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Raízes das Histórias em quadrinhos

por Wally Silva


Quando falamos das raízes históricas dos quadrinhos geralmente o que vem a cabeça são revistas antigas. Pense numa revista bem antiga, o personagem mais antigo que você puder lembrar. Agora esqueça. Esse conceito provavelmente é o de quadrinho industrializado, ou seja, o meio de comunicação de massa como vemos nas bancas e nas tiras de jornais. Pensando dessa maneira vamos nos deparar não com a origem dos quadrinhos, mas com seu desenvolvimento como meio de comunicação de massa. Embora seja verdade a sua condição como propagador de idéias, para compreendermos melhor sua importância na sala de aula é necessário voltar nossa atenção para épocas anteriores à revolução causada pela invenção da imprensa.

Ancestrais das pedras

Arqueólogos de diversas partes do mundo podem constatar que nossos ancestrais pré-históricos deixaram gravadas nas paredes das cavernas marcas que mostram algo que acreditamos ser seu cotidiano. As pinturas rupestres são a mais antiga arte conhecida e exprimem seqüências de imagens, muitas vezes em sentido horizontal, que descrevem ritos de caça, animais e até mesmo as origens da vida social.

A descrição de "imagens pictóricas e outras justapostas em uma seqüência deliberada destinada a transmitir informações e/ou produzir uma resposta no espectador" (McCLOUD, 1995) é a definição que na maioria dos casos vamos precisar para definir os quadrinhos.

Podemos usar a mesma definição não só para as pinturas rupestres, mas também as pinturas do antigo Egito, onde o homem já possuía um melhor (se é que podemos rotular assim) domínio na representação da figura humana. Podemos entender nas imagens egípcias claramente a representação de solenes cenas ligadas à sua mitologia. O uso do desenho somado aos hieróglifos nos apresenta uma espécie de quadrinização de sua religião, seus deuses e hábitos.

Tendo em mente esses exemplos, vamos ver que ao procurarmos também em outras culturas acharemos paredes e monumentos como a Coluna de Trajano ou templos Astecas em que é possível visualizar de maneira clara o conceito tão parecido com nossas revistas em quadrinhos da modernidade.

Das Pedras para os tecidos

Embora seja o exemplo mais visível da “quadrinização da história”, não é só nas paredes que vemos essa representação linear. Em torno de 1519 foi descoberta pelo navegador espanhol Cortês uma espécie de manuscrito pré-colombiano com imagens coloridas que contava a história de um herói de guerra chamado "Garras de Tigre" (ou “Garras de jaguatirica”, dependendo da tradução). Semelhante a essa peça existe também a tapeçaria de Bayeux achada na França que em seus 70 metros mostra detalhes da caminhada de Guilherme desde a Normandia, passando pelo desembarque de 28 de Setembro e a batalha de Hastings, até à sua coroação como rei da Inglaterra no dia de natal de 1066. Um dos detalhes curiosos dessa peça é que em determinado ponto há a figura de um cometa que mais tarde através de cálculos astronômicos descobriu-se ser o cometa de Halley.

Idade Média

Antes ainda do aparecimento da imprensa, por volta de 1450, muitos documentos e livros foram escritos à mão. A escrita gótica feita com todo capricho de seus traços ora largos ora estreitos; as iluminuras e outras ilustrações poderiam colocar esses documentos ao nível de obra de arte. Lembremos do fato que na Idade Média a maioria absoluta da população era analfabeta, logo, de pouco valia a escrita para as classes menos abastadas. Mesmo os nobres que possuíam a leitura precisavam também possuir um certo nível de prestigio perante o clero, visto que a Igreja possuía o monopólio do conhecimento e da leitura, e nesse caso então era a instituição que guardava os livros.(Se nunca viu o filme “O nome da Rosa” veja. Vai ver o que estou dizendo...).

Nesse contexto social a maneira que se tornou, digamos, um "meio de comunicação de massa" foi a pintura decorativa das igrejas que continham passagens bíblicas por muitas vezes seqüenciadas. O melhor exemplo é a Via Sacra que através de quadros em seqüência deliberada narra o martírio de Cristo desde a traição até sua ressurreição. Dessa maneira, mesmo sem a escrita era possível aos iletrados compreender a doutrina católica e sua história através das imagens apresentadas.

Em nosso próximo artigo daremos um salto no tempo e veremos como os quadrinhos começam a ter seu formato como conhecemos. Até a próxima página.

 

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Esse texto faz parte do nosso Ciclo Científico, com a proposta de divulgar a produção cietífica sobre quadrinhos em seus mais diversos aspectos. Se você também é pesquisador, mande seu texto para nós.

 


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