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Invencível - Para aprender a ler Super-heróis

Principalmente aqui no Brasil, associamos imediatamente Histórias em Quadrinhos com Super-Heróis e associamos esses personagem com aventuras fantasiosas, com roupas coloridas, identidades secretas e intermináveis lutas com vilões que querem dominar o mundo. A primeira associação está muito longe de ser correta. Os quadrinhos são uma poderosa linguagem que serve para contar diversos tipos de histórias, desde as mais ficcionais até relatos históricos e jornalísticos. Apesar dos heróis terem popularizado essa mídia, não foram eles que deram início a ela, e se consideramos casos com a Europa e os Mangás no Japão, os heróis não são nem a maioria nas HQ's.

Mesmo assim, é certo que o gênero HQ de super-heróis é muito forte, principalmente no Brasil e nos EUA, e associar essas histórias a grandes aventuras fantasiosas não é tão errado assim. Muitos podem argumentar que depois dos trabalhos de Allan Moore, Frank Miller, Grant Morrison e outros, foi provado que os heróis podem ser sérios, podem ser adultos e comportam histórias muito além das fantasias juvenis que as pessoas que não lêem quadrinhos lhe atribuem.

O que muita gente esquece é que por mais que tente se tornar realista uma história, por mais que o roteirista faça uma trama densa, inteligente e bem desenvolvida, como Crise de Identidade, os heróis com seus uniformes justos e coloridos, com seus poderes incríveis e com o acaso sempre a seu favor são fantasiosos. É legal ler quadrinhos revolucionários como A Piada Mortal ou Watchmen, ser absorvido por toda a sua complexidade? Claro que é. É legal que tenha drama, que se leve elementos da vida real? Óbvio que sim. Mas querer dizer que os quadrinhos de heróis são realistas, querer que eles sejam outra coisa além de quadrinhos de heróis, com o tempo, acaba perdendo a graça.

Uma prova dessa "perda da graça" é que histórias que resgatam o espírito original dos Super-Heróis sempre são grandes sucessos. Recentemente tivemos dois exemplos muito patentes: DC: Nova Fronteira e Invencível.

Nova Fronteira pegou o público de imediato por não ter as amarras cronológicas que sempre dificultam os leitores eventuais na hora de acompanhar personagens que estão há décadas no mercado. Dessa forma, o leitor encontrava aqueles personagens de que ele sempre gostou, em histórias com todo um clima juvenil, mas sem ser alienante, e que não exigia que ele tivesse lido as últimas 700 histórias do herói e que tivesse que situá-lo em pré ou pós qualquer Crise que possa existir.

Mas a verdadeira grande e feliz surpresa é Invencível. Um personagem novo, criado por um escritor (Robert Kirman) e um desenhista (Cory Walker) praticamente estreantes, saindo por uma editora que marcou os anos noventa com cópias pasteurizadas de heróis bad boys e que agora vive de produtos quase alternativos. Tinha tudo para ser um grande fracasso, mas as pessoas foram dando uma chance para a história e aos poucos ela conquistou muitos leitores.

No Brasil tivemos a felicidade de ver essa série como carro chefe de uma nova editora (HQM Editora, ligada ao site de notícias sobre quadrinhos HQ Maniacs) e recentemente foi lançado o excelente terceiro volume (Perfeitos Estranhos) que fecha a primeira fase da série. Não só a revista foi um sucesso entre o público como mereceu uma indicação ao Troféu HQ Mix na Categoria Melhor Série de Aventura.

Não é difícil entender o sucesso de Invencível. Ele é uma HQ de heróis que assume isso com muito orgulho e respeito. Quando se pensa em um super-herói o que temos em mente? Um uniforme colorido e representativo; uma identidade secreta; uma moral inabalável; uma origem interessante; alguns amigos; intermináveis lutas com super-vilões; entre tantos outros clichês que foram se formando durante os anos.

Atualmente, a maior parte desses ítens é pervertido, os heróis passam bem longe de serem heróicos, as origens não podem ser apenas legais, devem ser científicas, plausíveis em seus mínimos detalhes no mundo real. Aliás, toda a vida do herói deve ser justificada ao máximo. Como Darwin Cooke diz em DC: Nova Fronteira, aos poucos se matou a magia dos quadrinhos porque determinou-se que aquilo era bobo.

Invencível é a prova de que essa linha de pensamento que predomina nos quadrinhos nos dias de hoje pode não ser o melhor caminho a seguir. Kirkman resgatou tudo de bom que os quadrinhos tinha antigamente e provou que não eram um amontoado de clichês arcaicos e, sim, recursos narrativos poderosos que ainda funcionam muito bem para contar uma verdadeira história de herói.

Mas não pense que Invencível é uma história sem propósito, irrelevante, ela é apenas despretensiosa. Kirkman usou a linguagem adequada, de forma muito inteligente, para contar uma história que, aos poucos, revela cativantes dramas. Essa primeira fase da história, encerrada no Volume 3 – Perfeitos Estranhos é uma belíssima história de pai e filho.

Nos dois primeiros volumes vamos nos encantando aos poucos coma a família de Mark, com o seu amor uns pelos outros e, acima de tudo, fica claro o quanto ele admira e quer ser como o pai, não só por ele ser o Omi-Man, o maior herói da Terra, mas por ser uma pessoa amorosa, forte, alguém de quem se tem orgulho de chamar de pai, não importando a profissão que ele tenha.

Quando Mark descobre seus poderes e entra nos “Negócios da Família”, tornando-se o super-herói Invencível, ele quer seguir os passos do pai, quer lutar a seu lado, ser, algum dia, tão importante quanto ele. Mesmo quando a história dá uma grande virada no terceiro volume e Mark descobre que seu pai não era exatamente quem ele imaginava, ainda assim, tudo que ele quer é ficar ao lado do pai.

Além dessa incrível história de pai e filho e de todas as complicações da vida adolescente de Mark, que, além de salvar o mundo, tem que concluir o colegial, Kirkman insere diversas subtramas feitas para agradar os fãs de quadrinhos como ele. Ali vai se encontrar de tudo, desde a obiviedade da identidade secreta para o melhor amigo do herói até a excelente observação de Omni-Man de que quando ele chegou na Terra percebeu que os humanos eram um povo que vivia constantemente em perigo e que ele mesmo não conseguia acreditar como a toda hora tinha algum monstro destruindo algo ou algum cientista louco tentando dominar o mundo.

No geral, Invencível pode não se tornar um clássico dos quadrinhos, certamente ele nem tem essa pretensão, contudo ele é uma leitura indispensável. Todo fã de heróis, principalmente aqueles que desistiram de ler quadrinhos há algum tempo, deve dar uma chance para essa história e descobrir, ou redescobrir, como é viciante uma boa história de heróis.

   


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