquele objeto é uma obra de arte e que vale dinheiro, ou melhor, sestércios, que era a moeda romana da época.

Na verdade Obelix não conhecia o conceito de dinheiro e trabalhava sempre com o escambo de menires, ou seja, trocava um menir por outro objeto. Além disso, sua produção de menires era deveras pequena, já que quem tinha um menir não precisava de outro. É aí que entra a lábia do marqueteiro, convencendo Obelix de que o dinheiro o tornaria o homem mais importante da aldeia. Ele pede então que Obelix leve o menir até o acampamento romano e se compromete a comprar todos os menires que o gigantesco Gaulês produzir.

2ª lição de marketing por Régius Velhacus: Agregando valor ao produto (na verdade, enrolando Obelix com economês)

Régius Velhacus está comprando todos os menires que Obelix produz e sempre que ele entrega mais um, ele dobra o valor do produto, dizendo que se Obelix não puder produzir menires de acordo com o que ele puder pagar, a oferta não sustentará a demanda e os preços irão cair (na verdade, a escassez aumentaria os preços, no caso de um produto valorizado).

Só que Obelix começa a ficar sem tempo para caçar javalis, que são o seu sustento e o prato preferido dos gauleses, então ele começa a contratar os serviços de outro gaulês para que ele possa ter javalis sem ter que caçar. Além disso, ele também contrata os serviços de outros gauleses para ajudá-lo a fazer mais menires, aumentando assim a produção e podendo ganhar mais sestércios.

3ª lição de marketing por Régius Velhacus: Distribuição

Continuando com seu maquiavélico plano, Régius Velhacus chama Obelix para conversar, pois apesar da produção ter aumentado ele ainda entrega apenas um menir por dia, ou seja, precisaria entregar mais menires de uma só vez para ganhar mais sestércios ainda. Enquanto isso, na aldeia, um mascate aparece oferecendo seus produtos aos gauleses que ficam interessados no que ele tem para oferecer. Principalmente as mulheres da aldeia ficam encantadas com os tecidos de que o vendedor dispõe. O problema é que o vendedor não aceita escambo, ele prefere o dinheiro vivo, não chegando a nenhum acordo com os aldeões. Eis que surge Obelix e arremata de uma só vez todos os produtos do mascate, inclusive sua carroça, o que detona uma reação em cadeia nas mulheres da aldeia que exigem que seus maridos tomem alguma providência contra o ocorrido.

1ª lição de Asterix – Concorrência

Os homens da aldeia ficam em polvorosa com o enriquecimento de Obelix, principalmente Veteranix (o mais idoso da aldeia), casado com a gaulesa mais gostosa da aldeia, que começa a arrastar a asinha para Obelix. Veteranix então vai reclamar com Panoramix, o Druida, mas Asterix intervêm e diz que irá conversar com Obelix. A conversa com Obelix não frutifica, então Asterix planta uma semente na cabeça dos outros aldeões: “Por que vocês não fazem menires também?” E vários gauleses começam a produzir menires também e a entupir Roma com eles.

2ª lição de Asterix – A César o que é de César

Com a produção exagerada de menires, os pátios de César estão lotados das gigantescas estruturas, deixando-o furioso por ter investido tanto dinheiro em coisas inúteis. Mas Régius Velhacus decide colocar os menires no mercado dizendo ser a última moda, o que funciona, pois todos os romanos começam a adquiri-los como objetos decorativos de arte e os cofres de César começam a encher novamente.

Parece que a estratégia de Régius Velhacus começava a frutificar, mas...ele não contava com a capacidade produtiva dos próprios romanos, que começaram a fabricar menires de forma, digamos, mais industrializada, fazendo com que os preços dos menires começassem a cair vertiginosamente, ou seja, oferta maior que a demanda, gera uma queda de preços.

Além disso, César tenta proibir que os Romanos fabriquem menires, mas sua lei é derrubada pela insurgência do Sindicato de Fabricantes de Menires Romanos. Alguém aí lembrou da CUT? Com Roma à beira da falência, César ordena que Régius vá para Gália e providencie que parem de comprar menires dos gauleses.

