Fórmula
química dos quadrinhos e seu uso no cotidiano educacional
(ou, revistinhas nas salas de aula sim!)
por
Wally Silva

Quem
de alguma forma trabalha com crianças e adolescentes já
viu que as histórias em quadrinhos têm uma grande receptividade
na vida dos jovens, principalmente hoje com o fenômeno do
mangá (quadrinho japonês). Se perguntarmos a professores
o que acham dos quadrinhos em sala de aula, muitos defenderão
a idéia e até falarão da experiência
que já tiveram. Mas a questão é: Se perguntarmos
a nós mesmos “qual a definição de quadrinhos?”,
será que a resposta não seria vaga? Provavelmente
baseada em exemplos de infância ou personagens conhecidos
na mídia.
Não
é difícil ver os quadrinhos como uma arte-comunicativa.
O problema é que parte de nossa cultura inferioriza os quadrinhos
a ponto de não termos muitas bases para tirar nossas conclusões.
Às vezes a resposta para a definição de quadrinhos
é vaga, resultado de um conceito mastigado por educadores
ou críticos. Mais ou menos como a criança que decora
que a formula química H2O é água, mas não
tem a mínima idéia do significado de átomos,
hidrogênio ou oxigênio.
Existe
uma explicação para a fórmula dos quadrinhos?
Com certeza!
O
autor e quadrinista Will Eisner define quadrinhos com o termo arte-sequencial.
A partir de Eisner temos também uma definição
mais elaborada, de que particularmente eu gosto muito, feita por
Scott McCloud:
“Imagens
pictóricas e outras justapostas em seqüência deliberada,
destinadas a transmitir informações e/ou produzir
uma resposta no espectador.”
Quando
tomamos essas duas definições podemos afirmar que
o conceito por trás dos quadrinhos já fazia parte
da história da humanidade, muito antes da própria
invenção da imprensa e até mesmo da palavra
escrita ou falada. Desde o período paleolítico as
ações reais ou imaginárias já eram gravadas
em seqüências de imagens que serviam, segundo alguns
historiadores, para evocar a sorte na caça (talvez nossos
ancestrais estivessem só entediados, mas quem vai saber?).
O
uso da arte seqüencial como meio de comunicação
prossegue por toda história da humanidade e se mostra notório
em várias culturas. Egípcios, pré-colombianos,
pré-cambrianos, indianos, chineses e europeus da idade média
são algumas das sociedades que usavam a imagem e/ou o texto
para transmitir mensagens ideológicas, políticas ou
religiosas a seus componentes.
No
Brasil o valor dado aos quadrinhos pelo grande público e
por uma parte dos professores é apenas de entretenimento.
Porém sua aplicação é muito mais ampla
do que a usada atualmente, principalmente no que se refere às
salas de aula, onde por muitas vezes é colocada mais como
"uma curiosidade" ou "expressão artística
menor" do que como objeto educacional que pode ser usado tanto
na vida escolar como na vida cotidiana, mesmo porque as duas estão
associadas.
Muitas
vezes, quando procuramos exemplos de uso dos quadrinhos como instrumento
educacional o que encontramos é quase sempre o uso de imagens
de tirinhas de jornal chamando atenção para um assunto
especifico. Mas em uma análise mais detalhada do "corpo"
de uma história em quadrinhos, que não é limitada
a tiras de jornais, podemos encontrar mais do que a estética
como ponte para questões, digamos, acadêmicas.
O
uso como ponte para um assunto como geografia ou física é
válido, mas muito limitado. É como usar um bisturi
para descascar laranja. Uma história em quadrinhos não
é composta simplesmente por imagem/texto, mas também
de outros signos, oralidades e ideologias formando um complexo meio
de comunicação. Dessa maneira através do estudo
básico e da produção dos quadrinhos podem ser
inseridos temas como produção e argumentação
de textos, conhecimento de códigos e linguagens, além
de uma infinidade de conceitos artísticos, filosóficos
e qualquer outro tipo de informação.
Na
é difícil entender os quadrinhos e usá-los
na educação de crianças, adolescentes e jovens...
Quer saber mais sobre o assunto? Não perca nosso próximo
episódio.
Leia Também: Quadrinhos:
instrumento pedagógico ou folga para o professor?
Esse
texto faz parte do nosso Ciclo Científico, com a proposta
de divulgar a produção cietífica sobre quadrinhos
em seus mais diversos aspectos. Se você também é
pesquisador, mande seu texto para nós.