Homem de Ferro (Filme)

Uma grande questão das adaptações para cinema dos personagens de quadrinhos é fazer caber toda uma longa e complexa mitologia em duas horas. A segunda questão é o eterno duelo entre fazer o que os fãs querem e, ao mesmo tempo, deixar uma boa abertura para quem não conhece o personagem entender o filme. Dessa forma, o roteiro é a peça chave para o filme funcionar. Na verdade, sem um bom roteiro poucos filmes se sustentam, seja ele de super-heróis ou não.
O problema é que o filme do Homem de Ferro fica devendo justamente nesse quesito. A trama geral é extremamente simples e algo que já vimos um milhão de vezes em filmes. O milionário que corre o risco de perder tudo por um golpe de alguém próximo e tem que se esforçar ao máximo para dar a volta por cima.
Mudam os detalhes para adaptar a história de Tony Stark. Seguindo as versões mais recentes do personagem, Tony estava no Afeganistão apresentando um novo armamento de sua empresa quando é seqüestrado por terroristas que querem que ele construa uma arma. Durante o ataque, ele sofre um acidente que deixa pedaços de metal muito próximos ao seu coração e, salvo pelo cientista Yinsen, também prisioneiro dos terroristas, Tony precisara de um equipamento permanentemente ligado ao seu coração para sobreviver.
Como era de se esperar, no momento de necessidade, com ajuda de Yinsen, Stark se empenha ao máximo e, ao invés de construir um míssel, cria uma poderosa armadura que lhe permitirá fugir. A partir daí o filme mostra o aperfeiçoamento da armadura até virar o traje do Homem de Ferro; acontece uma esperada traição - quem conhece as HQ´s já de cara sabe quem é o tal traidor - e para fechar o filme de ação, Stark em sua armadura enfrenta grandes desafios.
Além do festival de obviedades e da previsibilidade de cada detalhe da história, o filme acaba deixando vários buracos no roteiro na tentativa de agradar os fãs de quadrinhos. A mais irritante dessas situações é o agente da Superintendência Humana de Inteligência, Espionagem, Logística e Dissuasão (S.H.I.E.L.D.) que fica tentando marcar um horário para interrogar Stark. O problema desse caso é que quem não conhece os quadrinhos não consegue entender o que é essa tal agência que volta e meia é citada. E quem conhece sabe que um agente da S.H.I.E.L.D. não fica educadamente tentando marcar horário e, pior do que isso, qualquer espião não fica por aí falando de sua agência, principalmente se ela for secreta ao ponto de ninguém conhecê-la.
Outra fragilidade do filme é a questão do alcoolismo de Stark. Nos quadrinhos essa foi uma temática forte, Tony Stark bebia excessivamente e sofreu as conseqüências disso, tendo que enfrentar o seu “demônio na garrafa”. No filme, ele começa sendo retratado como um alcoólico inveterado, depois de ser salvo no Afeganistão aparece em vários momentos bebendo apenas suco, mas logo depois, quando está em uma festa, pede uma bebida. Não que essa questão tivesse que ser debatida no filme, obviamente não havia tempo para isso. Contudo, da forma como foi colocada acabou se tornando uma ponta solta.
Felizmente nem tudo é problemático no filme. O elenco muito bem selecionado, apresentando Robert Downey Jr. como Stark, Terrence Howard como Rhodney, Jeff Bridges como Obadiah Stane e a bela Gweneth Paltrow como Pepper Potts, a assistente de Stark.
Todos os atores fazem uma performance impecável e incorporaram muito bem seus personagens. Downey Jr. ficou perfeito no papel de milionário egocêntrico e excêntrico, enquanto Bridges se revelou um ótimo antagonista na pele de Stane, dando muito peso à esse coadjuvante que muitas vezes é esquecido na longa mitologia do Homem de Ferro.
Além disso, o filme conta com efeitos visuais fantásticos. O trabalho de computação gráfica nas armaduras, no maquinário de Stark, nos seus computadores holográficos e em diversos outros detalhes garantem o lado da aventura e da ação do filme.
Ainda sobre os efeitos especiais, algo que precisa ser lembrado quando se elogia o trabalho de computação gráfica é que o visual da armadura do filme foi claramente baseado nos desenhos de Adi Granov. Esse excelente artista fez diversas capas para a revista do Homem de Ferro e desenhou a série Extremis, que redefiniu o personagem. A característica marcante de Granov é seu trabalho com um visual bem digital e realista. Ele busca retratar a armadura como algo funcional na vida real tornando suas imagens próximas à de uma fotografia. Usando isso como base, ficou bem mais prático para os técnicos de computação gráfica darem uma vida plausível ao traje do Homem de Ferro.
No geral é um filme razoável. Vale muito a pena ver no cinema para curtir os efeitos, mas, caso não seja possível, ele é uma aventura para se ver em DVD em um domingo à tarde. Os fãs do personagem dificilmente vão se decepcionar totalmente, mas, considerando a situação atual do herói nos quadrinhos, com uma personalidade muito distinta do visto no filme, é pouco provável que ele forme novos leitores.
(30/04/08)