3ª lição de Asterix: Pra que servem sestércios mesmo?

Alheia a tudo, a aldeia gaulesa continua a fabricar menires, menos Obelix, que implora a Asterix para que voltem a ser como antes, apenas amigos caçando javalis. Asterix faz um pouco de charme mas, no fim, os amigos se reconciliam e vão para floresta caçar javalis.

Enquanto isso, Ordenalfabetix vai até o acampamento Romano para descarregar uma nova leva de menires, quando recebe a notícia de que os menires não serão mais comprados pelos romanos. Ele volta para a aldeia e conta a péssima notícia a todos. Nesse momento os aldeões vêem Obelix voltando da caça com Asterix e o acusam de já saber que os romanos não comprariam mais menires e que por isso não os fabricava mais. Obelix indignado decide responder à maneira gaulesa e começa uma briga que se torna generalizada.

Asterix e Panoramix assistem a tudo muito satisfeitos, até que o astuto baixinho decide interromper a luta e sugerir que, ao invés de brigarem entre si vão até o acampamento romano descarregar toda aquela fúria sobre os causadores da discórdia. Dito e feito, romanos são arrebentados aos montes, inclusive Régius Velhacus.

E mais uma vez a história acaba com um banquete de javalis e com um menir arremessado sobre a cabeça de Chatotorix, o bardo mais desafinado e odiado da aldeia, que sempre acaba silenciado de uma forma ou de outra no final de todas as histórias.

A Grande Lição de Asterix

A lição que aprendi ao ler este álbum é: será que a gente precisa complicar a vida se deixando ela simples somos mais felizes? Será que precisamos adquirir bens todos os dias para nos sentirmos mais importantes? Ou será que ter um objetivo na vida é mais importante do que ficar rico e ter sucesso? É uma coisa a se pensar nesse mundo capitalista, desumano e individualista no qual vivemos, onde passamos a maior parte do tempo atrás do sucesso a qualquer preço e esquecendo de valores como a amizade, a liberdade e a lealdade. Será que o sucesso implica necessariamente em acumular riquezas? Será que pra sermos “melhores” que os “outros” precisamos ser mais ricos? São questões polêmicas, mas quem já não parou pra pensar nisso num momento de tédio, de saco cheio ou de crise existencial?

Talvez se debatêssemos questões desse tipo com maior freqüência do que o resultado de Corinthians x Palmeiras, seríamos mais questionadores do que a maioria dos ursos e deixaríamos de ser o povo “pacato” que somos, que só se “rebela” quando sente na pele as dificuldades. Vide a recente crise dos controladores de vôo. A maioria dos brasileiros passa pelas mesmas situações todos os dias quando pega um ônibus lotado e espera horas pra chegar em casa, não é mesmo? Porque será que o Jornal Nacional não se indignou com tudo isso antes? Porque será que o Alexandre Garcia não escreveu um artigo defendendo todos os cidadãos que pagam impostos e que são obrigados a passar por isso todos os dias? A resposta é simples, ele não pega ônibus, então não tá nem aí, a não ser que alguém morra, ou seja queimado vivo pelos traficantes, aí sim ele terá um “gancho jornalístico”. Acho que a tragédia com o Legacy e o Avião da Gol aflorou o problema e a discussão, e acidentes aéreos causam grande comoção pela quantidade de vítimas envolvidas. Mas será que os acidentes de trânsito, que matam milhares de pessoas todos os anos, são menos importantes? Ou será que já está tão banalizado que a gente nem se importa mais?

Bom, recomendo a todos que leiam as histórias dos gauleses mais invocados do mundo, pois além de se divertirem muito, vocês ainda podem aprender algumas coisas sobre história e refletir sobre hábitos da civilização, que mesmo depois de 2.000 e tantos anos continua agindo da mesma forma, sem evoluir. Alguém me arranja uma aldeia gaulesa pra eu morar, pelo amor de Deus!!

Discorda? Concorda? Me acha doido? Mande um e-mail para amaliojr@zipmail.com.br, e a gente debate civilizadamente.

 

 

 

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